Salut, Jules

Guilty pleasure. Essa expressão é usada para falar sobre prazeres que dão culpa. O automobilismo é a minha guilty pleasure. Curto ver um monte de gente desafiando os próprios medos e a lógica, superando seus respectivos limites e correndo a mais de 300 km/h. E me sinto culpado, pois esses caras (e minas) colocam a cabeça a prêmio para que dementes como eu se divirtam.

Desde moleque, quando ainda estava dando os primeiros passos, um carro alvirrubro com um capacete amarelo me chamava demais a atenção. Senna virou o meu primeiro ídolo. Quando a barra de suspensão da Williams perfurou o capacete dele, aquele foi o primeiro grande baque na vida do qual me lembro. Chorei demais naquele dia e nos dias seguintes.

O acidente fatal de Greg Moore, o cara que tinha tudo para ser lenda, me deixou devastado e me fez ter pesadelos. A hecatombe em que Alex Zanardi perdeu as pernas, mesmo não tendo sido fatal, foi brutal por causa da violência da porrada. Mal imaginava que tudo o que ele fez após aquele desastre o transformaria em um dos meus heróis na vida. E o acidente fatal de Dan Wheldon, na carnificina de Las Vegas, em 2011, me deixou supermal à época.

Mas o acidente de Jules Bianchi foi devastador, a começar pelas circunstâncias. Ameaça de tufão e uma chuva muito forte foram ignoradas pela organização da prova e por Bernie Ecclestone, que só viram a grana pela frente. Aquele GP, mesmo assim e com o “Selo vai dar merda” colado, prendeu a minha atenção – até então, por motivos de vida noturna, só assistira a highlights de corridas. E estava na cara que algo estranho poderia acontecer.

Meio dormindo, acabei prestando atenção em um carro cinza, que era a Sauber do alemão Adrian Sutil. Segundos depois, correria atrás do trator que o retirava, carro de segurança e ambulância na pista. Num primeiro momento, achei que Sutil tivesse lesionado as costas, mas a bad vibe bateu fundo quando soube que Bianchi havia batido num trator. E quando rola bandeira vermelha, parceiro, é porque a coisa foi feia. Tanto que o pódio foi melancólico e o desespero era palpável no ar.

Manhã seguinte. As primeiras imagens, em que a Marussia de Bianchi aparecia destruída bem na regiãoda cabeça do piloto, davam bem a dimensão do desastre. Só um milagre faria Jules Bianchi sobreviver. E de milagre, o cara manjava. Tinha de ser muito bom para pontuar com uma carroça que ele tinha em mãos, e ele o fez em Mônaco. Não era por acaso que ele era visto como uma aposta natural da Ferrari para o futuro (se não fosse a sucessão de merdas, ele seria o substituto natural de Kimi Raikkonen, a lenda, em Maranello). Pena que havia um trator no meio do caminho.

Cada dia após o acidente, uma batalha diferente. O prognóstico (lesão axonal difusa), o mais desolador possível. A esperança dos primeiros dias passou a dar lugar ao desespero. E assim foi até hoje. Após 21 anos, Bianchi foi o primeiro morto desde Senna na Fórmula 1. Tudo por culpa do lucro no lugar do bom senso. Tudo por responsabilidade da cegueira comercial de Bernie Ecclestone. Tudo porque alguns dementes, que nem eu, gostam de automobilismo e se divertem com o espetáculo – ok, as corridas eram a vida de Bianchi, mas o risco era evitável. 1994 é o ano que não acabou.

Jules, desculpe Ecclestone e afins, pois eles não sabem o que fazem. Desculpe os caras que estavam tirando o carro de Sutil e operavam o trator fetal, pois eles foram amadores. Peço desculpas por gostar de automobilismo e porme divertir com isso, mesmo com todos os riscos como os que te levaram. Você foi grande demais para esse mundo bizarro, o do automobilismo.

Salut, Jules.