Se seu gato fosse do tamanho de um leão, ele te devoraria…

Deleuze estava certo…

ou

Precisamos tomar conta de nossos desdobramentos diários…

O dia-a-dia é um pasto de temas possíveis. Isso justifica a abertura do texto dessa semana. A (des)orientação de como tratar cada um deles, ou estabelecer uma rede dialética entre um e outro é culpa do homem. Isso justifica as duas sentenças iniciais.

Leibniz, que foi um filósofo no século XVII, refletiu sobre um conceito que ele nomeou mônada. A mônada seria uma forma de filosofar sobre a ligação do corpo com a alma. Ele dizia que só Deus é independente de um corpo e é todo Alma. O universo físico se constitui de uma infinidade de pequenas almas e pequeninos corpos, tão insignificantes entre si (e isso já é leitura minha). Cada corpo e cada alma ocupa um espaço e tem uma leitura possível das coisas do mundo.

Gilmar Mendes é um bom exemplo de alma insignificante. É uma pulga dentro do universo físico proposto por Leibniz. Acontece que é uma pulga chata, né?! Incomoda muito. Mas não podemos destituí-lo de seu corpo, muito menos de sua alma. Agora, há certas insignificâncias que as pessoas fazem questão, dentro de um universo comunitário (muito menor em proporções do que o universo físico) em insignificar ainda mais. Foi o caso, nessas semanas que passaram, do menino morto no Habbib’s – João Victor.

Caso que ficou nos aparentementes. Aparentemente, foi brutalmente espancado por dois funcionários adultos da rede de fastfood. Aparentemente, era pobre e incomodava os clientes com aquele zunido de gente marginal:

TIO, ME DÁ UMA MOEDA. ME DÁ UM PEDAÇO DA TUA ESFIHA. ME PAGA ALGUMA PORRA, QUE EU TO COM FOME! ME DÁ UM CARALHO DE ATENÇÃO!

Aparentemente, o facebook se revoltou. Aparentemente, isso ajudou a mãe do garoto a reivindicar seus direitos sobre o crime cometido. Aparentemente, a franquia se prontificou a auxiliar a mãe, a rever a conduta de seus funcionários, a culpar os envolvidos pelo crime cometido. Aparentemente…

O Habbib’s da Vila Nova Cachoeirinha fica bem perto de onde eu moro. Esses dias, passando por lá, não pude deixar de reparar que uma criança, acompanhada de um senhor, pedia dinheiro no farol. Também não pude deixar de observar que esses dois sujeitos recebiam todas as negações possíveis do universo comunitário a seu redor. Universo comunitário com conta no facebook. Aparentemente, todos ainda são os mesmos.

#nenhumacriançaamenos

Volto, então, a refletir sobre Leibniz. Talvez a gente tenha perdido a capacidade de enxergar em algumas pulgas a existência de corpo e de alma. No nosso universo comunitário temos uma capacidade de hierarquizar cada pulga com sua respectiva alegoria (e assim vivemos no país do carnaval). Há os deuses, há os mais próximos dos deuses, há os cocôs de carrapato. Cada pulga que nutre as mesmas urgências fisiológicas, psicológicas e lógicas que as outras, catalisa, por exemplo, que aquela sente menos dor que esta. Daí justificar os murros e as bicas desferidas por dois adultos em um garoto de 13 anos.

ESSE AÍ? ESSE AÍ JÁ NASCEU APRENDENDO A APANHAR.

Então, nos resta viver em um universo onde a ilógica reina a cabeça de nós, pulgas. Se estou cá na condição de semideus, me deparo diariamente com o desejo canibal de vossas pulgas a desejar que o gatinho nunca se torne leão.

SE NÃO, FODEU!