Bem-humorada, Jucimara Keile da Cruz Oliveira, de 37 anos, traz em sua trajetória as marcas de uma brasileira de vida sofrida, mas que não abaixou a cabeça para as pedras que estavam no caminho. Sua história é uma lição de vida para quem acha que o êxito de uma pessoa depende do berço onde nasceu.

Desde os sete anos de idade, Jucimara cuidava de seu irmão mais novo para ajudar sua mãe, que precisava trabalhar para sustentar a casa. De vida sofrida, sua família não podia contar com o suporte do pai, que gastava todo o dinheiro que ganhava com bebidas. Seu ciclo letivo foi feito de idas e vindas à escola, na tentativa de seguir com os estudos. Porém, mesmo com o incessante apoio da mãe, não encontrava motivação para frequentar as aulas. “Minha mãe não teve culpa de nada; pelo contrário, ela combinava com a patroa horários que não afetassem os meus estudos. Mas, por conta de toda essa dificuldade, eu não sentia vontade de estudar. O problema era eu”.

Moradora da comunidade do Industrial conheceu o pai de sua primeira filha com 12 anos. Infelizmente, ele foi preso sem ao menos saber que Jucimara, então com 15 anos, estava grávida. “Minha mãe nunca me deixou ir visitá-lo. Dizia que ali não era lugar pra mim, mas eu continuava gostando dele. Escrevi várias cartinhas, inclusive”, brinca Jucimara, que mal sabia que um ano depois, ele, com 22 anos, viria a ser morto por policiais, em uma tentativa de roubo. “Era o primeiro indulto dele e, ao invés de voltar [para a penitenciária], preferiu ficar foragido”, conta. “Ele nunca foi ruim pra mim, nem me fez mal. Mas o problema dele era a droga; ele se acabou sozinho. Por mais que nós dois estivéssemos juntos, o caminho que ele escolheu foi um e eu, outro”. Nessa época, Jucimara tinha 17 anos. Questionada se teve contato com entorpecentes, disse que nunca experimentou nenhuma outra droga a não ser o cigarro, vício que adquiriu com 11 anos e permanece até hoje.

Mesmo com as dificuldades do dia a dia, Jucimara mais uma vez teve sua mãe como base para superar esse momento e criar a filha. Tentou continuar com os estudos por meio de um supletivo, mas, aos 18 anos, envolveu-se com o seu atual marido, engravidando cinco meses depois. Com dois filhos para criar, desistiu de vez da escola. “Eu tinha até vontade de estudar. Foi no supletivo que conheci a professora de matemática que me inspirou a ser o que sou hoje. Tenho, inclusive, guardado o livro que ela me deu. Mas aí você pensa: 19 anos, dois filhos e na oitava série? Não dá, né?”.

Seus outros dois filhos nasceram com pouca diferença um do outro. Aos 22 anos, com quatro filhos e sem estudos, Jucimara conta ter entrado em desespero. “Ainda mais quando procurava emprego e não conseguia por não ter estudos. Meu marido, filhos e eu moramos por 14 anos em uma casa de dois cômodos que a minha sogra cedeu e sou muito grata por isso, mas aquilo não era meu. Também via aquelas crianças dependendo de mim e ficava preocupada. Eu não enxergava formas para sair daquela situação. É desesperador. Mas costumo dizer que meus filhos foram a minha escadinha para subir na vida, porque apesar de tudo eu não desisti. Foi quando surgiu a oportunidade de fazer a prova do Encceja. Eu fiz e fui muito bem”.

A volta por cima

“Consegui um emprego de diarista e assim pude melhorar um pouco a minha situação. Eu sempre tive um sonho de ser professora, mas parecia que torná-lo realidade não era possível.”

Jucimara, no entanto, conta que a guinada que mudou o rumo da sua trajetória começou com os R$ 20 que sua mãe deu para ela comprar alguma comida diferente para o Natal. “Eu guardei o dinheiro. Me lembro muito bem que naquele ano eu comi carcaça de frango no Natal”.

Pode parecer brincadeira, mas Jucimara teve um bom motivo na época para não gastar o dinheiro: ela aguardava a abertura das inscrições para serviçal da Prefeitura de Guarulhos, que custava esse mesmo valor. “Eu estudei sozinha. E na época não tinha internet, viu? Usei muito, inclusive, o livro que a minha professora tinha me dado lá no supletivo. Foi valioso. O resto do conteúdo do edital busquei com o que eu tinha. E deu certo”.

Jucimara foi chamada para atuar no Ambulatório da Criança. Nesse interim, algo um tanto fora do comum ocorreu em sua vida, o que contribuiu para que ela conseguisse subir mais um degrau. “Antes de prestar o concurso, me inscrevi no programa Bolsa Família. Na época que eu realmente precisava, ele não saiu. Quando fui chamada para receber o benefício, já era concursada. Perguntei se teria problema e fui informada que isso serviria como um retroativo e que era só eu não me cadastrar no ano que vem. O que eu fiz? Ao invés de gastar o dinheiro com outras coisas, investi o dinheiro no curso de Pedagogia durante aquele ano e paguei boa parte da graduação”.

A jovem Jucimara não parou por aí. Concursada e estudando Pedagogia, prestou um novo concurso público, dessa vez para cozinheira. E passou. “Já na cozinha, eu comecei a fazer hora extra para conseguir pagar a faculdade porque não tinha mais o Bolsa Família e foi assim até o fim do curso”.

Terminado o curso de Pedagogia, Jucimara prestou concurso para professora da rede municipal. E passou. Como não queria ficar sem estudar, ingressou no curso de Matemática. “Quando dei por mim, meu sonho estava realizado. Quando eu já estava para terminar a graduação, prestei novamente um concurso, mas dessa vez para ser professora do Estado. E passei”.

A menina Jucimara da comunidade do Industrial, que com 15 anos engravidou e aos 22 tinha quatro filhos, conquistou a casa própria, o carro zero e uma vida melhor para sua família. “Agora estou pensando se farei pós-graduação ou mestrado. Eu não sei, mas acho que vou tentar concurso para ser diretora”.

A nova vida adotada por Jucimara, no entanto, custou algo que ela considera precioso: “Eu não vi os meus filhos crescerem e sinto muita saudade disso. Quem cuidava deles era meu marido, minha sogra e, novamente, minha mãe”, diz com os olhos lacrimejados. “Mas era isso ou continuar na vidinha medíocre que eu vivia, sem poder oferecer uma vida melhor para eles”.

Como mensagem aos que passam por dificuldades em alguma fase da vida, ela resume: “Esforço. Tem gente que se acomoda com o pouco que tem. Mas se o seu sonho é maior do que a sua vida, por que você não pode ser maior do que o seu sonho?”