Solidão e isolamento nos dias de hoje

A ciência em geral vem ampliando seus conhecimentos sobre os efeitos negativos que a solidão e o isolamento causam à saúde humana. Na Inglaterra, por exemplo, o governo acaba de criar uma secretaria especial que visa amenizar o problema que já atinge, segundo estatísticas, milhares de pessoas em todo o Reino Unido.

Em seus vários ramos, principalmente aqueles ligados à área da Neurociência e da Psicologia, a ciência procura desenvolver pesquisas e estabelecer tratamentos que busquem amenizar as consequências desses estados sobre as pessoas, sobretudo nos grupos mais suscetíveis a viver o isolamento social e familiar, o que se dá com frequência em alguns grupos de idosos e jovens, particularmente em determinadas fases do desenvolvimento. Assim como pode se verificar esse fenômeno sobre determinadas classes de profissionais que exercem atividades promotoras de angústias e ansiedades, em maior grau.

Muito se tem publicado sobre os efeitos da solidão e o isolamento sobre a saúde humana e os artigos apontam que é preciso, também, compreender que muitas vezes uma questão pode não estar relacionada com a outra, conforme podemos ver em relatos recentes de pesquisadores norte-americanos da área da Psicologia, cujos estudos concluíram que solidão requer a percepção subjetiva do afastamento das relações com os iguais, enquanto que o isolamento, por sua vez, se caracteriza pela ausência das interações sociais e as poucas conexões que o indivíduo faz com o meio.

Uma pessoa pode, por exemplo, manter-se totalmente isolada do mundo estando em conexão com ele através de meios eletrônicos e virtuais – o que é muito comum nos dias de hoje –, o que lhe permite não se sentir solitária, já que, embora prefira não interagir, tem consciência de tudo que ocorre em seu redor, enquanto que nos casos de solidão, mesmo estando fisicamente integrado com o meio e, geralmente, com inúmeras pessoas ao seu redor, a pessoa se sente só e, muitas vezes, é tomada pelo sentimento de abandono.

Comprovadamente, já se sabe que o nível de solidão pode trazer sérios resultados no agravamento de inúmeras doenças, uma vez que, em entrando em depressão, o grau de imunidade da pessoa tende a ficar cada vez mais baixo e assim, consequentemente, ela pode ter muita dificuldade de recuperação e até mesmo entrar em estado de risco de vida. Estudos realizados na Universidade de Tecnologia de Swinburne, na Austrália, revelaram que a solidão pode ocasionar alto grau de ansiedade social, bem como depressão e, até mesmo, paranoia ou o desenvolvimento de Alzheimer.

Está comprovado, também, que em regiões mais frias ou lugares onde o Inverno é mais rigoroso e duradouro, a solidão que resulta em depressão é mais comum. Já no Brasil, um país de clima predominantemente tropical, esses comportamentos humanos estão ligados a fatores muito mais sociais que precisam ser melhor compreendidos, objetivando a valorização das relações no sentido da qualidade, muito mais do que em termos de quantidade.

Em alguns países, como o Japão, por exemplo, já existem serviços que oferecem a possibilidade de se alugar “amigos” para combater a solidão e até mesmo parentes ou namorados fictícios para servirem de acompanhantes em eventos sociais ou somente para tirar fotos que são, posteriormente, postadas em redes sociais com o objetivo de incentivar prováveis relações.

O que se constata no geral, porém, é que esses grandes males estão profundamente ligados ao grave problema social que é a diminuição da disposição em compartilhar, investir no convívio e nas relações, na tolerância para com as dificuldades do outro, além do próprio desamor pelo próximo.

José Paulo Ferrari é psicólogo clínico, com especialidade em Psicooncologia, pelo Hospital do Câncer, e Cuidados Integrativos, pela Unifesp.