Entrevista concedida a Fábio, Jônatas e Tamiris
Fotos: Marcelo Santos
Transcrição: Paulo Manso

Com a agenda cheia, os dias de Gustavo Henric Costa e Alexandre Zeitune estão mais curtos. Sob o peso de uma votação histórica, a dupla mergulha em um processo de transição de governo e tenta achar tempo para escolher a equipe que vai implantar uma nova plataforma de gestão pública, como eles dizem. Prefeito e “co-prefeito” receberam a RG e se mostraram conscientes do tamanho da responsabilidade que têm nas mãos. E do prazo que possuem para sinalizar à sociedade guarulhense que rumo o novo governo tomará após 16 anos de PT.

Onde vocês nasceram e qual é a relação com Guarulhos?

Guti: Eu nasci no Cangaíba [zona leste de São Paulo] e vim para cá com três anos de idade. Então eu não conheço vida fora da cidade de Guarulhos. Foi aqui que aprendi a fazer tudo. Desde andar e falar.
Zeitune: Sou nascido em Guarulhos, no [Hospital] Carlos Chagas. Meus pais são nascidos aqui. Minhas filhas nasceram em São Paulo, mas moram aqui desde sempre.

Qual é a formação acadêmica de vocês e que outros cursos fizeram para se prepararem para esse mandato? Como foi o início na vida pública?

Zeitune: Eu nasci no comércio, na Rua Dom Pedro II, na Casa da Borracha. Em uma reunião da Associação Comercial [na época, era chamada ACIG] eu acabei acompanhando meu pai [o ex-presidente Ary Zeitune] quando Luis Roberto Mesquita estava assumindo a entidade. E lá, por conta de um convite do Luis Roberto, eu acabei entrando como diretor cultural. Ele queria dar uma cara mais jovem para a Associação Comercial. E lá eu comecei minha vida política, ainda não partidária.
Guti: Desde muito novo eu sempre gostei de fazer o bem. Eu defendo que todas as pessoas têm que fazer o bem. E, quando eu fui crescendo, percebi que sendo político eu conseguiria fazer o bem em larga escala. Passei a estudar política e participei de movimentos estudantis na faculdade. E, logo aos 23 anos de idade, participei da minha primeira eleição. Fui eleito vereador e acredito ter feito um bom trabalho, senão não teria sido reeleito e, agora, escolhido para ser o prefeito da cidade.


E sobre a formação acadêmica?

Zeitune: Eu sou bacharel em Direito. Tenho quatro pós-graduações em Direito. Sou mestre e estou doutorando. Sou egresso da Escola de Governo, aquele convênio da USP com o professor Fábio Konder Comparato. E tenho MBA em Banking por conta da minha atuação na Cooperativa de Crédito. Fora vários cursos livres na área política.
Guti: Sou bacharel em Direito e tenho uma pós-graduação em Direito Administrativo. Estou perdendo para o meu vice, mas como ele é bem mais velho, eu alcanço (risos). Tenho vários cursos livres na área política. Recentemente eu estava fazendo um sobre governo de transição, mas o tempo para iniciarmos o governo não permitiu concluir.

A margem histórica pela qual foram eleitos dá uma espécie de salvo-conduto da população e, ao mesmo tempo, uma responsabilidade imensa. Como atuar com o peso de não poder errar, dado o risco de decepcionar tanta gente?

Guti: Eu acredito que essa votação não é nossa, e isso não é falsa modéstia. Essa votação é do total de pessoas que anseiam pela nova política e que enxergaram isso na gente. Nós sabemos que isso muda muito rápido. Nós não consideramos esse percentual um capital político. Mas é fato que esses quase 500 mil votos fazem com que tenhamos um peso muito grande nos ombros. Temos que nos dedicar 24 horas por dia para não frustrar essas pessoas que acreditaram na gente. Esse peso está tirando muito o nosso sono, pois não estamos descansando para tentar dar uma boa resposta a partir de janeiro e já nos primeiros 100 dias de governo.
Zeitune: É importante dizer que esses eleitores votaram principalmente nesse processo de transformação. Por uma mudança na plataforma de gestão pública. Durante toda a campanha a gente disse que nesse velho modelo de poder não roda política pública nenhuma. E que a gente propõe uma plataforma colaborativa, onde todos realmente vão começar a ocupar a política e ocupar a cidade.

Vocês eram conhecidos por serem acessíveis e alguns setores têm reclamado que isso mudou.

Zeitune: Essa é uma questão que me incomoda bastante. Porque estamos fazendo um esforço sobre-humano para atender a todos. Inclusive nesta entrevista nós atrasamos um pouco, e eu peço desculpas, mas é que estávamos atendendo vereadores e não podíamos parar. Estamos sempre em atividade e buscamos mostrar, inclusive pela internet, que estamos trabalhando e fazendo de tudo para atender a todos. A gente entende a demanda, mas não podemos esquecer que neste momento de transição precisamos nos dedicar à implantação do nosso projeto porque logo mais começa o governo e seremos cobrados por ele.
Guti: A partir daquele domingo em que fomos eleitos, a expectativa mudou. Na segunda-feira as pessoas perguntam: ‘E aí? O que vão fazer agora? Qual é o plano de vocês?’. São muitas reuniões. A transição de governo é algo trabalhoso, que toma tempo. Tivemos agenda com o governador, com o Tribunal de Justiça, o Ministério Público, o Tribunal de Contas. O Zeitune esteve em Brasília. Eu sei que as pessoas querem estar perto da gente, mas, acima de tudo, elas vão querer resultados. Então nós temos que saber dosar para atender a todos e não parar de trabalhar na transição. Nossos dias estão mais curtos.


Nunca se viu uma relação entre prefeito e vice como a de agora. Que espaço o Zeitune terá no governo? E a Rede?

Guti: O Zeitune é o co-prefeito. Eu falo isso desde a pré-campanha. Não existe vaidade. O que tem que aparecer é o trabalho. E a gente sabe que unidos a gente consegue. Ele é um cara muito pensativo, eu sou mais de ação. E essa combinação dá muito certo. Nós sempre estaremos lado a lado, tomando decisões juntos. Ele me representa e eu o represento. É uma simbiose e isso não vai mudar. Ele vai ter um papel crucial no governo para poder implementar as políticas públicas que nós dois acreditamos. A Rede é o partido dele e também terá seu espaço para fazer a mudança. E nós não trocamos cargo por apoio. O próprio Zeitune já falou isso abertamente com os filiados da Rede. Para ninguém esperar carguinhos ou penduricalhos. ‘Ah, eu não posso ir, mas vou indicar a minha mãe’. Isso não existe.
Zeitune: Esse programa nasceu em 2014, com Eduardo [Campos] e Marina [Silva]. Com seis grandes eixos que pautaram o nosso programa aqui. A própria Marina usa sempre uma frase de Victor Hugo: ‘Nada é mais forte do que uma ideia cujo tempo chegou’. E é exatamente isso. Nós fomos eleitos por encarnar a mudança que a população deseja. Em nenhum momento nós dissemos que vamos melhorar tudo. Nós pregamos que neste velho modelo não roda nenhuma política pública. A gente está falando de uma nova plataforma de gestão colaborativa. Aonde nós todos vamos participar do processo que será muito mais profundo. Que é o verdadeiro processo de transformação que a gente tanto fala.

Ainda sobre a questão do espaço no governo, há rumores de que o Zeitune assumiria a Secretaria da Educação. O que há de verdade nisso?

Zeitune: Eu tenho afinidade com a área. Mas eu sou o co-prefeito do Guti. De qualquer forma, tanto eu quanto ele vamos olhar a educação como um dos centros de desenvolvimento de uma sociedade. A educação, o esporte, a cultura. Há muito tempo eu venho defendendo a implantação de blocos. Não apenas esse. Mas o processo de transformação não pode dar um nó na administração pública. A cidade tem que continuar andando. Nós devemos R$ 1,5 bilhão, mas em janeiro a cidade tem que estar andando. É uma luta interna. O Guti pensa nos seis eixos, mas existe um processo de transformação.
Guti: Uma coisa que o Zeitune diz desde que começamos o trabalho é que ele é um cumpridor de tarefas. É claro que a Educação é uma pasta muito cara a todos nós e o Zeitune é uma pessoa na qual eu confio. Não teria problema algum tê-lo na Secretaria da Educação me representando. Mas nós não fechamos questão sobre várias secretarias. Nós estamos dialogando e compor um time não é tarefa fácil. O Zeitune defende essa ideia de blocos. Eu já defendo algo um pouco diferente, mas que dialoga com a ideia dele, que é o intersecretariado. Aqui em Guarulhos as secretarias não se conversam, por conta do loteamento. Isso será implementado logo de cara. Toda semana teremos reunião com todos os secretários, para dividir responsabilidades e universalizar informações. Nos primeiros 100 dias, período que vai mostrar os rumos do governo, teremos duas reuniões semanais. Não existe progresso se você não dividir informações e responsabilidades. Para os secretários que eu já anunciei eu já deixei isso bem claro. Por exemplo, o Dr. Lago. Não é porque ele é secretário de Saúde que ele não pode opinar em alguma questão importante de Desenvolvimento Urbano. Se ele tem uma visão além da nossa em outra área, é obrigado a compartilhar. Para que o governo não erre.

Como está sendo a transição e o comportamento do PT, que vocês tanto criticaram?

Guti: Eu tenho me reunido periodicamente com o atual prefeito para que a gente consiga fazer a melhor transição possível. Ele está se mostrando muito republicano. Está dando um diagnóstico, a política que ele emprega. Onde ele gostaria de ter avançado, o que tem que corrigir. Não falo pelo partido, mas pelo atual prefeito. O Almeida deu um passo adiante. Para quem imaginou que ele fosse acatar alguns mandamentos de outros correligionários, ele está fazendo o contrário.

Você já decidiu pela exclusão de alguma secretaria?

Guti: A gente ainda está formatando. Seria prematuro dizer agora como será a junção, qual forma, quais pastas. Não é fácil formar um time. Ainda mais para nós, que não loteamos o governo para ganhar a eleição.

Mas não é justamente por isso que deveria ser mais fácil a formação da equipe?

Guti: Não. Porque tem muita gente boa na cidade. E, em muitos casos, temos que pensar não apenas em quem é o melhor, mas em quem é o melhor para este momento. Não basta a pessoa ser técnica e ter um currículo maravilhoso. Ela tem que estar próxima do que a gente acredita e que está no nosso plano de governo.

Vocês apenas não anunciaram ainda os outros nomes, por alguma questão estratégica, ou, de fato, ainda não decidiram? Eles terão autonomia para montar seus times?

Guti: Alguns nós já decidimos. Outros ainda estamos estudando. A pessoa tem que ser técnica, mas também tem que conversar com nosso plano de governo. É a implementação de uma política que foi construída com o que ouvimos da sociedade. Nossos secretários terão liberdade para caçar os talentos que acharem necessários para implementar as mudanças que queremos. Mas a montagem da equipe precisa de nosso aval.

Vocês prometeram enxugar pelo menos 30% da máquina. Quais serão os critérios adotados para concretizar essa ação?

Guti: O critério é, no mínimo, 30% de redução.

Mas isso é meta. Quais serão os critérios? O que vocês decidiram, por exemplo, sobre os secretários adjuntos?

Guti: Em Guarulhos nós temos uma falha. Aqui não existe a figura do chefe de gabinete do secretário. Isso tem no Governo do Estado e na Prefeitura de São Paulo. Nós imaginamos o atual secretário adjunto como um chefe de gabinete. Uma pessoa que vai organizar tudo, fazer a diferença no andamento da secretaria. Mas nós temos que pensar numa nova lei para disciplinar isso.

Por falar em economia, há muito tempo se fala sobre o gasto com aluguéis e a possibilidade da construção de um centro administrativo. Vocês acreditam que isso é possível?

Guti: É nossa meta a construção de um centro administrativo. Mas temos alguns empecilhos que nos obrigam a usar soluções inteligentes. Não faz sentido, neste momento, a gente tirar dinheiro de políticas públicas essenciais para construir o centro administrativo. Mas existem alguns dispositivos, mais conhecidos pelo mundo da iniciativa privada, como o built to suit, que funciona em forma de parceria com o setor privado. O investidor constrói o imóvel de acordo com as necessidades do locatário, que seria a Prefeitura, e esta faz um contrato e vai amortizando o valor durante seu andamento. No final do contrato o próprio se integra ao patrimônio público.
Zeitune: Nós temos um problema emergencial. Nós vamos entrar, nestes primeiros 100 dias de governo, num planejamento de crise. Tudo o que a gente se prontificar a fazer é temerário. Mas é fundamental para nós fazer esse centro administrativo. Guarulhos está 50 anos atrasado neste caso. Nós queremos fazer, mas antes precisamos gerir essa crise.

Sua principal proposta na campanha foi ‘colocar para funcionar o que Guarulhos já tem’. Qual será a primeira providência sobre isso?

Guti: O primeiro passo é enxugar a máquina pública e rever toda nossa dívida. Através de auditorias para enxergar exatamente por onde o dinheiro está escorrendo. A auditoria demora um pouco mais, mas o enxugamento a gente consegue fazer já no primeiro mês.
Zeitune: E isso já estabelece um impacto financeiro para o ano todo, além de sinalizar para a sociedade qual será o comportamento da administração.
Guti: Sobre finalizar o que existe, nós temos muitos casos. Na saúde, por exemplo, o Hospital Pimentas Bonsucesso tem um prédio magnífico, mas não funciona. Temos duas UPAS prontinhas, a Paulista e a Cumbica, que não têm material humano para funcionar.
Zeitune: Mas as alternativas têm o tamanho de Guarulhos. Não é ‘puxadinho’ o que a gente está propondo. É baratear, mas fazer funcionar de verdade.

Em quanto tempo você acredita que entrega o Trevo de Bonsucesso. Você endossa a informação de que ele está 70% pronto?

Guti: Nossa equipe de transição está analisando. A gente não acredita que ele estará praticamente pronto em dezembro, apesar de torcer por isso como guarulhenses.
Zeitune: Todas essas obras, o Trevo de Bonsucesso, a Ponte da Vila Any, o Piscinão da Vila Galvão, são indecências. São 10, 15 anos empurrando isso. É por isso que pretendemos fazer um check-list e entregar um cronograma de obras, de fluxo de caixa e mostrar para a sociedade.
Guti: Mas a minha vontade pessoal, e eu vou me empenhar muito para isso, é entregar o Trevo de Bonsucesso no primeiro ano de governo.
Zeitune: Nosso compromisso é não começar nenhuma grande obra sem terminar essas estruturais tão importantes.

Recentemente, Guarulhos esteve em duas reportagens sobre funcionários fantasmas. Em uma delas você foi ouvido e argumentou sobre alguns serem cruciais para o funcionamento da Câmara, o que a reportagem mostrou não ser verdade, pelo menos para parte deles. Como enfrentar esse problema dos fantasmas?

Guti: Para deixar claro, eu não falei que as pessoas eram cruciais, mas que aqueles cargos são essenciais sim para o bom andamento da Câmara. Eu tenho contato com alguns deles, pelo menos os que trabalham diretamente na Diretoria de Plenário, e eles fazem a Câmara funcionar. Mas, a gente percebeu na matéria que existem pessoas que estão usurpando do dinheiro público. Eu, como prefeito, responderei pela Prefeitura. Garanto para vocês que não existirá cargo fantasma na Prefeitura. Se houver algum indício, será afastado. Se for comprovado, exoneração na hora. No primeiro mês de governo isso será revisto. Algum choque de gestão tem que ser feito. É claro que existem alguns setores determinantes no começo do ano, como a Defesa Civil. Janeiro é época de fortes chuvas e existem comissionados que trabalham corretamente. Nós não podemos ser irresponsáveis e sair cortando. Mas no primeiro mês conseguiremos fazer o diagnóstico e cumprir nossa meta inicial de 30% de redução.


Quais critérios adotará para a comunicação oficial e investimento em mídia com publicidade?

Guti: Também aqui falamos em redução. Nós temos a meta de reduzir, e reduzir bastante, todo gasto com comunicação. Mesmo porque, hoje em dia nós temos métodos mais baratos para nos comunicar. E quando a gente fala em comunicação não é só propaganda de governo. Tem muitas campanhas educativas e de utilidade pública. Na verdade, nas ‘secretarias-meio’, que são aquelas técnicas, mas que não implantam políticas públicas propriamente ditas, nós vamos enxugar bastante. Justamente para poder investir mais nas outras, como Saúde e Educação.

Uma das heranças deixadas pelo atual governo é o parcelamento do bônus dos professores. Vocês pretendem honrar esse compromisso?

Zeitune: Sem dúvida nenhuma. Agora, nós vamos ter que abrir o orçamento e mostrar para os professores: ‘A verdade é esta. Como vamos resolver isso juntos?’.
Guti: É o que a gente vem conversando com várias categorias do serviço público. A gente sabe que muitas vezes eles acabam sendo subvalorizados. Mas nós temos dialogado com eles e explicado que aos poucos nós vamos fazer as reposições dos direitos, mas não dá fazer tudo de uma vez.
Zeitune: E nós temos legitimidade para fazer isso. Sabe por quê? Porque aqui ninguém fez contrato de ‘caça pombo’. Eles [servidores] estão lidando com gente séria e que quer transformar a cidade. Junto com eles. Entendendo que nós não temos a menor chance de fazer sozinhos. Nós vamos, se Deus quiser, extirpar a corrupção da nossa cidade. Eu costumo falar para a Marina que a mudança que queremos para o Brasil vai começar em Guarulhos. Mas isso depende de todos nós.

Mais alguma consideração?

Guti: Apenas agradecer e pedir o mesmo o espaço para dar entrevista depois dos primeiros 100 dias de governo, para falar dos avanços, das frustrações e planos futuros.

Confira em vídeo: