Tudo em Conservatória – RJ remete a música e poesia

Todas as noites de sextas e sábados, seresteiros do distrito de Conservatória, em Valença (RJ), reúnem-se na Casa da Cultura e pontualmente às 23 horas saem para percorrer as ruas cantando.

Em alguns fins de semana, mesmo havendo mais de cem pousadas e três hotéis-fazenda, faltam vagas para hospedagem. Nomes de pousadas e outros estabelecimentos remetem à música e à poesia.

Sites que falam de Conservatória atribuem o início da tradição a um romântico professor de música e violinista, Andreas Schmidt, que, em uma noite enluarada no silêncio do vilarejo, atraiu espectadores ao tocar seu violino na praça. Ele adquiriu o hábito de tocar nas noites estreladas. Aos poucos, músicos vindos de outros lugares passaram a acompanhar as serenatas do professor, e essa virou uma característica incorporada ao lugar.

Segundo o seresteiro Ailton Rodrigues, a tradição foi incrementada após a criação do Museu da Seresta e da Serenata, pelos irmãos Joubert de Freitas e José Borges de Freitas Neto, em 1960.

O termo serenata refere-se a canções de amor, cantadas sob o sereno da noite. Ailton cita a trilogia que envolve a tradição: a mulher amada, o seresteiro que quer homenageá-la e o luar.

Ele explica que o Museu da Seresta e da Serenata nasceu para guardar lembranças de músicas de tempos passados, reportagens, letras de músicas, fotografias. Há anos, desenvolve-se o plano “Conservatória, em toda casa uma canção”: pequenas placas metálicas são colocadas nas fachadas das residências com o nome de uma música e de seu autor. Já são mais de 400 as casas que ostentam as plaquetas.

O Museu não depende de verbas oficiais ou empresariais. Até a morte de José Borges, em 2002, funcionou em uma propriedade dele. Depois, o imóvel foi vendido e o acervo foi transferido para a Casa da Cultura, que é uma entidade mantida pelas mensalidades pagas pelos associados, que querem manter viva essa tradição.

A professora Rosa Helena está concluindo a edição de um livro que busca reunir todas as informações disponíveis e fazer um relato o mais fiel possível da história do distrito.

No bojo do trabalho dos seresteiros, surgiram outros movimentos, como o de grupos de chorinho, que se apresentam nas tardes de sábado na praça principal de Conservatória. Restaurantes e pousadas costumam ter cantores ou grupos cantando para animar os frequentadores. Esses intérpretes o fazem profissionalmente, mas os seresteiros do Museu da Seresta nada cobram pelas apresentações que fazem.

A filosofia seguida pelos criadores do Museu da Seresta e Serenata está registrada no Estatuto do Museu, cuja redação contou com a colaboração de João de Andrade Junior:

CARACTERÍSTICAS ESSENCIAIS:

  1. O Museu da Seresta, criação dos irmãos José Borges e Joubert de Freitas, é mantido sem ajuda financeira de políticos e empresários;

  2. O Museu não reivindica nem aceita colaboração financeira, não compra e não vende nada;

  3. O Museu se propõe a preservar a memória da Música de Serenata, cantando pela rua, e do projeto “Em Toda Casa uma Canção”;

  4. O Museu não tem representantes, nem vínculos políticos ou comerciais, admitindo solicitações dentro dos parâmetros do seu comportamento;

  5. O Museu serve como ponto de encontro dos que cantam, tocam ou gostam de ouvir música de serenata;

  6. O Museu não é casa de espetáculo e está aberto a todos os que cultuam a música popular brasileira, não importando se profissional ou amador, voz bonita ou não;

  7. O Museu espera dos frequentadores a civilidade de um verdadeiro seresteiro: educação, disciplina, compreensão e nenhuma bebida alcoólica.

Valdir Carleto
De Conservatória – RJ, especial para o Click Guarulhos