Quem quer ser milionário?

Por Tamiris Monteiro

Mega-Sena: a loteria que proporciona riqueza instantânea também coleciona estranhos e até criminosos casos

Basta a Mega-Sena acumular para filas gigantescas se formarem nas lotéricas de todo o Brasil. E não à toa. Afinal, estamos falando da loteria que paga o melhor prêmio do País. Mas, em meio aos sonhos de como usufruir de uma bolada milionária, também existem muitas curiosidades acerca do assunto. Criada em março de 1996, a Mega já fez centenas de pessoas enriquecerem; no entanto, indo na contramão dos benefícios que uma gorda conta bancária pode proporcionar, o grande prêmio, por diversas vezes, já esteve relacionado a histórias criminosas.
É sorteada duas vezes por semana, aos sábados e às quartas-feiras, e o apostador pode marcar no mínimo seis e no máximo 15 dezenas. O preço do jogo varia de acordo com a quantidade de dezenas. Por exemplo, para seis dezenas, a aposta custará R$ 3,50, para sete, R$ 24,50; quanto mais dezenas jogadas, maiores as chances.

Quais as reais chances de ganhar na Mega-Sena?

Cálculos matemáticos disponibilizados pela própria Caixa mostram que faturar um prêmio milionário é difícil, mas não impossível. As chances de um apostador acertar seis números em um volante com 60 opções são pequenas: a probabilidade é de apenas uma em 50.063.860. Já num jogo com sete dezenas, a chance sobe para uma em 7.151.980. A maior probabilidade, obviamente, é quando se joga 15 dezenas; elevando a possibilidade de acerto de uma em 10.003. Mas a aposta custa R$ 17.517,50.
Além da sena, é possível ganhar acertando cinco ou quatro dezenas, porém com prêmios bem menores. Apostando apenas seis dezenas, existe uma chance em 154.518, para fazer a quina; a quadra, uma chance em 2.332.
E para os incrédulos de plantão, a repórter que vos escreve soube da existência de um ganhador de Guaratinguetá que foi agraciado com o prêmio da Mega-Sena por duas vezes, mas que por motivos de segurança prefere não dividir sua história. O bancário Thiago Sacoman, de Guarulhos, também se inclui na lista de sortudos, com a diferença de que os prêmios recebidos pelas três vezes que acertou a quadra não mudaram tanto a sua vida. “Costumo jogar sempre na Mega-Sena, principalmente quando o prêmio estimado ultrapassa a casa dos 20 milhões. A sensação que senti quando ganhei pela primeira vez foi a mais forte de todas, por várias razões: primeiro porque era literalmente a primeira vez que ganhava qualquer tipo de sorteio; segundo, porque foi na primeira Mega da Virada, se não me engano em 2009, e o prêmio era o maior pago até então; e terceiro porque eu acertei os quatro primeiros números, o que me fez ver a chance de ganhar como uma realidade. Infelizmente fiquei nos quatro primeiros”, conta com humor.

O maior prêmio que Thiago ganhou foi cerca de R$ 800, o que, segundo ele, apesar de não ser uma quantia exorbitante, o ajudou a ter motivação para outras tentativas. “Organizo o bolão no meu local de trabalho e também faço um jogo só meu. Antes não acreditava muito na possibilidade de ganhar, até acertar a primeira quadra. Hoje, eu acho possível. Inclusive, tenho uma pessoa próxima que trabalha na Caixa que já pagou um prêmio de R$ 23 milhões a um ganhador”, afirma.
De acordo com dados do site “Loteria On-line”, a Lotofácil é a aposta mais fácil de ser faturada: apostando 15 dezenas, a chance de ganhar é de uma em 3.268.760. Na Lotomania, apostando as 50 dezenas, a chance de ganhar é uma em 11.372.635. Já a Quina, apostando cinco dezenas, as chances de ganhar é de uma em 24.040.016.

Casos polêmicos

Ganhador de Guarulhos sequestrado

Em dezembro de 2013, um pedreiro, ganhador de um prêmio de R$ 7,8 milhões, foi sequestrado junto com o irmão. A vítima foi abordada na sua própria casa, depois de ter sacado R$ 5 mil para viajar para a Bahia, sua terra natal. O curioso, é que com medo de as pessoas saberem que ele havia ganhado o montante, decidiu esperar um tempo até usufruir da quantia. Inclusive, continuou trabalhando em obras e usando uma moto antiga. De acordo com o pedreiro, em matéria publicada no G1, ninguém sabia que ele havia faturado o prêmio, além do irmão e um tio, mas o ganhador acredita que a notícia vazou por causa de uma funcionária da lotérica. Por fim, a polícia encontrou o cativeiro e libertou as vítimas. Mas para quem acredita que só dinheiro traz felicidade, fica a prova de que nem sempre o adágio é verdadeiro.

200 pessoas que ganharam mais de 9 mil vezes

Com base num levantamento feito pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Fazenda, entre março de 1996 e fevereiro de 2002, um grupo específico de 200 pessoas ganhou 9.095 vezes em loterias da Caixa Econômica. A Polícia Federal abriu cerca de 20 inquéritos, só em São Paulo, para investigar os sortudos. Com as investigações, foi constatado que Francisco Garcia Rodrigues, então deputado federal, e seu filho acertaram 43 vezes em 21 jogos diferentes, entre os anos de 1996 e 2000. Fernando Lucio Giacobo, também deputado na época, ganhou 12 vezes em oito jogos, num curto espaço de tempo: de 5 a 19 de junho de 1997. Em São Paulo, um delegado da Polícia Civil venceu 17 vezes em concursos e tipos de jogos diferentes, de 8 de agosto a 16 de novembro de 2001. Mas quem liderou o ranking dessa lista foi o comerciante Amauri Gouveia, premiado em 96 concursos da Quina, em 33 concursos na Mega-Sena, em 25 da Loteria Federal e em 9 da Loteria Esportiva, além de outras modalidades.

João Alves, da máfia dos anões

O ex-deputado federal baiano João Alves, já falecido, ficou conhecido pelo escândalo de desvio de recursos do orçamento da União, em 1993. A CPI do Orçamento descobriu um esquema envolvendo Alves e laranjas que atuavam em seu nome. Para justificar o alto padrão de vida, ele alegava ter ganhado mais de 200 prêmios lotéricos. O parlamentar comprava bilhetes premiados da loteria para justificar o dinheiro ilegal que recebia por colocar no Orçamento emendas para garantir o pagamento de empreiteiras.

O prêmio da discórdia

Em 25 de novembro do ano passado (2015), o maior prêmio da história da Mega-Sena, mais de R$ 205 milhões, foi sorteado para um sortudo que levou a bolada sozinho. Segundo a Caixa Econômica, após as apostas terem se acumulado por 10 edições, as arrecadações ultrapassaram R$ 400 milhões. Contudo, o que mais chamou atenção não foi o alto valor da premiação, mas sim o fato de o jogo ganhador ter sido de Brasília.
Por causa dos episódios de corrupção e por ser reduto de políticos, histórias supondo que o prêmio teria sido fraudado viralizaram nas redes sociais. Alguns dos boatos diziam que a casa lotérica em que o jogo foi feito não existia; outro rumor foi de que o dono da casa de apostas poderia ser Alberto Youssef ou de um parente próximo ao doleiro. Por fim, depois de tanta boataria, até rolou um pedido de explicações à Caixa Econômica Federal, protocolado pelo senador Álvaro Dias (PSDB-PR).
Na grande mídia não se falou mais no assunto, e segundo uma reportagem publicada no jornal “Gazeta do Povo”, as informações que circularam na internet eram falsas. A casa lotérica em que foi feita a aposta existe, chama-se Wandys e fica na Asa Sul, em Brasília. Outro ponto apurado foi que o lugar não pertence a Alberto Youssef; na verdade, o nome do dono da casa lotérica é Nasser Youssef Nasr, um libanês que chegou ao Brasil na década de 50 e que apenas tem nome parecido com o do doleiro.

As 5 maiores quantias sorteadas

Concurso Valor Data Ganhadores
1764 R$ 205.329.753,54 25 de novembro de 2015 1
1655 R$ 135.315.118,96 22 de novembro de 2014 2
1220 R$ 119.142.144,27 6 de outubro de 2010 1
1575 R$ 111.503.902,49 19 de fevereiro de 2014 1
1211 R$ 92.522.953,60 4 de setembro de 2010 7

Para onde vai todo o dinheiro arrecadado nos jogos?

Logicamente, o montante arrecadado nos jogos da Mega-Sena não é entregue integralmente aos ganhadores. De acordo com informações da Caixa Econômica, que administra as loterias federais desde 1962, quase metade do total arrecadado – incluindo o percentual destinado a título de Imposto de Renda -, é repassado para investimento em áreas prioritárias para o desenvolvimento do País, como saúde, educação, segurança, esporte e cultura. Para os ganhadores, o prêmio bruto corresponde a 46% da arrecadação. Em 2014, por exemplo, mais de R$ 6 bilhões foram repassados ao governo, sendo: R$ 932 milhões para o Ministério do Esporte e aos Comitês Olímpico e Paralímpico brasileiros; R$ 2,25 bilhões para a Seguridade Social; R$ 1 bilhão para o Programa de Financiamento Estudantil (Fies); R$ 375 milhões para o Fundo Nacional de Cultura (FNC); R$ 406 milhões para o Fundo Penitenciário Nacional (FUNPEN) e R$ 12 milhões para o Fundo Nacional de Saúde (FNS).