Tradição do Mastro de Bonsucesso foi resgatada após consulta a antigos festeiros

Mastro erguido no largo da Catedral Nossa de Bonsucesso. Ano de 2015. Acervo: AAPAH/Bruno Leite de Carvalho

Por Bruno Leite de Carvalho

O mastro da Festa de Bonsucesso ficou sem erguido por muitos anos. Em 2009, os pesquisadores da ONG Abacaí questionaram os moradores locais para saber se a festa antigamente não tinha o tal símbolo presente em várias festas populares em todo o Brasil.

Foi então que representantes da comunidade foram consultar antigos moradores que revelaram que há muitos anos atrás era levantado um mastro em homenagem à Nossa Senhora de Bonsucesso no começo das festividades. Assim, foi resgatada a tradição.

A comunidade foi pesquisar como deveria ser feito o símbolo, assim com a liderança do Sr. Antônio, em 2009, voltou-se a se fazer a derrubada da árvore de eucalipto de doze metros, essa espécie é escolhida, pois renasce com facilidade. Assim, o tronco é descascado e alisado com devoção.

Na noite das artes, que é o último sábado antes da Festa da Carpição, o mastro da padroeira de Bonsucesso é apresentado para a comunidade, o padre faz a benção com o tronco ainda deitado, os fiéis colocam lenços coloridos ou escrevem na própria madeira para agradecer ou pedir as mais diversas graças.

Fiéis escrevem seus pedidos e agradecem as graças alçadas. Ano de 2015. Acervo: AAPAH/Bruno Leite de Carvalho

Na primeira segunda-feira de agosto, quando acontece a Festa da Carpição, a procissão carrega o mastro do salão paroquial até a frente da Catedral de Bonsucesso, onde colocam a bandeira, içam e erguem para ficar no local até o dia dezesseis de julho do ano seguinte, que é o dia do aniversário da paróquia. Segundo a crença, as preces colocadas no mastro chegam mais rápida ao céu.

Após a retirada, a madeira é cortada em onze partes, cada pedaço vai para uma comunidade pertencente à paróquia. Esses pedaços de eucalipto são colados em fogo santo e servem para o Círio Pascal.

Todo o trabalho de preparação é feito pelos capitães do mastro Sr Antônio e Dona Cida, devotos de Nossa Senhora de Bonsucesso.

Dona Cida e Seu Antônio, capitães do mastro. Ano de 2015. Acervo: AAPAH/Bruno Leite de Carvalho

Como em toda festa popular, as festividades em Louvor à Nossa Senhora de Bonsucesso sofrem alterações dos seus ritos e costumes. A bandeira do mastro sofreu uma mudança nesta festa de 2015, o atual padre solicitou a retirada de São Benedito e da Imaculada Conceição, restando apenas a padroeira da festa.

A festa da Carpição e Nossa Senhora de Bonsucesso completou 274 anos, em 2015. Como todo patrimônio imaterial é uma atividade viva com inúmeras mutações durante seus anos de existência, porém é importante se respeitar suas tradições para que não se perca a sua essência. O mastro é exemplo de um costume perdido com o tempo, porém o trabalho de pesquisa e a consulta a antigos festeiros resgataram um símbolo importante da cultura popular.

*Jornalista, responsável pela assessoria de comunicação da AAPAH, coautor dos livros “Guia Histórico Cultural de Logradouros – Lugares e Memórias de Guarulhos” e “Signos e Significados em Guarulhos: Identidade – Urbanização – Exclusão”.