Quem teve o prazer de viver a década de 80 e o início dos anos 90 presenciou um tempo de rica produção cultural: a música ganhava mais e mais lançamentos, a televisão estava cheia de séries e grandes programas, os cinemas lotados de estreias que virariam grandes sucessos, as lojas de videogames começavam a encher suas prateleiras com consoles da Sega e da Nintendo, a moda trazia tendências inovadoras e estilos bastante diferenciados. Foi um tempo de efervescência e inovação, com o surgimento de novos nomes no MPB e a criação de grandes bandas do pop rock nacional, como Legião Urbana, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Ira, Ultraje a Rigor e Titãs. Uma época de grandes baladas românticas, de videoclipes e de cultura pop, marcada por nomes como Madonna, Michael Jackson e até mesmo Xuxa, a Rainha dos Baixinhos. Um tempo bom que não volta nunca mais. Ou não, já que o saudosismo oitentista está mais em alta do que nunca, com referências por todos os lados: nas telinhas e telonas, na moda e na música.

Saudosismo puro

Que tempo bom! - Matéria sobre anos 80Marcos Cárfora, 42, cartunista e professor na faculdade Eniac, viveu sua adolescência nos anos 80/90 e guarda ótimas lembranças desse tempo, na memória e em prateleiras também. “Tenho quadrinhos, álbuns de figurinhas, livros e coisas da época, como um Super Nintendo com diversos jogos, entre eles Super Mário, Mortal Kombat e Donkey Kong 1, 2 e 3, uma pelúcia do Snoopy na embalagem original e diversos bonecos Playmobil, angariados no Mercado Livre. Também tenho coleções inteiras de vinis, como a do Queen. Cheguei a ter mais de 400 LPs. Hoje, esse número deve estar um pouco acima dos 200. Gostaria de ter um espaço para eles, mas, como não tenho, eles estão guardados na casa da minha cunhada esperando para serem resgatados. […] Recentemente, ganhei do meu irmão Marcelo, especialista em garimpar raridades, um gibi antigo da Mônica que tem a resposta a uma cartinha que enviei para o Maurício de Sousa, em 1984. Foi muito legal ganhar algo assim, por todo o sentimento envolvido”.

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Para ele, ver tantas referências a essa época na produção cultural de hoje é puro saudosismo. “Era um período bastante incerto. A democracia estava voltando, mas ainda havia muitos problemas especialmente com a inflação. Porém nos divertíamos muito, éramos jovens, com menos preocupações e seriedade, e o mundo era mais off-line. Além disso, com o fim da ditadura, houve uma explosão de cultura que estava engasgada no povo; grandes bandas, cineastas, escritores e outros artistas soltaram o verbo. Os sentimentos afloraram. Por isso, esse resgate cultural é muito válido. Para nós, que vivemos, vale a lembrança e a saudade; para os que estão conhecendo agora, a certeza de que foram anos fantásticos e maravilhosos, como os que eles vivem hoje e gostarão de relembrar mais pra frente”, pontua.

Referência cultural

Que tempo bom! - Matéria sobre anos 80Valdenir Medeiros da Silva, 49, professor de matemática da rede estadual, músico nas bandas CLT 40 (pop rock cover) e Vitrola Mágica (rock autoral), conta que viveu, parafraseando uma música dos Titãs, “Tudo ao mesmo tempo agora”, na década de 80. “Além de ter virado pai demasiadamente cedo, toda minha formação política e cultural surgiu ali. Minha principal referência foi no campo artístico, mais precisamente na música. No terreno do pop rock, creio que foram as décadas mais criativas e duradoras. As letras falavam de contestação, poesia, festa… Algumas bandas existem até hoje e os clássicos passam de geração em geração, atualíssimos”. Segundo ele, que é mais conhecido como Zinho, a riqueza cultural daquele período é transcendental. “A saga ‘Star Wars’ se encaixa perfeitamente nisso. São pais, filhos e avós consumindo avidamente uma mesma produção. Meus pais assistiram, eu assisti e minhas filhas também. É como o desenho do Pica-Pau ou o seriado do Chaves, por exemplo”.

Nas telinhas e telonas

Que tempo bom! - Matéria sobre anos 80Tempos áureos para a produção cinematográfica, especialmente a norte-americana, o final dos anos 70, toda a década de 80 e o comecinho dos 90 criaram um legado inestimável para a sétima arte. Foi nessa época que os grandes clássicos surgiram, marcando, definitivamente, uma geração, com obras como “E.T. – O Extraterrestre”, “Os Goonies”, “O Exterminador do Futuro”, “Querida, Encolhi as Crianças”, “De Volta Para o Futuro”, “Os Aventureiros do Bairro Proibido”, “Gremlins”, “Tubarão”, “Jurassic Park” e muitos outros. E o sucesso é tanto que, recentemente, muitos deles ganharam remakes (regravações), reboots (novas versões) e/ou continuações nas telonas. É o caso de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, “Karatê Kid”, “Carrie – A Estranha”, “Jurassic World”, “Poltergeist – O Fenômeno”, “Star Wars – O Despertar da Força” e “Caça-Fantasmas”, com um elenco feminino que gerou muita polêmica e controvérsia.
Que tempo bom! - Matéria sobre anos 80“Um dos motivos que levam a esse resgate é que, naquela época, a história (o enredo) ainda era a coisa mais importante, não os efeitos especiais. Por isso, muitos destes filmes são bons para serem vistos até hoje. Além disso, algo que já vem de uma franquia conhecida tem muito mais chances de levar as pessoas ao cinema. É como a diferença entre comprar um produto que você já conhece ou algo completamente novo. Esse público que curtiu tanto aquilo numa época em que seu caráter e gosto estava sendo formado vai querer ver como ficou o material final e ainda pode levar outras pessoas com ele”, afirma Marcelo Forlani, 41, publicitário e diretor de marketing do Omelete Group, que edita o site de entretenimento Omelete, com informações sobre filmes, séries, quadrinhos, games e música.

Sucesso com um toque de ode aos 80

Caso você ainda não tenha assistido “Stranger Things”, série original Netflix escrita e dirigida pelos irmãos Duffer, deve, pelo menos, ter ouvido falar. A produção, criada com influência no trabalho de cineastas e autores, como Steven Spielberg, Stephen King e John Carpenter, é uma verdadeira ode aos anos 80 e agradou em cheio ao público, dos mais velhos aos mais novos. A trama, que se passa em 1983, na fictícia cidade de Hawkins, em Indiana, conta a história de um garoto que desaparece misteriosamente, deixando polícia, família e amigos atrás de respostas, num grande suspense, que envolve experiências governamentais altamente confidenciais, forças sobrenaturais assustadoras e uma menina um tanto quanto estranha. Nos fatores que podem explicar esse sucesso, quase instantâneo, além das muitas referências aos clássicos da época e um elenco com Winona Ryder e Matthew Modine, que estrelaram importantes filmes da década, está o resultado de uma pesquisa feita com base no comportamento e gosto dos milhares de usuários da Netflix.

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“Assisti à primeira temporada com sorriso no rosto. Cada cena, cada homenagem era um ‘gol’. Eles conseguiram pegar o que era bom, homenagear e ainda fazer algo novo”, ressalta Marcelo. Para Zinho, a nostalgia presente na produção fez reviver aquele clima de sessão da tarde, de filmes nem tão inocentes assim, com personagens carismáticos e uma trilha sonora que dá vontade de continuar ouvindo por muito tempo. “É um paradoxo cultural em 2016. Retrata o passado, mas traz um frescor incomparável. Grande para um filme, pequeno para uma série e do tamanho exato para o público disposto a eleger o próximo fenômeno de cultura pop. Se foi mesmo feita para agradar, conseguiu e tal feito não pode ser desconsiderado. A busca pelo formato e jeito de produzir da época, aliado a um bom roteiro e o que de melhor existe no campo da tecnologia, criou uma mistura que certamente angariará mais e mais fãs”.

Para (re)lembrar

Que tempo bom! - Matéria sobre anos 80Para quem viveu os anos 80, não foi só “Stranger Things” que agradou. Recentemente, muitos seriados antigos ganharam novas temporadas, como “Arquivo X”, “Três é Demais”, “Twin Peaks”, “24 horas”, “Arrested Development”, “MacGyver” e “Gilmore Girls”. Isso sem contar a transformação de filmes em séries, como “Máquina Mortífera”, “Bates Motel”, “Hannibal” e “Ash vs Evil Dead”.

A volta do vinil

Com o avanço da tecnologia, algumas coisas vão ficando para trás, mas sempre existe espaço para os colecionadores, que, aos poucos, trazem o passado à tona novamente. E é nesse contexto, que o vinil ressurge, em um movimento de valorização, que levou, inclusive, algumas empresas a reativarem suas antigas prensas para novas produções. “Um disco novo custa muito caro, já os aparelhos toca-discos estão bastante acessíveis. Então por enquanto, esse retorno do vinil é mais uma coisa saudosista mesmo. Mas se a onda for pra valer, a produção vai aumentar e o preço tende a cair. […] A tecnologia invadiu tanto a vida das pessoas que a impressão que eu tenho é que há certo desejo de se apegar a algo que não seja tão tecnológico e quem gosta mesmo do vinil acha aquele som mais real do que o gravado digitalmente. E também tem o chiado, aquele barulhinho da agulha roçando no disco, que chega a ser até um charme”, conta Valdir Carleto, jornalista à frente da Carleto Comunicação.
Que tempo bom! - Matéria sobre anos 80Amante da música desde muito cedo, ele cresceu ouvindo os discos 78 rotações de seu pai. “Na minha adolescência, a diversão que meus primos, tios mais novos e eu tínhamos era nos reunir domingo de manhã para ouvir os LPs dos Beatles, Roberto Carlos no começo da carreira e a Jovem Guarda. Com 18 para 19 anos, montei uma loja de discos em São Paulo, com meu primo Sérgio. Foi uma aventura que durou apenas um ano, o movimento era muito pequeno e também não tínhamos capital para um acervo muito completo. Na sequência, ingressei por concurso no Banco do Brasil, mas o contato com esse ramo permaneceu e passei a pegar encomendas dos colegas de banco. Fiz isso por muitos anos e o que eu ganhava com a venda investia nos discos que queria”, conta ele, que hoje tem entre 200 e 300 vinis dos mais variados estilos musicais em sua coleção, com destaque para os de MPB, como Milton Nascimento, Chico Buarque, Ivan Lins, Guilherme Arantes, MPB-4, Elis Regina e Taiguara, os maiores xodós da coleção, além de Bee Gees e Simon & Garfunkel.
Que tempo bom! - Matéria sobre anos 80Já Laudemil Veloso, 61, mais conhecido como Batata, fez o caminho inverso: colecionador de vinis desde seus 16 anos, ele abriu a Caverna do Disco de Vinil – Sebo, que fica na rua Luiz Faccini, no centro de Guarulhos, e segue até hoje no ramo. “Com muitos discos em meu acervo, decidi ser um vendedor, abrindo minha loja em 1994: um espaço de compra, venda e troca de discos, CDs, livros e revistas, com grande variedade de produtos, incluindo telefones clássicos, bonecos de coleção e cachimbos. Mexer com isso é o que gosto de fazer. Vivo nesse ‘portal para o passado’, relembrando o que já passou, conhecendo novas pessoas e vendo os mais novos descobrirem o antigo”, finaliza.

Vinil na rede

Que tempo bom! - Matéria sobre anos 80Quer angariar novos LPs para sua coleção, interagir com quem também é fã dos antigos bolachões ou apenas negociar? Então você precisa conhecer a Luvnyl, rede social voltada para os amantes do vinil, que permite o cadastro de pessoas físicas e comércios. Criada pelos curitibanos Rômulo Troian e Lucas Stavitzki, e lançada em julho deste ano, a plataforma gratuita já conta com 1.500 usuários cadastrados e mais de 10 mil discos. Cada participante atualiza sua página conforme seu interesse, pode adicionar amigos, marcar itens que quer trocar ou comprar e criar sua própria “lista de desejos”. Além disso, a ferramenta ainda oferece funcionalidades específicas para sebos e lojas que vendem vinis. Vale o acesso!