Um Canto dos Sacrificados

Aboio

Crítica do espetáculo Aboio

Por Rodrigo Morais Leite – Crítico e pesquisador teatral

Diferentemente do touro, que evoca a ideia de força e arrebatamento, o boi é um animal associado à capacidade de trabalho e sacrifício. Em diversas culturas e religiões, a sua imolação é comum, em rituais com vistas à consagração de algum deus ou a atividades ligadas à lavoura, mais especificamente à fecundação da terra. Tratando-se, em suma, de um animal rico em termos simbólicos, nada mais natural que ele servisse aos propósitos artísticos de um grupo de teatro para se transformar em metáfora da dor e do sofrimento humanos, em especial a dor e o sofrimento de que padecem certos segmentos considerados marginais em nossa sociedade. O grupo em questão seria a Turma VI de Teatro da Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos, que, na concepção do espetáculo Aboio, resultado de um processo criativo vivenciado desde 2015, toma essa figura muitas vezes deificada como o “eixo alegórico” do seu trabalho, em torno do qual tudo, de um modo ou de outro, acaba girando.

Isso se verifica já no título da obra, que se refere ao canto utilizado pelos vagueiros para guiar suas boiadas. Acompanhados de uma viola e de um cantador, com este exercendo uma função narrativa, os nove atuadores e atuadoras do elenco propõem uma jornada que, metaforicamente falando, perpassa um caminho que vai do nascimento, passa pela morte e termina na ressureição do(s) boi(s). Concretamente, esse percurso se realiza no terreno ao redor do Teatro Padre Bento, onde quase toda a obra se desenrola, a não ser em um determinado momento no qual a encenação adentra pelas portas do Teatro. Tal jornada, que confere ao espetáculo um caráter processional, isto é, feito ao modo de procissão, possui quatro etapas.

A primeira se dá com o nascimento dos bois, encenada numa parte rebaixada do terreno. Após um pequeno deslocamento, público e elenco se fixam numa parte mais elevada, limitada pelo muro que divide a Escola com a Paróquia de São Charbel. Ali se realizam a cerimônia de batismo e a representação da morte do animal, entremeadas por outras cenas que, aos poucos, vão construindo uma associação figurada entre as existências bovina e humana. Para que isso se materialize cenicamente, os aprendizes da Escola são obrigados a se desdobrar em atuações, dir-se-iam, antropozoomórficas, ou seja, que alternam formas humanas e de animais. Semelhante concepção cênica confere a Aboio traços performáticos, de modo que a encenação se sustente não por sua capacidade de representar mimeticamente uma determinada realidade, mas pelas ações físicas desenvolvidas em cena – que, ao se sobreporem, vão atribuindo sentido simbólico à obra.

Nessa parte do espetáculo, destaque-se o uso muito criativo e, por assim dizer, “epidérmico” que o elenco faz do espaço cênico, sempre procurando levar as propostas performáticas às últimas consequências.

No processo de composição dessa parte mais específica do espetáculo, algumas referências literárias foram utilizadas, amplas a ponto de abarcar autores como Marcelino Freire, Mia Couto e Câmara Cascudo. Terminada essa parcela da jornada, inicia-se a terceira etapa, precisamente aquela que se desenrola no palco do Teatro Padre Bento. Nela, a relação estabelecida entre bois e humanos, que antes se apresentava de maneira um tanto abstrata, torna-se mais concreta, com alguns membros do elenco se despindo, literal e simbolicamente, a fim de não deixar dúvidas sobre quem seriam os verdadeiros “sacrificados” do mundo contemporâneo (as mulheres, os afrodescendentes, os homossexuais e demais grupos que não se enquadram no padrão da cultura branca, masculina e heteronormativa).

Por fim, depois desse verdadeiro desnudamento promovido quase face a face com os espectadores, sentados ao redor do palco e separados da cena apenas por uma tela transparente, o espetáculo novamente de desloca para o terreno ao lado do Teatro, onde se dá o seu desenlace, com os atores e o público se confraternizando ao modo de um bumba-meu-boi, um dos mais importantes folguedos do país e referência fundamental para a criação de Aboio. Trata-se, claro, da parte que representaria a ressurreição, com o boi reaparecendo em clima de festa para se despedir logo em seguida.

Nessa jornada oferecida pelos artistas-aprendizes da Escola Viva, dirigida e orientada por alguns mestres, nem tudo é decifrável, o que equivale a dizer que nem tudo se faz entender com clarividência, até pelo excesso de referências e sugestões simbólicas utilizadas, algo bem típico de um teatro mais propenso a criações coletivizadas. Ainda assim, em tempos como estes, cada vez mais conservadores, deixar-se levar pelo canto que ressoa nas dependências do Teatro Padre Bento é uma experiência fundamental, da qual ninguém passa incólume. Êêêêêêêêêêê Boooooooiiiiii!!!!!

Rodrigo Morais Leite

Doutorando e mestre em Artes Cênicas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), especialista em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), graduado em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas). Tem experiência nas áreas de história do teatro brasileiro e ocidental, crítica teatral, literatura brasileira e filosofia da história.