Por Valdir Carleto

A professora Maria Inez Molinari Sofia é a dirigente de ensino da Diretoria Guarulhos-Norte.
Ela fala sobre sua carreira, desafios da educação e explica os motivos que levaram a Secretaria de Educação a promover a readequação de classes que tanta polêmica vem causando.

Onde nasceu, quando e por que veio para Guarulhos?

Nasci no bairro do Tucuruvi, em São Paulo. Vim para Guarulhos em 1971, onde iniciei minha carreira no magistério. Em 1974, me casei e mudei para a vila Galvão, onde moro até hoje.

Qual sua formação?

Sou professora dos anos iniciais, sou formada em Pedagogia e tenho pós-graduação em Gestão Escolar.

Quais disciplinas lecionava?

Do 1º ao 5º ano (antigo primário/ciclo I). Portanto, englobava várias disciplinas, era polivalente.

Antes de ser dirigente regional, quais cargos exerceu na hierarquia da Educação?

Iniciei a minha carreira como professora em 1971, na rede estadual. Em 1977, migrei para a Prefeitura de São Paulo, onde exerci as funções de professora, professora coordenadora, vice-diretora e diretora de escola. Atuei também na Delegacia Regional, nome dado na época às Diretorias de Ensino. Aposentei

em 2001. Prestei o concurso para diretor de escola do Estado de São Paulo e ingressei em 2002, na EE Parque Continental, Gleba I. Atuei nas Escolas Professora Francisca de Assis Ferreira Novak e José Marun Atalla e também exerci a função de supervisor de ensino na DE Guarulhos Norte.

Quantas escolas estão sob sua jurisdição? E quantas fazem parte da Diretoria Guarulhos Sul?

Atualmente 85 escolas estaduais e 50 particulares. Na Sul, são também 85 estaduais e há 120 particulares.

Qual a atuação das Diretorias Regionais em relação às escolas privadas?

Autorizamos o funcionamento e fiscalizamos os aspectos administrativos e legais, como, por exemplo, a habilitação dos professores.

Qual sua opinião sobre os motivos que levam tantos estudantes a alcançar as séries finais do Ensino Fundamental – e até do Nível Médio -, sem que leiam perfeitamente, escrevam com clareza e sentido e façam as operações matemáticas triviais?

A visão de ler perfeitamente é muito subjetiva. Uma leitura pode ser perfeita considerando determinado gênero textual – de domínio do aluno (receita de bolo, placas de trânsito, mensagem nas redes sociais etc), mas nem tanto em textos cujo gênero não se aproxime de sua realidade. A dificuldade em ler determinados textos está relacionada, também, a questões sociais que vão além da responsabilidade da escola. Escrever com clareza e sentido está diretamente relacionado às práticas de leitura. Quanto à matemática, dificilmente um aluno é prejudicado quando se utiliza de um cálculo matemático em situações reais do dia a dia. Portanto não podemos afirmar que ele não faz essas operações. A grande dificuldade está, muitas vezes, em aproximar a teoria matemática às situações cotidianas.

O baixo desempenho e o desinteresse que muitos alunos têm não seriam reflexo da progressão continuada?

Eu sou favorável à progressão continuada, pois todos são capazes de aprender. Nada garante que obrigar o aluno a fazer duas ou três vezes a mesma coisa fará com que ele obtenha o desejado aproveitamento. Além do mais, é ilógico o aluno que fosse retido por dificuldade em determinada matéria ter de refazer todas as disciplinas daquela série. O fato de um aluno não se apropriar de um conteúdo geralmente indica que ele não conseguiu associar como colocar aquilo em prática.

O que se faz, então, para que ele aprenda o que não conseguiu absorver junto com os demais alunos?
Há avaliações em processos e estudos de reforço e recuperação. Avalia-se por que ele não aprende, em vez de puni-lo com a retenção. E assim se tem condições de analisar o perfil do aluno e acompanhar seu desenvolvimento.

Se estivesse ao seu alcance, qual providência tomaria para que as aulas fossem mais atrativas às crianças e jovens da atualidade?

Estamos vivenciando uma era em que a tecnologia é um excelente recurso para auxiliar o desenvolvimento de aprendizagens. Otimizaria os espaços tecnológicos já existentes nas unidades escolares, potencializando o trabalho docente, por meio de formações, a fim de garantir o avanço da aprendizagem em todas as etapas da educação básica.

Fala-se em redução do número de alunos a cada ano. É verdade?

Sem dúvida. Da nossa Diretoria, posso citar os números: Em 2012, tínhamos 90.876 alunos. Em 2013, caiu para 85.489. Terminamos 2014 com 81 mil e nesta fase de 2015, temos cerca de 78.800 alunos, com o mesmo número de escolas.

Qual sua opinião sobre as elevadas taxas de evasão escolar?

Inúmeros fatores podem contribuir para esse elevado índice. Destaco o desestímulo do aluno em relação ao não alcance de conceitos satisfatórios, a necessidade de, tantas vezes, colaborar na composição da renda familiar (ou até ser a única renda), a troca constante de moradia fixa e a pouca atratividade do ambiente escolar, seja físico ou pedagógico. A reorganização escolar busca, justamente, resolver esse último fator.

dirigente da Guarulhos-Norte

Está havendo uma grande polêmica sobre a reorganização que o Estado fará nas escolas. Por que se chegou à conclusão de que é melhor concentrar determinados segmentos em escolas distintas?

Pelos indicadores positivos das escolas que possuem um único segmento. Também proporcionar às unidades escolares melhores condições para elaborar e executar o seu Projeto Político Pedagógico, tendo em vista que sua atenção estará focada nos interesses e necessidades de uma determinada faixa etária, com ambientes pedagógicos mais alinhados aquela comunidade escolar.

Existem experiências exitosas da aplicação dessa pretendida separação por níveis de ensino específicos?

Há experiências que apontam índices superiores de aproveitamento quando há atendimento exclusivo de um nível. Vejamos: para os alunos em fase de letramento, as salas de aula devem ser voltadas ao que chamamos aluno-leitor. Quando se trata do Nível Médio, o aluno é quase um adulto, a sala precisa de outro perfil, outro tipo de equipamento. Vimos um resultado muito positivo, por exemplo, com alunos das séries finais do Fundamental e também do Médio, que fizeram uma releitura do Auto da Barca do Inferno. Nas apresentações, eles tanto nos fizeram rir quanto chorar.

É fato que há salas de aula ociosas?

Sim. Várias unidades escolares possuem salas onde não há demanda. E na nossa rede há cinco unidades próximas umas das outras e todas elas com os três níveis de ensino. Uma unidade tem apenas 68 alunos em um turno de aulas. A reorganização vem, portanto, em boa hora. Mas, certamente os estudos apontarão que há regiões onde não será possível aplicá-la. E a Secretaria de Educação determinou que a distância máxima que se poderá aumentar para o deslocamento dos alunos é de um quilômetro e meio.

dirigente da Guarulhos-NorteQuem se opõe à readequação acusa o Estado de superlotar salas de aula. Como é a quantidade de alunos nas escolas vinculadas à sua Diretoria?

Em geral, nossas escolas têm número de alunos abaixo do que é estabelecido para cada módulo, que seria 30 alunos nas séries iniciais do Ensino Fundamental; 35, nas séries finais e 40 nas do Nível Médio.

Existe mesmo a possibilidade de fechamento de escolas estaduais?

Todo estudo está sendo feito com muito critério e cuidado, para que a mobilidade e o impacto sejam mínimos. Se houver necessidade de se disponibilizar algum prédio por estar ocioso, ele continuará atendendo a comunidade em outro segmento do qual também necessite, como creche, educação infantil ou Etec (escola técnica estadual).

Aponta-se que haverá desemprego entre professores da rede. Esse risco é real?

Não, esse risco não é real. E a Secretaria também garante que nenhum professor terá de lecionar em outra cidade em decorrência da reorganização.

 

Confira como cada escola estadual de Guarulhos ficou com a reorganização

 

Artigo retirado originalmente da Revista Guarulhos – Edição 105