Se eu fosse Moro, teria recusado o convite

Foto: José Cruz/Agência Brasil

É direito de cada cidadão escolher seu próprio destino, como é direito de cada governante escolher quem fará parte de sua equipe.

Assim, entendo que o presidente eleito Jair Bolsonaro agiu dentro de suas prerrogativas ao escolher o juiz Sérgio Moro para comandar o superministério da Justiça e Segurança Pública do novo governo, que terá sob seu guarda-chuva a Polícia Federal e a Controladoria Geral da União.

Entendo também ser um direito de Moro aceitar o convite, mas eu esperava que ele recusasse e acho que deveria ter recusado. Parece-me que a vaidade falou mais alto do que a razão para que aceitasse.

Bombardeado pelos defensores de Lula, Moro seguiu prestigiado pela população, pela postura de independência que soube manter. Quando o ex-presidente teve derrotado pelo pleno do TRF-4 seu recurso contra a condenação de primeira instância, foi a consagração de Moro, pois o Tribunal prestigiou sua decisão, jogando por terra a pecha de que teria agido de forma parcial e tendenciosa. Por não ser do ramo, não entro no mérito quanto a haver ou não provas suficientes para a condenação, tanto pelo juiz quanto pelo TRF-4.

Moro havia passado incólume também diante das críticas por ter liberado a divulgação da delação do ex-ministro Antonio Palocci, em plena campanha eleitoral, o que poderia influenciar a decisão de eleitores no segundo turno.

Ao aceitar o convite, Sérgio Moro divulgou nota oficial, segundo a qual o faz por entender que assim terá mais condições de contribuir com o Brasil, no combate à corrupção e na formulação de medidas que impeçam a continuidade de práticas nocivas ao interesse público. Não duvido de suas boas intenções, mas continuo achando que ele deveria ter recusado.

Passando a ser ministro, Moro jamais terá a independência que tinha como juiz. Queira ou não, será subordinado ao presidente da República, podendo ser exonerado a qualquer momento, não havendo sequer necessidade de qualquer justificativa para tal. Como ministro, não poderá agir tão plenamente quanto seria desejável para combater a corrupção, pois muito do que se pratica foge à alçada do Poder Executivo.

Para assumir o novo cargo, deixará a Operação Lava-Jato. Por mais que queiramos confiar em quem vier a exercer essas funções, sempre será uma brecha para poupar um ou outro dos envolvidos nas tramoias que a Lava-Jato busca combater.

E, ao ceder à tentação de ocupar a nova posição de destaque no governo de um oponente aos que condenou, Moro estará dando um razoável grau de razão aos que os acusam de agir com interesses políticos. Ficou evidente que ele já vinha conversando com Paulo Guedes, o posto Ipiranga de Bolsonaro, durante a eleição, donde pode-se deduzir que, ao liberar a divulgação da delação de Palocci, pretendeu aumentar as chances de Bolsonaro e, assim, as suas próprias chances de vir a ser um superministro.

Torço para estar errado, mas temo que Moro tenha dado um passo em falso em sua carreira, correndo o risco de trocar uma exitosa trajetória na magistratura por uma passagem sem brilho pelo governo federal.

Valdir Carleto