Transtornos alimentares: causas, tratamento e a importante ajuda da família

Por Kelly Saito
Fotos: banco de imagens

Cada vez mais presentes na atual sociedade, os transtornos alimentares (TA) podem ser definidos como síndromes comportamentais, ou seja, um conjunto de sinais e sintomas disfuncionais relacionados à alimentação, cujos critérios diagnósticos têm sido amplamente debatidos nos últimos 30 anos.

De acordo com a última edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), existem sete possibilidades de TA: anorexia nervosa, bulimia nervosa, transtorno de compulsão alimentar, pica, transtorno de ruminação, transtorno alimentar restritivo/evitativo, outro transtorno alimentar especificado e transtorno alimentar não especificado (TANE).

Conforme a psicóloga Andreza Wurzba, especialista em dependências, abusos e compulsões, a vigorexia também é um transtorno relacionado à alimentação, mas ainda não citado no DSM-V. É caracterizado pela preocupação excessiva e compulsiva com a qualidade nutritiva daquilo que é ingerido.

Apesar de todos serem classificados como TA e apresentarem aspectos psicológicos e comportamentais comuns, eles diferem muito entre si, no que diz respeito a evolução clínica, desfecho e tratamento.

Causas e incidência 

Quando se fala em causa, é comum ligar o tema à obesidade, porém, como esclarece a psicóloga, ela é apenas uma das possíveis consequências. “Essa associação pode ocorrer pela atenção que a mídia atribui a esta questão, concomitante aos padrões estéticos cada vez mais rígidos, envolvendo subjetivamente questões sociais mais importantes, como a necessidade de adaptação e pertencimento. Porém, creio que existem muitos outros fatores, como o fato da obesidade ainda ser um desafio para a medicina. É importante compreendermos que estamos falando de doentes que se assemelham entre si por um conjunto de sintomas comuns, mas que dispõem de singularidades e subjetividades que demandam atendimento, compreensão e escuta especializada”, esclarece.

Para Andreza, pensar em uma causa isolada para qualquer patologia é minimizar a complexidade humana. Segundo ela, a própria Organização Mundial de Saúde (OMS) nos compreende enquanto seres bio-psico-sociais-espirituais, o que pode ser confirmado no questionário de qualidade de vida da OMS, que inclui questões sobre fé e espiritualidade (WHOQOL-100). Assim, são consideradas multifatoriais as causas para o desenvolvimento dos transtornos alimentares, sendo que a epidemiologia (estudo dos fatores que determinam a frequência e a distribuição das doenças em grupos de pessoas) é comprometida à medida que muitos deixam de buscar tratamento por inúmeros motivos: vergonha, falta de consciência da doença e medo do julgamento, pois muitos ainda desqualificam os transtornos alimentares, considerando-os uma questão de falta de força de vontade, principalmente aqueles cujo resultado é a obesidade.

“O que caracteriza os TA é a insatisfação com o próprio corpo. A American Psychological Association informa que os transtornos alimentares atingem de 2 a 5% da população americana. De acordo com a literatura, a etiologia (estudo da causa) é multifatorial e envolve fatores predisponentes (aumentam a chance de aparecimento); precipitantes (marcam o aparecimento dos sintomas) e mantenedores (determinam a perpetuação do transtorno)”, elucida Andreza.

Transtornos alimentares são doenças bastante graves quando começam a trazer comorbidades, ou seja, sintomas clínicos recorrentes do transtorno. “Mulheres com anorexia deixam de menstruar, por exemplo, o que ilustra o comprometimento bioquímico que o organismo está tendo”, enfatiza.

Seis sintomas que podem indicar algum transtorno alimentar

1.Medo de engordar
2.Constante insatisfação com sua autoimagem
3.Uso de métodos inapropriados para emagrecer, como laxantes, diuréricos e a indução de vômitos
4.Atividade física em excesso
5.Pesar-se constantemente
6.Sintomas depressivos

Acolhimento e códigos próprios

Nem sempre a culpa é um sentimento presente em pessoas com transtornos alimentares, o que acontece geralmente na bulimia nervosa e na compulsão alimentar. Já no caso da anorexia, normalmente existe um orgulho e uma sensação de poder, pois o paciente acredita que é mais forte do que a comida. “Esse sentimento de culpa não se afasta, mas deve ser acolhido e respeitado com amor, tudo o que falta nesses transtornos, marcados por uma relação de autopunição e desamor constantes. As pessoas não reconhecem que têm a doença, precisam ser olhadas”, assinala Andreza. Ela explica que, do ponto de vista emocional, os comportamentos compulsivos revelam feridas psíquicas inconscientes, ou seja, que o paciente não se deparou diretamente, por isso, essas feridas têm uma força aprisionadora.

A família precisa ficar atenta e de olho. É importante saber que existem blogs e códigos que, por exemplo, as portadoras de anorexia e bulimia usam. As anoréxicas se denominam como Anna e até podem usar pulseiras vermelhas como sinais de que fazem parte do grupo de meninas que superam o desejo de comer. As bulímicas, que se autodenominam Mias, usam a cor roxa para tal identificação. “Essas trocas digitais via mídias sociais promovem uma sensação de pertencimento, acolhimento e compreensão, tudo aquilo que precisam em demasia. O que elas não sabem é que esta necessidade demanda de outra fonte, normalmente suas próprias mães”, comenta a profissional.

Os extremos

Compulsão alimentar – Pacientes com essa doença são capazes de ingerir mais de 2.000 calorias em menos de duas horas.
Anorexia nervosa – Caracteriza-se por ingestão muito inferior ao necessário, cerca de 300 calorias por dia durante meses, além do uso de laxantes, diuréticos e atividade física em excesso. Essas pessoas enxergam seus corpos cadavéricos como obesos.

A palavra da nutricionista

De acordo com nutricionista clínica do CHPBG e do Gamedii-CHPBG (Grupo de Assistência Multidisciplinar em Estomias e Doenças Inflamatórias Intestinais), o tratamento é realizado por uma equipe multidisciplinar (psiquiatra, psicólogo, médico e nutricionista), de forma integrada para mudar os comportamentos relacionados à imagem corporal (peso) e alimentação do paciente, o que inclui problemas emocionais e fisiológicos. “O tratamento nutricional tem como objetivo promover hábitos saudáveis, parar os comportamentos alimentares inadequados (restrição, compulsão e a purgação) e melhorar a interação do paciente com sua alimentação e seu corpo”, esclarece.

Os hábitos podem ser mudados no atendimento em equipe, através de metodologias utilizadas para promover conhecimento, entendimento e desmistificação da alimentação, incluindo não só a pessoa com o transtorno alimentar, mas também a família, gerando motivação para a mudança do comportamento.

Segundo a nutricionista, os transtornos alimentares têm íntima relação com a infância e adolescência, sendo, muitas vezes, desenvolvidos nessas fases. Outro fator a considerar é baseado em pesquisas, que mostram que os transtornos alimentares são encontrados em vários membros da mesma família, além de sintomas que acompanham esses transtornos: ansiedade, compulsão, depressão e impulsividade. De acordo com essas pesquisas, os TA não são só distúrbios socioculturais. Por isso, é preciso mudar o foco do tratamento, dando uma atenção maior aos sinais e sintomas que se iniciam, trabalhando na prevenção e também na inclusão da família no tratamento. A medicina preventiva também funciona nesses casos por meio de diagnóstico precoce e acompanhamento multidisciplinar.

Cinco hábitos alimentícios para um corpo saudável

1. Beba água: de seis a oito copos por dia. Mantenha uma garrafinha de água sempre por perto;
2. Não pule refeições. Faça, no mínimo, três por dia, com intervalos de três a quatro horas e pequenos lanches nos intervalos;
3. Inclua fibras na alimentação;
4. Diminua o consumo de sal e açúcar, principalmente o refinado;
5. Tenha prazer em comer. Evite comer rápido, pois o contato mecânico dos alimentos com a mucosa do estômago estimula a produção de substâncias que têm efeito sobre a saciedade.