Tecimento de memórias, ações, pensamentos: Porão da história e a loucura como (quase) realidade

Normalidade, barbárie, desumanização. O espetáculo Juquery, memórias de quase vidas, do Teatro Girandolá, a partir de pesquisa de mais de dois anos, traz para a cena a história do Complexo Hospitalar Juquery, inaugurado como parte da política de saúde higienista, em 1898, pelo psiquiatra Francisco Franco da Rocha. A cidade era inicialmente chamada Juqueri (do Tupi-Guarani, nome de uma planta). Antes denominada Colônia Agrícola Juqueri, passou a chamar-se Asilo de Alienados do Juqueri e depois recebeu o nome Hospital e Colônia de Juqueri.

Instantes antes do horário marcado para inicio do espetáculo, acontece a ação de ambientação do público. Primeiro uma triagem, na qual eram preenchidas fichas com perguntas objetivas e outras, subjetivas, que mostravam um pouco do que poderia vir. As pessoas do público tinham seus objetos guardados em sacolas e recebiam uma fita de identificação colorida. No que foi simulado como percurso para se chegar à “internação”, um ambiente de transporte público, em que uma engenhosa cena proporcionava a sensação de estarmos mesmo num ambiente coletivo do cotidiano. Um vendedor característico, porém com forte enfoque de valorização da cultura popular tradicional (que transforma a realidade de modo surpreendente), propagandeava seus inventos e os oferecia para a venda com preço “fixo” de dez reais. As situações cômicas advinham da relação estabelecida pela atriz que representava esse comerciante e as outras personagens, sempre em diálogos com alguma distância, estabelecidos entre o público. Expediente simples, funcional e utilizado com maestria na cena.

Ao chegar ao ambiente interno propriamente dito, em que se daria a maior parte da encenação, atrizes e ator colocados estrategicamente em lugares que, por meio de um parto-tecido dado à luz pela atriz-personagem-narradora (assim como atuariam também as atrizes e ator da Cia., que apresentam mais de uma personagem cada um, além de desempenhar funções narrativas outras durante a apresentação), é contada uma versão crítico-poética da luta antimanicomial no país. Essa figura, que condensava referências diversas de personagens reais internadas em manicômios e outros equipamentos de saúde desse tipo, trazia um manto que, inspirado na obra do artista Bispo do Rosario, estabelecia também um expediente narrativo, ao expor nomes que fazem parte da história pesquisada pelo grupo, algumas pessoas que estão ou estiveram internadas no Juquery e que foram conhecidas e acolhidas como inspiração e base para a dramaturgia do espetáculo.

O coletivo, de Francisco Morato, tem integrantes de Franco da Rocha e imediações. É absolutamente fundamental o compartilhamento entre esses artistas, que se assumem como representantes da periferia – o que é importante que se faça, pois ninguém melhor para falar de suas mazelas que aqueles que as vivem na pele – numa mostra como a Mostra de Teatro Héliópolis: a periferia em cena, organizada pelo Coletivo de Teatro de Heliópolis. A potência visceral da interpretação, em especial das atrizes, as mantém hiperconcentradas em cena, o tempo todo, de modo que se pode perceber a presença das personagens e atrizes, que estão simultaneamente em contrarritmo quando não são pivôs da cena (aquele ou aquela que, durante uma cena, é colocado como foco primordial da narrativa). Assim, como observou Alexandre Mate, curador da atividade, esse aspecto poderia ser aprofundado para que a dramaturgia do espetáculo e da cena também pudesse assumir uma organização mais caótica, considerando o tema da loucura ser estruturalmente apropriado também formal e esteticamente.

Sutilezas, detalhes e artesania são tônicas da obra, que envolve, emociona e trouxe o público para o interior da cena, literalmente, cantando “Se esse rua fosse minha…”, num belo e vivo coro. Assim, a identificação pode vir, nas idas e vindas proporcionadas pelo tratamento épico dado às cenas, colocando-nos muito próximos do universo da loucura, questionando o que seria a “sanidade”, num mundo repleto de aparentes facilidades e barbárie instaurada e naturalizada. Por outro lado, o teatro se apresenta como possibilidade poética de assumir as contradições humanas, de modo a estranhá-las, como pressupunha o mestre Bertolt Brecht e, quem sabe, de mobilizar as possibilidades de alterar esse “estado de coisas”.

Por: Simone Carleto * 

* Artista pedagoga, pesquisadora teatral e coordenadora da Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos; doutoranda no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho.