Por Cris Marques
Fotos: arquivo pessoal
e banco de imagens

Depois de um dia atarefado de estudo ou trabalho, afazeres e atividades, nem sempre é fácil “desligar-se” ao deitar na cama, e essa energia toda pode acabar atrapalhando a noite de repouso, ainda mais para quem “resolve” caminhar por aí. Rosa Hasan, neurologista e assistente do Laboratório do Sono do IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, explica que o sonambulismo é um transtorno do sono no qual a pessoa não está nem acordada, nem dormindo, ficando no que os médicos chamam de estado dissociado, com suas funções motoras funcionando normalmente, mas sem a consciência da vigília, como se estivesse em piloto-automático. Ela também esclarece que o distúrbio é facilmente confundido com o despertar confusional, no qual é possível olhar para os lados e até sentar, mas não andar como um sonâmbulo, o que não exime as chances do indivíduo ter as duas coisas.

Matéria Sonambulismo: dormindo acordado | Click Guarulhos“Os episódios de sonambulismo ocorrem por determinação genética ou fatores precipitantes, como privação do sono, doenças, nervoso, estresse e crises de ansiedade. Duram, normalmente, de segundos a poucos minutos e são mais comuns em crianças e adolescentes que ainda não têm uma rotina de sono totalmente estabelecida”, elucida a neurologista. Segundo Rosa Hasan, não existem níveis diferentes de sonambulismo e sim pacientes que fazem coisas mais complexas do que outros; alguns lembram parcialmente do que aconteceu. “Nessa situação, a pessoa, que fica de olho aberto e anda normalmente, pode apenas dar uma vagada e voltar para o quarto ou tomar banho, trocar de roupa, preparar um prato na cozinha, comer e abrir a porta, além de sair de casa. Ela não está exatamente adormecida e conhece o ambiente; então, são muitas as possibilidades”.

 

Acordar um sonâmbulo, pode?

Diferente do propagado pela ficção, acordar um sonâmbulo não é necessariamente perigoso e muito menos vai levá-lo à morte. O que acontece é que é difícil conseguir tirar alguém desse estado e ele ainda pode assustar-se, reagindo com um empurrão, por exemplo. Para a profissional, o ideal é conduzir o sonâmbulo da forma mais gentil possível de volta para a cama.

 

Matéria Sonambulismo: dormindo acordado | Click GuarulhosPra ver a banda passar

Maria de Lourdes Preto, 46 anos, servidora pública na Prefeitura de Nova Europa, no interior de São Paulo, tinha diversas noites confusas e agitadas e sempre precisava ser acordada pelo marido, que a ouvia gritar. “Isso foi há muito tempo, em 1994. Normalmente, eram só os pesadelos, mas tive duas crises mais intensas na época. Em uma delas, cheguei a sair de casa e ir para a calçada ver uma banda passar; quando dei por mim, estava no meio da rua, sozinha, às três da madrugada. Já na outra, acordei pela manhã e percebi que estava vestida de forma diferente: era a fronha do meu travesseiro, que eu tinha cortado em forma de regata com uma tesoura”. Ela conta que, depois desses episódios, passou a ter muito medo, pois tinha dois filhos pequenos em casa. “Comecei a imaginar se, dormindo, poderia fazer algum mal a eles. Então, dormia amarrada ao meu marido: pegava um barbante bem grosso e passava no meu tornozelo e no dele; assim, se eu tentasse levantar, ele poderia me acordar”. De família religiosa, ela contou aos pais o que acontecia e foi instruída por eles a parar de assistir a filmes de terror, hábito recorrente, e a fazer uma oração antes de dormir. “Coincidentemente ou não, depois disso nunca mais tive nenhum episódio”.

 

No limite entre sonho e realidade

Matéria Sonambulismo: dormindo acordado | Click GuarulhosVictor Samuel de Oliveira Silva, 22 anos, analista de desenvolvimento, tem sonambulismo desde seus 12 anos e, conversando com sua mãe, descobriu que ela também teve alguns episódios quando jovem, nos quais falou e andou “dormindo”. “Nas crises mais simples, só falo algo sem sentido, mas se começarem a conversar comigo, eu respondo. Também tem situações em que saio da cama e vago pela casa. Certa vez, em um acampamento, contaram que fiquei em pé encarando a porta do chalé. Lembro-me da visão da porta e de me mandarem para a cama. No dia seguinte, evitei perguntas”. Ele conta que existe até uma suspeita de que tenha saído de casa, pois, lúcido, durante o dia e sem motivo algum, procurou e achou um remédio que não havia sido comprado ou trazido por nenhum dos outros moradores do local, que, desde então, passaram a esconder a chave da porta. “Nas situações mais surreais, fico entre a realidade e o que minha mente está projetando. Comumente, começo a ver um buraco na cama cheio de vermes e bichos rastejantes e preciso sair o mais rápido possível. Isso já foi perigoso quando dormia na parte de cima do beliche: por duas vezes me joguei de lá, sem controle nenhum. O mais engraçado é que não senti nenhuma dor na hora e nem o choque me tirou do transe. Demorei uns 15, 30 minutos para perceber o que era real e o que não era”.

 

Tratamento

De acordo com a neurologista Rosa Hasan, quando as pessoas não sabem explicar um fenômeno é muito comum acharem que é algo espiritual ou religioso, mas o sonambulismo é um transtorno já conhecido e bastante estudado. “Esse distúrbio não é perigoso para a saúde, de uma forma geral, nem traz maiores riscos. É só mesmo o problema de o paciente cair e se machucar, morar em um local com escadas ou sacada, o que pode ser potencialmente perigoso, ou ainda sair de casa e sofrer algum tipo de acidente. Mesmo assim, o ideal é procurar ajuda profissional até para fazer um diagnóstico correto”.
Para o tratamento inicial, além de uma análise comportamental, é indicada a proteção do ambiente do sono, mantendo o indivíduo em um quarto seguro, com janelas e portas trancadas, e sem coisas pelo caminho que possam levar a quedas. Depois, é preciso evitar fatores precipitantes, como privação de sono e estresse. Se mesmo assim os episódios continuarem preocupantes, o médico pode entrar com medicação, o que pode melhorar e diminuir as crises.

 

Confira os outros temas abordados na capa desta matéria da RG:

Introdução: por um sono de qualidade
Distúrbios do sono

Paralisia do sono
Como a ciência analisa os sonhos
O lado sobrenatural dos sonhos