Por Cris Marques
Fotos Carla Alves e Luh Testoni

Você já ouviu falar em brinquedos que não são usados para brincar? Ou que não são voltados para o público infantil? Pois é exatamente sobre isso que a Weekend vai falar: itens feitos para adultos (ou apropriado por eles) para colecionismo, decoração, fotografia ou apenas guardar e cuidar. Divididos entre toy arts (peças normalmente lançadas por artistas plásticos, em edições limitadas e numeradas ou assinadas), figuras de ação e bonecos(as) articuláveis, eles representam personagens de grande popularidade da mídia, como filmes, HQs, séries, animês, games e músicos do rock, e já são um imenso sucesso.

Toy Art matéria | Click GuarulhosQue o diga a empresa americana Funko, uma das maiores fabricantes de toys do mundo, com mais de 80 licenças como Star Wars, Disney, Meu Malvado Favorito, Marvel, DC Comics, O Senhor dos Anéis, Transformers ou Game of Thrones. Ou outras empresas e coleções famosas como a Kidrobot, que produz bonecos de diversos artistas internacionais, os “cães e gatos cactos” da marca italiana Tokidoki, ou as criações politicamente incorretas de Frank Kozik. E não foram só as empresas do ramo que perceberam a ascensão desse segmento não. Quer um exemplo disso? O Mc Donald’s, maior e mais conhecida rede de fast food do mundo, tem investido pesado nos brindes que acompanham seu prato infantil, lançando coleções com personagens icônicos e altamente colecionáveis, como super-heróis famosos, Minions, Mario Bros, Hora de Aventura, Monstros S. A. e mais, que podem até agradar aos pequenos, mas acertam mesmo os adultos.

Admiração, decoração e trabalho

A coleção da fotógrafa e dona do blog primeiraesquerda.com, Luh Testoni, começou por gosto, mas logo se tornou objeto de trabalho. “Passei a fotografar com eles, então os itens ganharam outro propósito rapidamente. Hoje é 100% material de trabalho. Tanto que não tenho mais eles expostos, por causa da quantidade […] Atualmente armazeno tudo em caixas. Estofei todas e tenho muito cuidado na hora de guardar”. Hoje ela já possui mais de 200 toys entre Funko Pops, bonecos articulados e brindes temáticos, como as surpresas do McLanche Feliz.

Além de blogueira, Luh também é instagrammer e criou uma conta só para divulgar as imagens que cria com eles: o @30daysoftoys, um perfil atualizado diariamente e com mais de três mil seguidores. “O projeto surgiu quando eu fiz um curso de empreendedorismo criativo e precisava fazer uma série de 30 dias do objeto central do meu trabalho, no caso, a fotografia. Como já colecionava, resolvi fazer com os brinquedos, mas à medida que o mês foi passando, acabei criando o hábito e mantive o projeto”.

Toy Art matéria | Click GuarulhosBonecas, bonecas e (mais) bonecas

Já a paixão de Tatiana Lima Castro, compositora erudita e artista plástica nascida em Londres, mas com dupla nacionalidade e coração carioca, começou muito antes do interesse em colecionar. “Eu sempre gostei de bonecas, desde muito pequena. E acho que essa paixão vem da minha mãe, que sempre gostou também e curtia comprá-las pra mim. […] Quando eu era adolescente, passei um tempo longo morando no exterior com minha família, durante este período, deixei meus últimos brinquedos na casa de praia de um tio. Infelizmente, a casa foi arrombada e roubaram tudo. Quando voltamos ao Brasil, minha mãe e eu resolvemos comprar as ‘Moranguinhos’ que haviam sido levadas. Procuramos em bazares de igreja, feiras de antiguidades e na internet, e acabamos comprando não somente as que eu tinha perdido, mas outros modelos também, e não paramos mais”.

A londrina conta que isso já se tornou um hobby, e que há diversão em todo o processo: da busca por elas na internet até a organização do display, passando pela expectativa da espera do pacote e até a catalogação. “Divido essa paixão com minha mãe e com meu marido, ambos têm suas coleções pessoais. Então, de certo modo, virou um estilo de vida em nossa família. Tenho uma Blythe, a Cecília, que já visitou vários países comigo e com meu marido”. A coleção de Tatiana é tão grande que ela já perdeu a conta. Além das Moranguinhos, brasileiras, fabricadas pela marca Estrela, e internacionais, ela possui Blythes, My Childs, Ginnys, Pun’kins, Living Dead Dolls, Zelfs, Novi Stars, Barbies, Lati Yellows e algumas antigas de porcelana e massa (chamadas, em inglês, de composition dolls), incluindo uma Heubach-Köppelsdorf, alemã, contemporânea da Primeira Guerra Mundial, chamada Filomena.

Original e na caixa


Todo bom colecionador sabe que manter um produto lacrado, na caixa original, valoriza o seu valor e tem muita gente que investe nisso. “Não é questão de ser fanático. Tem gente que curte deixar seus itens no estado original, como saiu da fábrica, e isso é compreensível, assim eles têm maior valor no mundo do colecionismo. A própria caixa em si tem valor, o que o leigo não costuma saber. Toy Art matéria | Click GuarulhosIsso aumenta seu valor de maneira exponencial, com o passar do tempo. Algumas pessoas veem uma oportunidade de investimento e compram duas unidades – uma para si e o outra para deixar valorizar e revender. Existem várias propostas no ato de colecionar, e essa é apenas uma delas. Todas são válidas. Eu tenho várias bonecas em caixas, mas tenho várias fora também”, explica Tatiana.

Produto importado, preço também

De acordo com Jorge Rodrigues, empresário e proprietário da Comix Book Shop, em São Paulo, colecionar esses itens faz sentido por causa da representatividade de seus personagens. “São figuras que foram vistas por milhões de pessoas, então isso desperta nos fãs o desejo de adquirir os produtos”. Porém, se boa parte dessa indústria é originada fora do país, isso significa que seus “representantes em brinquedo” também são, o que resulta em um alto preço – um dos pontos fracos, senão o único dessa onda dos toys. “Eu, mesmo tendo uma quantidade grande, penso mil vezes antes de comprar e tento fazer isso fora do país sempre que posso. Os preços no Brasil chegam a ser abusivos em alguns casos”, conta Luh Testoni.

Mas será que existe espaço para peças tupiniquins? Segundo o empresário sim, mas para isso é preciso ter mais símbolos brasileiros que sejam relevantes nessa cultura pop. “Nestes anos, já vi alguns exemplos como uma linha da Turma da Mônica Jovem e uma estátua do Astronauta (também personagem do Mauricio de Sousa), baseado no desenho do artista Danilo Beiruth. Além da Iron Studios, que desenvolve os protótipos dos heróis da Marvel por aqui, com fabricação na China”, ressalta ele.


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Começando uma coleção


Luh Testoni destaca que se a pessoa gosta da ideia de ter esses brinquedos, o mais importante é começar por personagens que façam sentido. Afinal, a coleção é a cara do dono e não faz sentido comprar toys apenas por uma questão de quantidade. Tatiana concorda e acrescenta que não existe uma forma correta. “O colecionismo aflora o lúdico nas pessoas. Isso é muito importante, pois nos coloca em contato com nossa criatividade, nossa imaginação. Há quem ache que crescer é abrir mão de tudo isso. Já eu acho que, abraçando o lúdico, nos tornamos adultos mais completos”, conclui.