Rodrigo Barros, um apaixonado por Guarulhos

Focado, dinâmico e sincero; um “workaholic familiar”. Foram essas as impressões que tive no meu encontro com o multiempreendedor e secretário de Desenvolvimento Científico, Econômico, Tecnológico e de Inovação (SDCETI), Rodrigo Barros, de 35 anos, no prédio espelhado do Adamastor, sede da Pasta.

Conhecido por ter desbravado a Europa com o maior evento de startups do mundo, o HandsOn Startup Tour, além de conquistar espaço no Vale do Silício (EUA) com ideias inovadoras, Barros ingressou na vida pública, que demanda pelo menos 12 horas do seu dia, inclusive nos fins de semana. Tempo que, para ele, é normal. Em dado momento da conversa, o questionei sobre ser viciado no trabalho. Rapidamente ele me contrapôs dizendo que era apaixonado, e frisou: por Guarulhos.

Um detalhe citado por Barros mais de uma vez durante a entrevista foi de que ele não é político. Seu grande propósito à frente da secretaria é causar impacto social, sempre alinhado à vontade de deixar um legado de inovação e transformação. Entre as pessoas que consultou para aceitar esse grande desafio está João Dória, prefeito de São Paulo, amigo de Barros e seu padrinho empresarial.

 

Na SDCETI, Barros tem seguido um detalhado cronograma de projetos pautados nas dez diretrizes da Secretaria, que foram definidas por ele e sua equipe, baseadas nos 6 eixos do plano de governo do prefeito Guti. Planejamento é uma palavra que não sai do seu vocabulário. Entre tantos projetos já executados em menos de 100 dias sob sua batuta, há o Caderno Econômico e o Via Rápida Empresa, além de programas como Aprende, Experimenta Saúde e 5º SP Export.

Didático, Barros explicou detalhadamente sobre os programas da Pasta, que já estão traçados num quadro na parede de sua sala. São metas para 2017, ano que o secretário considera crucial para o bom andamento da gestão, e para os três anos subsequentes do governo Guti.

Por que Guarulhos?
Em primeiro lugar, porque é a cidade em que cresci. Nasci em São Paulo, mas com cinco ou sete dias já estava em Guarulhos. Inclusive, sou cidadão guarulhense, título oferecido pelo prefeito Guti, quando foi vereador. Meu avô escolheu a cidade. Ele foi cobrador, taxista e teve seu primeiro bar em Guarulhos. O bar do meu avô deu lugar à imobiliária do meu pai. O primeiro time que eu joguei bola foi a A.D. Guarulhos. Depois de anos rodando o mundo, voltei para assumir esse compromisso com a cidade [de ser secretário].

Como você recebeu o convite para ser secretário?
Eu recebi o convite do prefeito de maneira informal. Conheço o Guti desde quando ele tinha 17 anos e, naquela época, ele já dizia que seria prefeito dessa cidade. Ele me ligou e disse que queria que eu fizesse parte do governo. Eu, na hora, neguei. Uma coisa que eu sempre deixo clara é que a gente nunca conversou sobre isso antes. Ele sempre teve meu apoio, mas eu nunca tive vontade de estar no Poder Público. Um pouco depois de negar tão imediatamente, eu retornei para ele e disse que não era para ele pensar que eu não achava importante o convite. Guti falou para eu pensar melhor. Perguntei o tempo que tinha para dar a resposta. Ele respondeu: duas horas. Então, conversei com a minha família, meus sócios, alguns amigos, inclusive com o prefeito de São Paulo, João Dória, que me disse: “ajude o Guti”. Só então liguei para dizer que aceitava. Aceitei pela possibilidade de me dedicar a minha cidade e pela confiança que tenho no Guti.

Você é idealizador, sócio e vice-presidente de empresas. Como está conciliando a vida de empresário com o Poder Público?
Quando eu aceitei o convite, achei que seria até mais fácil conciliar. Sou um cara muito intenso. Sou apaixonado pelo trabalho. Minha vida é a família e o trabalho. Só que eu mergulho muito naquilo que faço. Então, se eu disser que tenho conciliado, é mentira. Eu tenho realmente focado em trabalhar para a cidade, no compromisso que assumi com o prefeito e com você, guarulhense. Estar aqui hoje é dizer que sou um servidor. Não tenho horário para servir a cidade. Eu não sirvo você das 8h às 18h. Se eu vejo um problema no Bosque, eu preciso ir lá e resolver, mesmo que eu não seja secretário do Meio Ambiente. Eu sou um servidor. Claro que minha vida e meus negócios seguem, mas deixo meus assuntos particulares para o tempo fora da Secretaria. Com toda certeza, tenho trabalhado 14 horas, 15 horas pela cidade. Esse é o meu ritmo, não tem novidade. Tanto que me dizem: “Pô, você quer fazer tudo em três meses”. Esse é o meu ritmo. Tudo que estamos fazendo em três meses, vamos continuar em quatro anos. Mesmo tendo de dar menos atenção aos meus outros projetos, isso tem me deixado muito feliz, porque eu estou muito conectado com o propósito de impactar socialmente a cidade de Guarulhos.

Você é viciado em trabalho?
Sou apaixonado por Guarulhos. Quando vejo, o dia já acabou. Se fosse saudável, eu trabalharia até mais, mas preciso dormir. (risos)

E depois do trabalho? Que horas você dorme?
Depois de trabalhar procuro curtir muito a minha família e durmo geralmente das 2h às 7h da manhã.

Você é um cara de palavra e que respeita os prazos. Prometeu entregar um site para que as pessoas comprassem seus livros em 10 dias. Prometeu o Via Rápida para antes dos 100 dias e entregou. Como você tem encarado o moroso processo do Poder Público?
É um processo de amadurecimento, uma nova etapa para a minha vida. Mas o que eu tenho dito é que eu não vou me acostumar com a gestão pública. É ela que vai se acostumar comigo. Dá pra cumprir a regra, a lei. Mas dá pra fazer de uma forma diferente. Se você pegar os eventos que a gente vem fazendo, é com o apoio da cidade, das empresas. Elas acreditam no nosso projeto. Elas entenderam que a coisa mudou. Quando você vem aqui fazer uma entrevista comigo, você vê nosso planejamento anual, vê que nós temos projetos de leis para mandar à Câmara neste ano (Via Rápida, Lei de Inovação, Incentivo Fiscal, Pequena e Média Empresa, Turismo Sustentável); que tem Parque Tecnológico, arena multiuso, Centro de Convenções. Quando você vê que nós estamos planejados e o que está sendo feito, não existe ideologia política. Eu não sou político, essa é a grande diferença. Eu estou aqui sendo um gestor público, praticando políticas públicas. Quando você vê isso, você quer participar disso, como cidadão. Aí não importa o partido político que um dia você acreditou, e sim a cidade de Guarulhos. E quando se encaixa a iniciativa privada, a gente ganha força, anda mais rápido. Nós não vamos melhorar Guarulhos, nós vamos transformar Guarulhos. E o cidadão vai perceber isso.

Como todo bom apaixonado, acredito que você teve surpresas e frustrações. Pode citar as maiores na Prefeitura?
Quando você chega ao Poder Público e percebe que é um processo engessado, o desafio é pensar em como deixá-lo mais ágil. Por que circular um processo administrativo fisicamente, demorando dez dias para rodar duas secretarias, se pelo computador eu faria isso no mesmo dia? Vamos fazer isso, então! Porque aí eu estou dentro da lei. Ela vai passar por onde tem que passar, mas de uma forma muito mais dinâmica, mais limpa; não vamos imprimir papel. Quando a gente lança o Via Rápida, por exemplo, é transformador, simplesmente porque não precisa dar entrada com documentação física no Fácil. É tudo pela internet. Para 70% dos casos, a gente descomplicou. Aí, ganhamos mais recursos para os outros 30% [empresas de alto risco]. Para falar a verdade, eu não tive frustrações, mas grandes desafios, que a gente precisa compreender e pensar como aprimorar.

Fale sobre a importância da Câmara nos processos.
O grande desafio é a gente conseguir desatar nós. E quem vai fazer isso são as novas legislações. Por isso, precisamos que os homens que foram eleitos pelo povo, que cuidam da Casa de Leis, entendam a importância deles para deixar a cidade de fato mais ágil. O povo precisa entender que para governar é vital termos uma Câmara positiva, que apoie o bom projeto, a boa agenda, a desburocratização. Já ouvi empresário perguntar para quê ter Câmara de Vereadores. Eu digo que é de fundamental importância para que tenhamos transparência. Mas precisa ser feito da forma correta, com o Executivo e o Legislativo andando juntos, cada um fazendo seu papel. Essa simbiose é importante.

E agora, como está a sua compreensão do Poder Público?
Está muito melhor. Quando estamos deste lado, entendemos que certas burocracias têm sua importância. Porque aqui não é a minha empresa. A caneta não é minha para fazer o que quero. Estou aqui representando você e essa é uma grande diferença. O gestor público representa o cidadão. Existem alguns processos que a gente vai querer desburocratizar, com certeza. Mas existem outros que a gente percebe que são de fato importantes.

Diante dos desafios, há alguma ideia que você considere impossível?
Em três semanas a gente traçou o nosso planejamento, com 10 diretrizes, baseadas nos 6 eixos do governo Guti. Impossível eu acho que não existe. O que tem é o aprimoramento do planejamento. Por exemplo, o que prometemos para os 100 dias, nós entregamos. A partir de agora a gente está requalificando aquilo que programamos para um e quatro anos. Algumas coisas entraram. Outras mudaram. De novo: sempre pautadas nas 10 diretrizes. Agora, 2017 é fundamental para a gente fazer as coisas acontecerem nos próximos quatro anos. Por mais que a gente saiba das dificuldades financeiras da cidade, todo destravamento tem que sair neste ano. Principalmente na Legislação.

Qual a economia gerada com a readequação para SDCETI?
Foi uma redução de 37%, diante dos 30% que o prefeito sugeriu. A gente não aumentou o quadro de funcionários, apesar de termos trazido a diretoria de Assuntos Aeroportuários – que era uma coordenadoria – e criado a Diretoria de Ciência, Tecnologia e Inovação. Foi bem ao contrário, o quadro foi reduzido.

Como você pretende transformar a cidade numa smartcity?
Quando a gente fala de cidade inteligente é tudo que o Poder Público faz que facilita e inova a vida do cidadão. Se a gente conseguir ter ferramentas que facilitem a vida do cidadão, como para a compra de remédios, pegar ônibus, pegar menos trânsito e ter segurança, por exemplo, é uma smartcity. É simplesmente você saber a que hospital ir porque vai ter menos fila. Obviamente, estamos fazendo um estudo profundo. Não é simplesmente ir lá e fazer um aplicativo. A gente precisa entender quais são as maiores dificuldades que o cidadão enfrenta no dia a dia e quais são os projetos que resolveriam mais o tempo e a qualidade de vida desse cidadão. E eu acredito que em quatro anos vamos avançar muito no tema. Existem financiamentos espalhados pelo mundo para investir nesse tipo de projeto e nós estamos fazendo uma pesquisa para alcançarmos esse dinheiro.

Qual é o segredo do sucesso?
Trabalho. Quem me conhece sabe que não tem “mimimi”. É claro que as pessoas têm momentos e oportunidades diferentes na vida. Eu e você tivemos oportunidades diferentes que, talvez, muita gente não tenha tido. Mas eu acredito que o trabalho cria oportunidade. Eu costumo brincar numa frase: “A sorte é o encontro da oportunidade com o preparo”. Com o trabalho você se prepara e caça a oportunidade. A oportunidade não bate na sua porta. Você está se preparando e trabalhando para buscar a oportunidade. Você não encontrou seu emprego de jornalista dormindo na sua casa. O segredo do sucesso é você expor o seu trabalho. A SDCETI tem uma frase: “o poder nas mãos das pessoas”. A gente vive um momento único: as pessoas têm o poder de verdade. O indivíduo consegue se comunicar com o mundo. A gente não pode desperdiçar isso. Temos o poder de fazer o bem, de trabalhar, de crescer. O problema é que tem gente que prefere o caminho mais fácil: o da lamentação. Porque o caminho do sucesso é árduo e traz ônus. Essa é a diferença. Não ter sucesso é muito mais tranquilo.