Salvem os marmiteiros: tendência para alguns, resgate de um velho costume para outros

Por Tamiris Monteiro

A boa e velha marmita voltou com tudo e está cada vez mais presente no dia a dia dos brasileiros. E, embora sua maior vantagem seja a economia, a famosa quentinha não voltou para o cardápio somente em virtude do orçamento apertado: com a crescente onda fitness e maior preocupação com a qualidade da alimentação, levar comida caseira para o trabalho, faculdade ou academia tem sido uma alternativa para melhorar a saúde.

Comida de verdade

Deixando de lado o fator “orçamento”, existem outros pontos que podem explicar o ressurgimento das marmitas: a preocupação com a saúde e, claro, o paladar exigente. Os brasileiros não só priorizam o sabor na hora de escolher alimentos como consideram a alimentação caseira, do dia a dia, como aquela verdadeiramente saudável.
Seu principal diferencial? A variedade. E, mesmo que muitos acreditem que não dá para ganhar da diversidade dos self-services, a nutricionista Juliana Tomandl explica porque essa aposta pode ser mais vantajosa: “Quando bem elaborada, a refeição caseira ou a marmita podem ter um valor nutricional muito mais elevado do que os alimentos oferecidos nos buffets de restaurantes. Embora muitos estabelecimentos também ofereçam ‘comida no estilo caseiro’, quando as refeições são preparadas e levadas de casa, é possível controlar muito melhor a ingestão de sal, de temperos industrializados, carboidratos e de gorduras, por exemplo. Além disso, a pessoa evita as tentações típicas dos self-services, como frituras, salgadinhos e molhos”, pontua.

Marmita fitness 

Pegando carona na preocupação com a saúde, as “marmitas fitness” também têm contribuído para que esse hábito esteja mais forte do que nunca. Popularizada pelos adeptos da malhação, seu conceito pode até ser o mesmo da quentinha convencional, mas o cardápio é bem diferenciado: ao invés da lasanha que sobrou do domingo ou do tradicional arroz com feijão, só entram alimentos estratégicos: funcionais, termogênicos, detox, de baixo índice glicêmico, vegetarianos e por aí vai. Além disso, ficam de fora ingredientes gordurosos, alergênicos ou pouco tolerados, como glúten, lactose, carboidratos e até mesmo algumas proteínas. Tudo em nome da boa forma. E seu público alvo é grande – uma pesquisa rastreou que quase 18% das pessoas consideram este tipo de alimentação a mais saudável.

Contudo, segundo a nutricionista Tomandl, embora a “marmita fitness” possa, de fato, ser uma aliada do plano de emagrecimento, é preciso ter cuidado antes de seguir esse estilo. “Atualmente, com um apelo tão grande para a perda de peso, as pessoas buscam soluções prontas e esse tipo de marmita se tornou até mesmo um negócio. Mas, geralmente, elas se atentam somente para a quantidade de calorias, sem verificar o valor nutricional das refeições. Como a necessidade nutricional pode variar muito de pessoa para pessoa, é fundamental buscar orientação médica antes de fazer mudanças bruscas na dieta, pois um cardápio pode até ser fit, mas se não for equilibrado não promoverá uma perda de peso saudável e muito menos sustentável”, explica.

Equilíbrio é o segredo

E se a marmita voltou em nome da saúde, a nutricionista afirma que a fórmula para não errar é buscar sempre o equilíbrio. “É a mesma regra do prato saudável: a refeição deve ser colorida e contar com todos os macronutrientes, ou seja, deve ser composta por carboidratos, proteínas, gorduras boas e fibras. Um bom exemplo é o clássico: arroz com feijão, uma porção de carne e uma saladinha – esse prato oferece praticamente todas as vitaminas e sais minerais que o corpo precisa.” E se a preocupação é com a balança, Juliana complementa: “Se o objetivo é reduzir calorias, por exemplo, basta diminuir a porção ingerida e atentar para o modo de preparo: priorizar alimentos cozidos no vapor ou assados, evitar as frituras, os cortes de carne gordurosos ou a utilização de temperos prontos. Dessa forma é possível ter uma alimentação balanceada, saborosa e ainda seguir firme na dieta sem grandes restrições”, conclui.

Com a palavra, os marmiteiros

Natalia Camanzano, advogada

“Consumo marmita há uns sete anos, mas virei ‘marmiteira de carteirinha’ há uns dois. Gosto de otimizar meu horário de almoço e entendo que o deslocamento até um restaurante toma muito tempo. Prefiro comer no ambiente de trabalho, pois sempre sobra um tempinho para ler ou fazer algo. Além disso, por adotar uma alimentação restrita, prefiro consumir a comida que eu mesma preparo. Não gosto de consumir alimentos sem saber como foi preparado. Antes consumia marmitas de segunda a exta, no expediente de trabalho, mas hoje em dia consumo até nos fins de semana. Já as levei até para a praia. Virou hábito. Costumo preparar tudo no domingo. Reservo cerca de três horas para isso. Também preparo uns lanches para consumo durante o dia, caso ocorra algum imprevisto e tenha que pular refeições. Esses lanches também são congelados em marmitas. Costumo fazer um montante para 15 dias. Dou choque térmico em todas as marmitas antes de congelar”.

Joel Maximo Junior, consultor de TI

“Uso marmita há mais ou menos cinco anos. Trago para o trabalho e uma das motivações é que o custo é reduzido por fazer em grande quantidade e poder congelar para a semana. Aos domingos, eu e minha esposa fazemos uma quantidade suficiente para 10 marmitas e congelamos. E fazemos uma individual de salada para acompanhamento. A única coisa que deu uma alterada recente na rotina das marmitas foi minha filha. Viramos pais há nove meses e, recentemente, está bem complicado termos um tempo para fazer, então, no último mês, temos comprado em restaurantes”.