Por Amauri Eugênio Jr.

Com certeza, você já ouviu frases como “Vou fazer uma ‘gordice’”, “Tinha de ser gordo, mesmo”, “Estes três quilos a mais me fazem sentir gordo(a)”, entre outras coisas. Falas como essas, além de muitas outras e de diversas atitudes relacionadas a pessoas com sobrepeso ou obesidade, parecem ser engraçadas, mas não são. Muito pelo contrário.

Ainda quando começamos a nos entender por gente, a cobrança para se ter uma boa aparência é das mais intensas. Apenas pessoas que estiverem dentro de certo padrão estético parecem ter voz e vez. E quem estiver fora desse perfil acaba sendo deixado em segundo plano, ainda mais pela associação da aparência com sucesso na vida profissional – e na parte pessoal, inclusive.
Dentro desse quadro, quem estiver acima do peso considerado ideal é visto como alguém sem tanto êxito em diversos setores da vida, passando pela carreira e vida social, refletindo até mesmo na sexual. Encontrar alguma roupa? Esse é um desafio que, dependendo do caso, é dos maiores. Mesmo nas entrelinhas, pessoas gordas são colocadas em segundo plano na sociedade a qual, por mais difícil que seja para admitir, é gordofóbica.

Falar sobre gordofobia, termo usado para se referir à (adivinhe?) fobia com pessoas gordas, chega a soar como um papo politicamente correto. Mas não é. Fazer uma pessoa virar alvo de discriminação por causa da forma física beira a crueldade. Isso é equivalente a não ter direito a uma identidade, pelo fato de ser necessário estar dentro de um grupo social para ser considerado cidadão.
“Existe uma intensa necessidade de ser aceito; logo, as pessoas acreditam que precisam ser esteticamente parecidas, levando em consideração a atuação da mídia, dando a nós doses diárias de corpos esbeltos e sarados para que sejam tidos como exemplos de satisfação”, explica Thais Ulrichsen Fernandes, criadora de conteúdo do site GrandEstima, voltada a questões relacionadas à aceitação do próprio corpo.

gordofobia

Nada contra gordos

Ainda na infância, durante uma inocente partida de futebol na rua, o garoto gordo era um dos últimos a ser escolhido, se não o último, porque os demais meninos achavam que ele não jogaria bem. No caso das meninas, as princesas eram sempre magras e as gordinhas eram, se muito, as amigas engraçadas das protagonistas. Quando se fala em alimentação, pensa-se que gordos comem quantias maiores, mesmo havendo muito “magrelo” bom de garfo. Em resumo: qualquer autor de gordofobia não se vê como tal.
Qual é um dos efeitos colaterais da gordofobia, em especial associando a forma física à saúde? A obrigação de a pessoa gorda sentir-se aceita na sociedade. Esse é um pulo para se recorrer a dietas malucas, e que seguramente seriam reprovadas por nutricionistas, a diversos alimentos inibidores de apetite “y otras cositas más”. Tudo isso para estar dentro de um padrão que, muitas vezes, não é o dela.

Peso e gênero

Se para o homem gordo, o peso já rende diversas formas de discriminação, esse fator é ainda mais delicado para as mulheres. Ainda há quem associe a beleza à forma física; por isso, a cobrança para mulheres estarem dentro de um padrão é para lá de intensa. É como se a pessoa fosse obrigada a ser esbelta para ser considerada bonita, recorrendo ao senso comum de que só existe um tipo de beleza. Mas vamos aos fatos: mulheres podem ser lindas cada uma à sua maneira, não importando etnia, jeito de se vestir ou falar, e o peso – é claro. As modelos plus size não deixam mentir. “Algumas pessoas precisam entender que o combate à gordofobia não está relacionado a mostrar que a pessoa gorda é mais bonita ou mais importante do que a pessoa magra, mas ambas merecem respeito igual. A pessoa gorda é também um sujeito de valor e, consequentemente, não deve ser tratada como alguém inferior”, ressalta a criadora de conteúdo do site GrandEstima.

gordofobiaEfeitos colaterais

Pessoas gordofóbicas esquecem-se de que as demais têm sentimentos. Piadas ou comentários inconvenientes podem causar estragos grandes. Pode não parecer, mas isso tudo pode resultar, sim, em casos de depressão e dificuldade para a pessoa aceitar a si mesma. E, em casos extremos, pode levar à morte, seja por suicídio, procedimentos estéticos malsucedidos, ou por problemas de saúde resultantes de alternativas pouco ou nada recomendáveis.

Lar, doce (?) lar

Assim como as demais fobias, a gordofobia tem o ponto de partida em casa. Pode ser tanto pelos pais recorrerem à hostilidade para falar com os filhos, como pelos comentários desnecessários e maldosos feitos pelos parentes – o clássico “Nossa, como você engordou!”, por exemplo. Caso a pessoa não seja bem resolvida consigo mesma e empoderada – ou seja, consciente sobre quem é –, pode-se cair na falta de autoaceitação e em casos de depressão.
Para evitar dar uma de gordofóbico, o primeiro grande passo é pensar duas vezes antes de fazer um comentário que possa ofender. Com o passar do tempo, já será possível perceber como aquela piada clássica sobre gordos era, na verdade, preconceituosa. “Olhar com outros olhos é importante para quebrar os preconceitos. Você não precisa achar bonito e nós, pessoas gordas, não estamos aqui para fazer a sociedade ser gorda ou nos engolir. Mas se o preconceito continuar, seremos obrigadas, sim. Cada corpo é único, especial e merece ser respeitado”, finaliza Thais Ulrichsen Fernandes.

Violência gratuita

  •  Em entrevista concedida à revista Joyce Pascowitch, a atriz global Betty Faria, 74, declarou que não gosta de mulheres gordas e que tem “repulsa, rejeição. Sempre batalhei para não ser uma velha gorda.” Chega a ser irônico pensar que ela fez, em 2013, um comercial de uma marca de chocolates;
  •  Em julho deste ano, a consultora Cíntia Cunha, 37, morreu após perder 45 kg, resultantes de dieta composta por 400 kcal diários – o ideal para um adulto é consumir entre 2.000 e 2.500 kcal/dia. O motivo? Um rapaz lhe disse que ela “era gorda e não conseguiria nada na vida dessa forma”.

Matéria originalmente publicada na Revista Weekend – Edição 302