“Quando digo que não quero mais você, é porque te quero”
Evidências – Chitãozinho e Xororó

– Meus Deus! Como pode um erro desses em uma música tão famosa? Será que eles não aprenderam que ‘você’ é terceira pessoa e ‘te’ é segunda, logo não se misturam!?

Não é de se estranhar quando escutamos uma música, ou lemos um texto, encontrarmos frases ou palavras que soam estranhas para nossos ouvidos. Logo tachamos tais como erradas, incoerentes, falta regência, concordância e por aí vai… A resposta? Licença poética. Será que realmente tais textos sofrem da falta da gramática normativa? Estão errados? A licença poética tem limites?

Antes de tudo, devemos entender o termo para, então, compreender o seu uso. A licença poética se dá quando o autor, em sua obra (não necessariamente uma poesia), usa de uma incoerência da Língua Portuguesa como estilística para o seu texto.

O erro não mostra um desconhecimento do autor; muito pelo contrário, demonstra total maestria com a nossa língua, a ponto de propositalmente errar para que se atinja seu objetivo com maior ênfase.

Mas, que ênfase seria essa?

Normalmente, quando se quer reforçar um ponto de vista, chamar a atenção ou simplesmente brincar com as palavras, os autores “erram”. Isso é bem visto em textos que remetem a linguagem popular ou músicas que necessitem de tal palavra para que possa dar perfeição à melodia.

“O amor é um grande laço, um passo pr’uma armadilha

Um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha”

Faltando um pedaço – Djavan

Linda música! Quase não dá para perceber que o coletivo de lobos é alcateia e não matilha, que é de cães. No caso, o compositor utilizou desse “erro” para rimar com armadilha.

“Quando oiei a terra ardendo

Quá fogueira de São João

Eu preguntei, a Deus do céu, ai

Por que tamanha judiação

Que braseiro, que fornaia

Nem um pé de prantação”
Asa Branca – Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira

Aqui eu não preciso dizer muito. O clássico cancioneiro traz àquele que ouve essa maravilhosa canção o clima nordestino; do sertão e, olhando por esse lado, o uso das palavras populares ajuda e muito!

Logo, a licença nesses casos, dentro dos seus contextos, é perfeitamente cabível e até mesmo recomendada. Vemos nesses exemplos e em muitos outros, que quando o autor tem domínio da língua, mesmo transgredindo as normas, faz dela uma arte.

E o limite?

Entendo que a licença poética vem unida da criatividade. O autor extrapola as regras para poder inovar, atingir e causar uma influência de pensamento naquele que aprecia a obra – claro que as visões geram diferentes interpretações.

A escrita no geral é a capacidade de comunicar-se com seu público. O idioma brasileiro (sim, brasileiro!) está em constante evolução. Fernando Pessoa já dizia: “a língua existe para servir o indivíduo, e não para escravizá-lo”. Tudo deve estar de acordo com o seu contexto e propósito.  Visando isso, não há limites.

Agora, existem, sim, muitos que erram e se justificam com a licença poética. Não é difícil ver obras que fulminam a gramática e seu conteúdo não traz nenhuma reflexão e seu autor sequer conhece as regras. Seria isso licença poética ou pura falta de conhecimento? Fica a reflexão.

Quem sabe o título deste artigo possa agora ser compreendido, afinal, no início da sentença, quem manda é a ênclise.

Jônatas Ferreira