Superintendente do Saae mentiu em entrevista à RG

A edição de fevereiro da Revista Guarulhos (RG) teve a crise da água como tema de capa e o entrevistado do mês foi o superintendente do Saae, Afrânio de Paula Sobrinho.

Ao responder à pergunta “Quanto Guarulhos trata de seu esgoto e quais as perspectivas de incremento desse percentual?”, disse textualmente:
“Estamos chegando a 50%. Temos duas estações de tratamento em pleno funcionamento: São João e Bonsucesso. E a da Várzea do Palácio, próximo ao Cecap, dependendo de alguns ajustes para operar em plenitude. O compromisso assumido com o Ministério Público em 2007 é de chegar a 80% até 2017. Para cumprirmos, só quando pudermos tratar a região central. Por isso, fizemos a PPP (Parceira Público-Privada). Além de construir estações no Cabuçu e Angélica, a PPP fará os coletores-tronco para retirar os esgotos dos córregos do Centro da cidade. Pode ser que, se não for mesmo possível utilizar a estação da Sabesp do Parque Novo Mundo, que está com a capacidade esgotada, tenhamos de construir uma, possivelmente na região do Jardim Munhoz.

Como funcionam os coletores-tronco?

As redes que coletam os esgotos das residências e dos prédios comericiais despejavam nos córregos. Agora, passam a despejar o esgoto nos coletores-tronco, em geral construídos ao longo dos córregos, e que levam o esgoto até as estações de tratamento.

Em release, Saae admite que só trata 5%. E pode ser ainda menos.

(veja ao final nossa opinião)

Segue texto do release distribuído à Imprensa na tarde de ontem pelo Saae:

A Assessoria de Imprensa do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Guarulhos informa que o Saae realiza um dos maiores programas de tratamento de esgoto do Brasil, e a cidade tem experimentado grandes avanços no saneamento nos últimos anos. Implantar três Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) num período de cinco anos requer esforço e investimento significativos.

Os valores apresentados pela Fundação SOS Mata Atlântica com base nos dados da Cetesb (índice de tratamento de 1,38%) não correspondem aos levantamentos feitos pelo Saae, que entende que há contradições metodológicas; ou seja, que a divergência de informação está associada à metodologia utilizada no estudo. O cálculo do porcentual de tratamento de esgoto considera o volume de esgoto coletado, influenciado pelo atual contexto de escassez de água, além de fatores de sazonalidades como temperatura e chuva, que influenciam positivamente ou negativamente no cálculo desses parâmetros.

Os subsistemas de tratamento São João, Bonsucesso e Várzea do Palácio respondem por 50% dos esgotos do município; ou seja, a capacidade total instalada é de 50%. O índice de tratamento equivalente a essa capacidade será atingido ao longo do tempo, com o processo de interligação dos sistemas domiciliares ao sistema público. Isto funciona assim na imensa maioria dos empreendimentos, sejam eles públicos ou privados.

Para tratar 100% dos esgotos, são necessárias obras complementares, que dependem de altos investimentos. Por isso, para complementação dos sistemas de tratamento de esgoto, o Saae estabeleceu em 2014 uma parceria com a iniciativa privada, na modalidade concessão administrativa (a PPP); até 2017, cumpridos os termos desse acordo, 80% dos esgotos deverão ser tratados.  No entanto, hoje Guarulhos está impedida de dar continuidade a esse processo por causa de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) movida pelo Governo do Estado, que questiona a competência do município de promover o tratamento de esgoto sozinho, por pertencer à região metropolitana de São Paulo.

Considerando o tratamento em cada subsistema instalado, dados relativos a agosto/2015 indicam que a ETE Várzea do Palácio trata cerca de 20% do esgoto coletado naquela sub-bacia e a ETE São João, aproximadamente, 16% do coletado em sua sub-bacia; apenas no sistema Bonsucesso o município trata, ainda, 1% do esgoto da respectiva sub-bacia, em razão de um contrato cuja empresa abandonou as obras de afastamento e interceptação (coletores-tronco e interceptores). Esses números levam a um índice de tratamento no município em torno de 5% a 6%, portanto um número bem diferente daquele citado pela Fundação SOS Mata Atlântica. Cabe destacar que o esgoto referente ao subsistema Centro, que é a parte mais adensada da cidade e, portanto, a área com maior peso em relação ao total, ainda não é tratado, o que compromete negativamente o porcentual médio de tratamento da cidade.

A solução do problema de interligação dos sistemas instalados e do de implantação do sistema Centro está baseada na PPP e poderia estar em uma situação melhor se não fosse a Adin movida pelo Governo do Estado. Além disso, não se pode esquecer a situação financeira do Saae, que foi bastante impactada nos últimos meses pela crise hídrica, que fez com que a receita da autarquia reduzisse em mais de 30%.

É preciso também considerar a complexidade típica relativa ao processo de implementação do tratamento de esgoto urbano. Como exemplo desta complexidade, podemos citar o caso da ETE Suzano (uma das cinco integrantes do Sistema Metropolitano), inaugurada em 1982, portanto há mais de 30 anos, que ainda opera com cerca de 50% de sua capacidade.

Os avanços em saneamento básico em Guarulhos a partir de 2001 são indiscutíveis. Com relação à coleta de esgoto, o índice de cobertura saltou de 65%, aproximadamente, na década passada, para cerca de 84%; um avanço significativo. De janeiro de 2001 a março de 2015 foram executados quase 500 quilômetros de redes (incluem-se aí redes coletoras, coletores-tronco, linhas de recalque e interceptores) e cerca de 60 mil ligações de esgoto. Além disso, nos últimos cinco anos foram concluídas três unidades de tratamento de esgoto (São João, Bonsucesso e Várzea do Palácio), um feito inédito na história do município.

Nossa opinião

Se não fosse a denúncia feita por servidores do Saae em audiência pública na Câmara, a população de Guarulhos continuaria sendo enganada.

Mesmo nas explicações do Saae, a Assessoria está tão viciada em tergiversar e dizer uma coisa querendo dizer outra, que ainda continua afirmando que “o esgoto do subsistema Centro não é tratado”, como se vê no trecho em destaque. O que Afrânio disse em fevereiro que eram 50% são agora apenas 5% ou 6% e ainda insistem em dizer que o esgoto do Centro não é tratado. Ora, esgoto de praticamente toda a cidade não é tratado.

Afinal, se a capacidade instalada de tratamento é de 50%, mas em uma estação só são tratados 20% da região, em outra 16% e na terceira apenas 1%, o fato de não tratar absolutamente nada da região central não muda tanto assim o quadro, apenas é mais perceptível por causa do péssimo odor exalado dos córregos.

O povo está cansado de mentiras.

Como jornalista responsável pela Revista Guarulhos (RG), peço desculpas aos leitores por ter publicado, sem saber, a deslavada mentira dita pelo superintendente do Saae.

Valdir Carleto