Sobre nosso governo, nossa letargia e outras coisas

Todo mundo é o mundo todo?

ou

O quarto sujo sujou o hóspede?

ou

Tem alguém me ouvindo aí?

Eu queria muito que essa fosse minha última crônica política. Eu não me sinto Che Guevara. Também não tenho vocação para ser Marine Le Pen. Não aguento mais discutir política, porque falar sobre isso é se colocar em um estranho lugar binário. E ainda tem gente que insiste na origem grega da palavra: procedimentos relativos à pólis; ato de cuidar e deliberar sobre a cidade-Estado, sobre a sociedade, a comunidade, a coletividade.

Vou discutir a política em dois níveis: o da leitura e o da execução.

O egoísmo direciona os debates daqueles que assumem a função de leitores da política – se é que isso seja possível. Somos dessa época. Cada um pensa no próprio cu e só delibera pelo outro se o seu espaço estiver seguro. Ué, e você também não é assim? Com certeza sou. A minha safadeza em defender uma utopia política é tamanha, que eu me considero um ativista virtual de carreira. Ficamos nessa de deliberar sobre as verdades, de defender as justiças, de palpitar sobre o cu alheio, no conforto de um acento macio, quentinho…

DEBATEMOS POLÍTICA NA CONFORTÁVEL CONDIÇÃO DE SÓ ENXERGAR NÓS MESMOS

Então, eu penso que não sabemos o que é democracia. Regime político onde cidadãos elegíveis exercem o poder, a fim de tentar assegurar minimamente as condições sociais, econômicas e culturais de autodeterminação política. No wikipedia, diz mais: essa ideia de autodeterminação subjaz liberdade política, ausente de opressões, coerções, condições que incapacitam o indivíduo para o cumprimento de suas funções.

NÃO SABEMOS O QUE É DEMOCRACIA.

Ainda no nível da leitura, não enxergo ninguém agindo a favor dessa democracia bonita do wikipedia. E somos a geração wikipedia! Deveríamos saber interpretar seus verbetes. Deveríamos ter tudo isso na ponta da língua. Não sabemos. Temos a leitura fragmentada de que democracia é igualdade de expressão para todo mundo e vamoquevamo. Ninguém percebe que isso só reforça a lógica do vamos nos preocupar com nosso próprio cu.

Pensando que a leitura deveria ser complementar à execução, não posso dizer que não executamos a política – aqui começa o segundo momento da minha interlocução, se é que tem alguém me ouvindo. Somos políticos o tempo inteiro. No nosso dia-a-dia, negociamos, argumentamos, representamos. Fico imaginando quantas vezes fui Marcelo Odebrecht, Luiz Inácio e Jarizinho. Fico pensando como, mesmo digitando em caixa alta no facebook pelo fim do machismo e pela vergonha do que revela a lava-jato, não deliberei na minha microvida, a lá meus odiáveis algozes. Viver é muita coisa, vocês não acham?

VOCÊ TAMBÉM FAZ ISSO! NÃO BAIXA A CABEÇA NÃO!

Daí me dediquei a ouvir a delação do Marcelinho. Na ocasião ele se compromete a dizer a Verdade, à Justiça. Então, descreve as rotinas de sua equipe responsável por pagamentos não-contabilizados, na ativa desde a década de 1990. Observa sobre uma demanda desse dinheiro para caixa-dois em eleição. Afirma que tratavam de operações estruturadas, envolvendo finanças com garantias específicas. Evidencia que não há autores que inauguraram essas rotinas, mas que elas são fruto de uma evolução sistemática, burocrática, para a manutenção da vida.

Ser político faz parte da vida. Na mesma semana que Marcelinho soltava o verbo, a gente discutia a graça que envolvia os apelidos dos citados. Na mesma semana que um monte de gente tomava no cu, desesperados para pagar aluguel de apartamento sem renda na conta, a gente compartilhava memes. Uma página de facebook de um partido comunista escreveu um longo texto deliberando se a Carol Conka era ou não era uma oportunista.

ORAS! FACEBOOK SÓ SERVE PARA DEBATES CABELUDOS SOBRE COISAS TRIVIAIS?!

Continuamos na letargia de que não somos e não estamos para essas coisas de política. Só que quando, no nosso dia-a-dia, deliberamos, representamos, escolhemos, acabamos fazendo tudo como um símio involuído. Não seria prudente parar de olhar o próprio cu e se preocupar um pouco em não ser um completo idiota? Não seria prudente assumir suas incapacidades, enxergar suas responsabilidades e repensar alguma coisa da tua vida?

O youtube divulgou provavelmente umas quatro horas inteiras da delação do Marcelinho. Delação do câncer do país. Uma sintomática metástase que aniquila todas as instituições. As pessoas gostam de pensar em bandeira, hino nacional, Copa do Mundo, O gigante acordou e outras coisas mais… então, pense que essa unidade existe e está toda cagada, da porta da tua casa até o Congresso Nacional.

TODO MUNDO ESTÁ LETÁRGICO, INCLUSIVE EU.

No mais, nada a temer.