Quando meu primeiro filho nasceu, passei a existir

No último dia 8 de agosto de 2019, quinta-feira, fez 45 anos que me tornei pai efetivamente, pois foi – também – no final da tarde daquela segunda quinta-feira de agosto de 1974, de um suave e inesquecível inverno, que veio ao mundo meu primeiro filho, que recebeu o nome de Junior – por escolha da própria mãe, já que para a minha espera seria uma menina, a Cíntia, que quinze meses depois, realmente, também nasceu e acabou aumentando nossa família, que se completaria com a presença do Alden, nosso querido caçula, seis longos anos depois. Vale recordar que entre a Cintia e o Alden, infelizmente, tivemos uma perda: nosso terceiro filho não sobreviveu mais que 54 dias.

Creio que para as mulheres que se tornam mãe, o nascimento do primeiro filho seja como uma verdadeira consagração, uma iniciação para a sua real natureza, já que a menina-mulher, pelo ato natural, deixa de existir para dar lugar a uma nova, especial e maravilhosa criatura, que a partir de então deixa transbordar as mais sublimes faculdades do Amor, que se revestem especialmente da renúncia, da dedicação e dos mais elevados atos de sacrifícios, em prol da sua cria, além da belíssima capacidade de intuir, perceber, sentir e se comunicar com a pequenina criatura que, sempre, está a necessitar e exigir.

Para o homem – talvez – seja, inicialmente, um misto de orgulho e de realização que nascem do mais puro instinto de sua própria preservação, já que vê – conscientemente ou não – no seu rebento a continuidade da vida e a perpetuação da sua espécie, embora possa sentir que, também, houve uma iniciação para um novo ciclo. Mas, de qualquer maneira, posso garantir – por experiência pessoal – que também os homens, com o nascimento de seu primeiro filho, se transformam ou, antes, se metamorfoseiam, já que seu caráter, também, a partir do momento mágico, sofre significativas mudanças que lhe trazem, quase que instantaneamente, mais responsabilidades, mais esperança e, também, força para lutar contra os obstáculos da Vida e subjugar as adversidades naturais, embora venha, também, em seguida, o receio, o medo! Medo de não conseguir realizar o que a vida, a partir de então, passa a lhe exigir. Medo de falhar, medo de errar e fraquejar! Medo do futuro e de não saber cumprir o que a Vida está a lhe propor.

Ao contrário – talvez – da mulher, que deixa sua natureza íntima fluir, o homem – principalmente se não tiver maturidade – se vê diante de um grande desafio e, de certa forma, da necessidade, agora, do próprio Mundo conquistar. Assim, com o nascer do primeiro filho, o novo pai – também, quase menino – se vê forçado a rapidamente interiormente crescer e, inevitavelmente, novos horizontes descortinar para muitas outras coisas para a sua família conquistar.

Este é o momento, de caráter muito especial, que o pai-menino se reconhece em seu próprio pai, naquele que também a vida lhe ofereceu. A ocasião em que lhe vem à mente, mais fortemente, os momentos especiais que passou, ao longo da vida, com aquele primeiro herói que o acolheu. E, no seu jovem coração vem morar, então, uma singela virtude que muitos a designação de Gratidão, embora eu creia que ela vá além, pois sua natureza nos leva a verdadeira comunhão com o “Pai Geral”, ou seja o próprio Criador!

Nasce aí – talvez pela metamorfose – um novo homem, o homem real!

A partir de então, começa uma nova jornada para a Alma do rapaz. Um caminhar, muitas vezes solitário, de um herói que é forçado, naturalmente, a desconhecidos mundos desbravar! Mas – posso novamente garantir – é, por outro lado, uma aventura eterna, inesquecível, transformadora e profundamente gratificante, já que a Vida passa a ter, realmente, razão e o sentido torna-se a própria Vida, que se transforma na mais sublime e divina das realizações!

Posso hoje, até mesmo, dizer: “Quando meu filho nasceu eu, também, passei a existir”!

*José Paulo Ferrari é psicólogo clínico, com especialidade em Saúde pela Unifesp e Hospital do Câncer