Psicóloga orienta sobre o difícil momento do vestibular e escolha da carreira

Entrevista concedida ao jornalista Valdir Carleto; fotos de Pedro Campos @pecamposphoto

Quando se aproxima o período dos vestibulares, a psicóloga guarulhense Kátia Ura, que participa do programa “Como será?”, da TV Globo, e dirige o Instituto Ritus, de orientação sobre carreiras, falou à RG – Revista Guarulhos sobre a difícil fase da adolescência e de como tem atuado para orientar jovens a se conhecer melhor e, assim, a escolher o melhor caminho a trilhar.

Onde nasceu e qual sua formação?
Sou guarulhense, formada em psicologia pela PUC-SP, especialista em psicopedagogia pelo Instituto Sedes Sapientiae, com aprimoramento em Abordagem Psicossomática pela PUC-SP e membro da Abop (Associação Brasileira de orientação profissional).

Há quanto tempo atua na área da Psicologia?
Atuo há 12 anos como psicóloga clínica, orientadora profissional individual e em grupo. Faço palestras e presto serviços de assessoria psicológica e psicopedagógica em escolas e organizações educacionais. Faço parte da equipe de orientadores profissionais do quadro “Qual vai ser?”, do programa da Globo “Como será?”, onde é apresentada a situação de jovens na escolha profissional, influência dos pais e a busca de autoconhecimento através da orientação de um profissional. Não me limito em trabalhar no consultório. Gosto de explorar as múltiplas facetas e espaços onde a psicologia, junto com a educação, pode atuar.

O que é a Ritus?
Há 2 anos fundei a Ritus – Orientação Profissional e Desenvolvimento Humano. Trabalhamos com diferentes programas com públicos diversos, desde jovens do ensino fundamental II, ensino médio e cursinhos; universitários, adultos e integração de famílias. Temos como missão despertar nos jovens e adultos o autoconhecimento e o protagonismo, através daquilo que enxergam como propósito, fazendo escolhas conscientes e que deem sentido à jornada da vida. Sou apaixonada pelo meu trabalho, pois é uma maneira de caminhar em prol do que acredito: no desenvolvimento e potencial humano.

Por que considera importante o atendimento a jovens?
A adolescência é uma fase de transição da infância para a vida adulta, fase onde se perde os interesses, gostos e corpo da criança e começa a passagem para o corpo adulto, maturidade psicológica, emocional e busca de quem é e o que faz sentido na vida. Para muitos, parece um buraco negro (rs): tudo é muito intenso, oscilação de humor, hormônios, questionamentos e gostos diversos que mudam de tempos em tempos. Não reconhece mais os pais da infância, começa a questionar algumas “verdades” e criar suas próprias. É comum buscarem mais apoio e reconhecimento no grupo de amigos com quem têm afinidades do que na família. Essa fase geralmente tende ser difícil para os pais, que percebem que começam a perder o controle da vida e escolhas do filho. Nesse momento, muitos pais têm mais dificuldade de dialogar e compreender o que se passa na cabeça do jovem. Sem contar que nessa idade, o provérbio “Santo de casa não faz milagres” se encaixa muito bem. Diante dessas demandas, o atendimento psicológico pode ajudar o adolescente a olhar pra dentro de si, conhecer-se melhor, encarar suas questões, angústias, ter uma postura mais proativa perante os problemas, além de integrar mais os pais e trabalhar o diálogo positivo dentro da família. É nessa fase que o herói tende a despertar dentro do jovem, descobrir com o que se identifica e ativar a força e potencial que carrega dentro de si para contribuir com seu desenvolvimento pessoal e consequentemente refletir no coletivo.

A que atribui a dificuldade do adolescente escolher a área que irá abraçar?
Acredito que muitos fatores podem influenciar nessa dificuldade, mas alguns considero mais relevantes. Um deles é a imaturidade de escolha dos jovens quando eles saem do ensino médio. Imagina que ao nascer, o jovem cai numa grande floresta (que é a vida), mas ele não está perdido, pois cai numa trilha demarcada e protegida primeiramente pela família.Depois a trilha continua com a escola, que norteia o que tem que aprender intelectualmente, hora de acordar, de matérias a estudar, o que cai na prova, que nota tem que tirar para passar de ano. É para isso que muitos alunos estudam, com o objetivo somente de passar de ano, pois não querem repetir tudo de novo. Se pararmos para pensar, um jovem de 18 anos que ingressou aos 3 anos na escola, permaneceu em média 15 anos até sair do ensino médio. Imagina ficar nessa rotina durante tanto tempo, sendo orientado sempre por adultos, cumprindo uma agenda lotada com inglês, natação, aulas extras. Depois que acaba o ensino obrigatório, é como se a trilha demarcada acabasse e ele cai numa floresta com infinitos caminhos possíveis para escolher, pensando no futuro. Muitos se desesperam nesse momento, pois não vivenciaram a prática de fazer escolhas conscientes, refletindo em escolhas prematuras e mal refletidas, aumentando a chance de frustrações futuras.

As múltiplas alternativas chegam a ser um problema?
Até o inicio do século XIX, os únicos cursos superiores possíveis eram medicina, direito e engenharia. Hoje existem quase 300 opções de cursos, afora outras possibilidades de carreira disponíveis. Está mais complexo fazer escolhas. Quanto mais possibilidades, maior a dúvida do que fazer, sendo o futuro cada vez mais transitório e mutável. As novas tecnologias, a internet das coisas, farão com que muitas carreiras desapareçam, para dar lugar a muitas profissões novas, com as quais hoje sequer podemos sonhar.
Antes a base das escolhas era de fora pra dentro, pensar nas oportunidades externas para ver o que é possível realizar no trabalho. Hoje o movimento é de dentro para fora. “Quem sou eu, meus potenciais,  sonhos, habilidades e competências que acredito que possa exercer e se adaptar do lado de fora…”

 

Sabe-se qual o percentual dos que escolhem uma carreira e depois descobrem que não era o que procuravam?
Os dados do Censo da Educação Superior 2015 revelam que a taxa de desistência dos estudantes do ensino superior em 2014 foi de 49% e a de conclusão, 29,7%. Somente cerca de 21% dos estudantes que entraram em 2010 permaneciam nas universidades em 2014. Ou seja, praticamente metade dos alunos que ingressam desistem do curso. Isso gera um grande prejuízo no investimento público e privado, levantando a importância da orientação profissional dos jovens antes de ingressarem em uma faculdade.Há muitos fatores que podem levar a esse resultado, dentre eles a frustração entre expectativas e realidade da escolha que fizeram, dificuldade financeira, oferta de cursos com modelos ultrapassados e também pela falta de flexibilidade para que os estudantes mudem de curso dentro das instituições.

Como devem agir as famílias que têm jovens prestando vestibular, tanto na escolha da carreira quanto na preparação para os exames?
Os pais não podem escolher pelo filho, pois essa escolha diz respeito à jornada individual do jovem e à busca de sua realização profissional no futuro. É muito comum os pais projetarem suas expectativas e frustrações da adolescência nos filhos. Por isso é importante se perguntar: essa escolha é para meu filho ser feliz ou para eu me sentir feliz? Os pais podem ajudar bastante; afinal, possuem um repertório de vida que pode contribuir no processo de escolha mais consciente do filho. Podem incentivar o filho a se informar sobre as profissões atuais e do futuro, pesquisando diferentes ocupações e perspectivas do mercado de trabalho, seja por meio da análise da grade curricular, ou por meio de atividades em campo, entrevistando profissionais da área, explorando a realidade profissional (test drive). Incentivá-lo a visitar as faculdades de interesse, e não deixar isso para o dia da matrícula. É importante o jovem conhecer o ambiente universitário, as “tribos” que ali transitam, onde moraria caso passar em uma região distante da família. Conversar com o filho sobre as observações dos interesses desde a infância dele. Quais eram suas preferências: atividades em grupo ou individuais, por jogos com regras ou de imaginação, pelo desenho ou pela montagem e construção, por correr ou ler, por bichos ou por aparelhos eletrônicos, permitindo estabelecer a relação das características de personalidade dos filhos com a demanda ocupacional de algumas ocupações. Incentivar e apoiar atividades extracurriculares ajuda a promover o autoconhecimento, pois representa oportunidade para que o adolescente explore e desenvolva suas aptidões e interesses. As melhores escolhas partem de experiências vividas.

Como as famílias devem orientar os jovens a lidar com o fracasso e as perdas?
Os jovens têm dificuldade em reconhecer seus medos, e muitas vezes apegam-se a figuras que idealizam, adotando-as como modelo e não conseguem enxergar o esforço e sacrifícios que elas fizeram para chegar lá, ou as dificuldades e fracassos que enfrentaram nesse caminho. Conversar com os filhos sobre seus objetivos de vida, o que pretendem alcançar na vida, seus sonhos, assim como sobre seus medos e inseguranças, ajuda a perceber que não existe mágica, mas muito trabalho e dedicação e ajuda o jovem a se preparar para lidar com possíveis falhas e frustrações. É preciso mostrar para o adolescente que na vida nada é para sempre; conversar sobre a possibilidade de mudar de escolha durante o percurso tem um grande efeito tranquilizador.

E quando o vestibulando não consegue passar, como deve ser a reação da família?
A família, principalmente os pais, devem mostrar compreensão e acolhimento. No Brasil, o exame vestibular e o Enem têm sido as principais portas de entrada ao ensino superior. Nas universidades públicas, chega a ter mais de 50 candidatos por vaga nos cursos mais concorridos, o que torna o exame uma grande competição para os jovens que almejam a formação universitária. Esse processo seletivo gera conflitos, medos, dúvidas e ansiedade. Como dizia Rubem Alves, decorre do vestibular o chamado “efeito guilhotina”, caracterizado pelo terror psicológico que contagia e vai aumentando à medida que o exame se aproxima. Dessa forma, o vestibulando tem a sensação de obrigação em ser bem-sucedido no exame: “Tenho que passar no vestibular!”. Esta é a expressão mais utilizada pela maioria dos vestibulandos para traduzir a pressão que sentem vir deles mesmos, da família, do ambiente escolar e da sociedade, provocada, principalmente, pela ideia de que o vestibular é um fim em si mesmo, um grande monstro que tem que vencer, pois não passar, seria como se repetisse de ano. E um dos maiores medos que muitos jovens relatam é o de frustrar os pais. Por isso, estes têm que ajudar o jovem a entender que o vestibular é só uma etapa desafiadora que vai ajudar a ficar mais próximo do sonho. É uma meta, um degrau: o sonho é muito maior que passar no vestibular. Os pais estarão apoiando o filho a ser resiliente, a lidar com a frustração e a não desistir do que busca.

Separação dos pais influencia no resultado dos vestibulares?
Não é a separação dos pais em si que pode influenciar, mas a forma como o casal lida com a situação e o modo como envolve o filho nesse processo. Os pais têm que ter consciência que questões relacionadas ao casal cabem ao casal decidir. Lógico que não e facil para o filho ver seus pais se separando, mas quanto mais harmonioso, com respeito e rico em diálogo ocorrer o processo, melhor será para toda a família. O vestibulando já sente muita pressão nessa fase, precisa se preocupar em estar bem com ele mesmo e com todo o processo da prova. Se os pais ficarem envolvendo-o indevidamente nas desavenças do casal, isso sim irá sobrecarregá-lo emocionalmente e atrapalhar seu desempenho, independente de estarem separados ou não.

Tem crescido o índice de jovens que se suicidam. Quais as razões, em sua opinião?
Para falar um pouco mais sobre esse assunto considerado delicado para muitos, é importante compreender melhor como é a adolescência que nasceu conectada em um mundo globalizado e com celular na mão, os chamados “nativos digitais”. “Esperar” é um verbo complicado pra quem é jovem nessa geração. Tudo tem que ser pra agora, pra já. Têm senso de urgência, impulsividade. Querem fazer tantas coisas ao mesmo tempo e ainda têm de estudar. Parecem multifocados, mas essa dinâmica toda dificulta o foco e a noção de prioridades. Cresceram com pais ausentes; geralmente são superprotegidos porque existe o medo do perigo e violência do mundo. Um problema acaba sendo o excesso de exposição nas redes sociais e os vínculos emocionais e afetivos que vão se construindo nessa relação com a internet. Como quero ser visto pelo outro? Constroem relações afetivas mais líquidas e menos tolerantes. Ficam mais vulneráveis à opinião alheia e aos sentimentos de rejeição, não pertencimento. Juntando as questões típicas da adolescência com as demandas da atualidade, acredito que esses fatores, mais o distanciamento no convívio com os pais, a pressão social pelo sucesso e pelo corpo perfeito, medo de não passar no vestibular, o bullying e a depressão são vividas muito mais intensamente nessa geração, que tem dificuldade em lidar com as frustrações, sendo a solução encontrada por alguns o não enfrentamento das dificuldades, mas sim, acabar com o sofrimento através de escolhas que colocam em xeque a própria vida, pois acreditam que não existe mais esperança de melhora. É um sentimento da vítima que sofre abuso do principal vilão, aquele que está dentro, desmotivando, agredindo e culpando a si mesmo.

Como a família pode agir para evitar que isso aconteça?
Por isso tudo, a importância de medidas que ajudem o jovem a despertar o herói dentro de si, para que se posicione perante os problemas, encarando-os como desafios para encontrar soluções. Para isso, é importante ajudá-lo a fortalecer a capacidade de resiliência, gratidão pelas oportunidades, principalmente a auto-estima e amor próprio.