Quando a realização vale mais que o salário

Está descontente com seu trabalho e sonha com novas possibilidades profissionais para a sua vida? Saiba que você não está sozinho. Segundo pesquisa feita pela Isma Brasil (International Stress Management Association), em 2015, 72% dos brasileiros estavam insatisfeitos com o emprego. De lá para cá, possivelmente, esse número aumentou. Mas o que também dá para notar é que, na contramão dessa estatística, hoje é muito mais comum ouvirmos histórias de pessoas que abandonam um emprego estável para correr atrás de um trabalho que lhes proporcione mais prazer, satisfação e qualidade de vida, mesmo que isso signifique ganhar menos.

Pode parecer utopia falar em buscar por um ofício que dê mais sentido à vida e faça a gente verdadeiramente feliz, mas, acredite, isso é possível. Claro que partir para uma nova empreitada, na maioria das vezes, não é nada fácil. Rolam inúmeros questionamentos no meio do caminho e é natural que o fantasma do “e se” apareça para assombrar nossos planos: “E se tudo der errado?”, “E se meus pais ficarem decepcionados?”, “E se eu não conseguir manter o padrão de vida?”, “E se a educação dos meus filhos for prejudicada?”. De fato são muitas incerteza, mas até que ponto vale adiar seus desejos e projetos?

Virar o leme em direção contrária e mudar o rumo é sim uma decisão difícil, mas se pensarmos pelo lado positivo – e construtivo -, quem escolhe mudar sempre ganhará em aprendizado. Há quem mude a rota sem encarar tempestades, de maneira leve; e há quem sofra e encare obstáculos. Não há segurança durante o processo, mas uma coisa é certa: quase todos os que se arriscam, garantem que o passo dado é válido, porque inevitavelmente essa é uma forma de tomar as rédeas da própria vida.

 

Saem o terno e a gravata; entram a camiseta e a bermuda

Abandonar o emprego estável como bancário, que pagava um bom salário, e tornar-se organizador de eventos esportivos foi o que Felipe Iannucci, 30, ousou fazer para buscar a tão sonhada felicidade profissional. “Para manter as contas em dia, por um período, simultaneamente, trabalhava no Citibank, desenvolvia sites, tinha um centro estético automotivo e realizava algumas pequenas corridas de rua aos fins de semana. Entrei no Citibank aos 19 anos, passei por setores operacionais até chegar a um cargo mais técnico na área de contabilidade em fundos de investimentos. Era um trabalho massivo, passava horas e horas focado em planilhas de excel, calculando e recolhendo taxas e impostos dos fundos. Era um trabalho que não tinha margem para o erro”, conta Felipe.

Além do cansaço físico e mental, outra questão que pesou para o jovem bancário foi a falta de tempo com o filho. “Perdi as contas de quantas vezes cheguei e saí de casa e meu filho estava dormindo. Me aproximava dos 30 anos, tinha cada vez mais responsabilidades e foi quando comecei a repensar o rumo que estava dando à minha vida. Me questionava: ‘é isso que quero para os próximos anos?’. ‘Devo seguir? Se não, essa é a hora de parar!’. Tinha um ótimo salário e não enfrentava dificuldades em pagar as contas de casa, porém, faltava felicidade.

Eu era um influenciador, as pessoas me ouviam, acreditavam em mim, mas eu não acreditava mais. Estava infeliz e sabia que as corridas, que era algo que eu já tinha certo conhecimento, me fariam mais feliz”.
Felipe tinha o trabalho no banco, mas paralelamente sempre esteve envolvido com a organização de provas de corrida. Fez edições do Circuito Popular de São Paulo, corridas populares infantis, corridas fechadas de empresas até que, depois de cerca de 60 eventos, criou alguns produtos pela lei de incentivo ao esporte e seu produto principal: o Desafio 28 Praias.
“Entre altos e baixos, hoje, três anos depois, tenho um produto incrível que é o Desafio 28 Praias, o evento está na sexta edição e é considerada a maior maratona trail do litoral brasileiro. Agora, com mais experiência e com uma equipe melhor estruturada, busco lançar novos produtos quase que com sua totalidade na natureza”.
No entanto, vale lembrar que nem tudo são flores. Apesar de a decisão de Felipe ter sido muito bem pensada, inclusive financeiramente, largar um emprego e partir para o trabalho dos sonhos, mesmo que com algum tipo de experiência, não foi garantia para que tudo desse certo.

“Existiram dois fatores que me encorajaram a tomar minha decisão: um era a questão de querer ter mais tempo com meu filho e outro era meu forte desejo de empreender. Embora tenha parecido loucura para a maioria, pensei muito antes de sair do emprego, porém, não havia nada seguro, era um risco mesmo.

Não podia errar, pois meu filho e minha ex-companheira dependiam de mim na época. Mesmo assim passei por dificuldades. Enfrentei problemas financeiros no começo e até hoje enfrento, isso porque no aperto, quem acaba pagando é o dono da empresa. Contudo, sou muito mais feliz, tenho qualidade de vida e não me arrependo dessa decisão. Tenho horários flexíveis, posso praticar um esporte pela manhã ou tarde e retornar ao trabalho. O fato de fazer homeoffice me permite também trabalhar nas madrugadas, horário em que rendo melhor. Estou muito mais participativo na vida do meu filho. Posso levá-lo e buscá-lo na escola e isso não tem preço”, finaliza.

 

Do mercado financeiro ao mundo das redes sociais

Formada em marketing, Natalia Oliveira dos Santos, 29, trabalhou por alguns anos com logística até receber o convite de uma tia para ingressar no mercado financeiro, segundo ela, algo totalmente diferente e desafiador na época. “Vendia antecipação de capital de giro para empresas e por lá fiquei seis anos. Tinha uma boa estabilidade, cargo de confiança e até plano de carreira, mas tudo mudou depois que fui comprar uma peça de roupa em uma loja. Fiz uma foto com as roupas e publiquei nas minhas redes sociais. A loja viu, gostou e o administrador perguntou se eu gostaria de fotografar outras peças.

Foi assim que meu trabalho de influenciadora digital começou e que percebi que poderia fazer algo que me dava prazer”, explica. Mesmo com a nova portunidade, Natália ainda se segurou por mais algum tempo no emprego antigo para ter mais segurança antes de largar tudo e partir para o universo das redes sociais. “Fiquei por seis meses trabalhando todos os fins de semana no que seria meu novo negócio. Não tinha folga, já que de segunda a sexta tinha o meu trabalho fixo. Quando percebi que não estava me dedicando da maneira certa em nenhum dos dois trabalhos, vi que era a hora de optar por um deles”, revela.
A incerteza de Natália diante dessa oportunidade virou motivação para seguir rumo à nova experiência. Ter afinidade com o que pretendia transformar em trabalho também conspirou a favor.

“Sentia que era a hora, precisava arriscar, e se não desse certo, tudo bem, recomeçaria do zero, mas ao menos teria tentado. O que mais pesou para que eu apostasse numa nova profissão foi optar por fazer algo que eu amasse de verdade. Internet, moda, compartilhar experiências e conteúdo sempre foi algo que gostei. Outro ponto foi o apoio da minha família e o fato do meu namorado entender um pouco de fotografia e edição de vídeo. Ele me apoia muito e hoje é 50% de todo o trabalho que fazemos juntos”, pontua.

E sobre ter algum tempo de arrependimento, Natália logo dispara: “Não tenho arrependimento nenhum. Trabalhar com o que se gosta é gratificante demais, mas não quer dizer que tudo é fácil. Quem é autônomo sabe a responsabilidade e dificuldade que enfrenta todos os dias. E em tempos de crise, largar um emprego estável por algo totalmente incerto pode ser um pouco de loucura. A responsabilidade é muito maior quando você assume as consequências de ser autônomo, mas basta dar tudo de si, trabalhar de corpo e alma que o resultado vem. Apesar de hoje eu trabalhar muito mais do que no emprego antigo, entendo que quando você faz algo por amor, não mede esforços. Trabalhar à noite, aos fins de semana, fazer o que precisar, porque aquilo traz uma satisfação enorme. Acredito que o principal benefício dessa história é o prazer de dedicar-se àquilo que acredita”.

 

Não tenha vergonha, busque ajuda

De acordo com Sohati Kondo, consultor de empresas e coach no Instituto i9c, mudar de carreira ao longo da jornada profissional é uma transformação bastante complexa, contudo, dá para sentir-se mais seguro durante o processo munindo-se da ajuda de profissionais que possam deixar a transição menos conturbada. “Coach de carreira, mentor, consultor de negócios e até mesmo um psicólogo são possíveis facilitadores para a mudança de chave. Esses profissionais podem auxiliar muito na tomada de decisão”, afirma Sohati.

 

Planeje-se

Já decidiu que vai correr atrás do seu sonho? Ótimo! Mas antes será preciso entender mais a respeito da sua nova empreitada. Você precisará fazer perguntas, entender conceitos e identificar se terá tempo suficiente para se dedicar ao novo ofício. “O planejamento é fundamental e existem diversas ferramentas para alcançar o objetivo proposto. Gosto do modo mais simples da coisa. Nas minhas sessões, por exemplo, uso de um dos principais sentidos: a visão. Esse é o modo de contato do seu eu com o mundo exterior. Sendo assim, pratique escrever um plano de ação em folhas grandes e com giz de cera, acompanhado de uma boa música. Dentro desse contexto, é possível trabalhar além do visual, o auditivo, o sinestésico e as crenças fortalecedoras”, esclarece Sohati.

 

Vá ser feliz, mas seja consciente acima de tudo

É importante buscar por um trabalho que, além de dinheiro dê prazer, mas também é prudente se planejar e entender quais são os reais riscos de partir para algo novo. Para muitos, “chutar o balde” nem sempre é uma opção, pois escolher abandonar um emprego estável impacta em questões financeiras e familiares, e nem todos estão prontos para assumir riscos, principalmente quando há pessoas que dependem de você. E isso não significa que falte de coragem ou sobre comodismo. Talvez, o segredo seja só ter um pouco mais de paciência e foco no seu propósito.

 

A idade pode ser um problema para largar tudo e buscar uma nova possibilidade?
“Acredito que não. Quando temos um verdadeiro desejo de coração, também possuímos a verdadeira coragem para ultrapassar os fatores limitantes.”
Danielle Moreno, 42, trabalhou 13 anos numa montadora multinacional e decidiu sair para atuar como professora de yoga. Atualmente está matriculada no primeiro ano da faculdade de fisioterapia.
“Não existe idade para tentar algo novo, aliás, não há limite para nada. Se você acredita nos seus objetivos deve seguir em frente. Basta ter coragem e vontade para sair da zona de conforto.”
Renato Kenji Ito, 38 anos, trabalhou 18 anos como executivo na área financeira e atualmente é empresário no ramo de brindes para festas.
“Não. Acredito que nunca é tarde para ir em busca de algo que te faça feliz. Seja em qualquer área da vida. É melhor errar por tentar do que passar a vida pensando no que poderia ter acontecido se você tivesse tomado aquela decisão.”
Divani Miranda, 36 anos, trabalhou na área de TI por quase 20 anos, gerenciou diversos projetos na área de e-commerce e é especialista em startups. Hoje é coach em desenvolvimento humano.

 

Dica literária

“Viva o ano de seus sonhos – Como largar o trabalho que você odeia e conquistar a vida que sempre quis”

O livro dá ao leitor a chance de conhecer o programa de coaching desenvolvido pelo autor Ben Arment, intitulado como “Dream Year” (Ano dos sonhos, em inglês). Pelo programa, as pessoas que desejam tomar outro rumo profissional são desafiadas a mudar de vida no período de um ano para finalmente realizarem o que nasceram para fazer. Além de reflexões e conselhos, a obra traz exemplos de indivíduos que conseguiram realizar esse sonho.