Um Tiro no Patriarcado

Artigo de Rodrigo Morais Leite[1]

Em termos simbólicos, Rubro, último espetáculo da Cia. Unó de Teatro, poderia ser definido como um tiro no patriarcado. Ambientada na primeira metade do século XX, a intricada trama centra-se na figura de Pierre Franc’bene, um famoso pintor assassinado no dia da inauguração de uma grande exposição sua. A suspeita do crime, cujo julgamento constitui o tempo presente da narrativa, é Ana Rosa Madeira, amante do falecido.

Encontrada ao lado do corpo logo após se ouvir o disparo do tiro que o alvejou, tudo leva a crer que Ana Rosa seria agente de um crime passional motivado pela rejeição do homem amado. Contudo, se essa é a impressão inicial, ao longo do espetáculo ela se dissipa, culminando numa reviravolta bem típica dos grandes filmes de tribunal norte-americanos, nos quais a verdade só aparece nas sequências finais.

Seria essa, provavelmente, uma das referências principais na confecção da dramaturgia de Rubro, especialmente no tocante ao enredo, que ora se concentra no julgamento da ré, ora nos flashbacks – que vão, aos poucos, ampliando o leque de possibilidades em relação ao crime, com o acréscimo de novos suspeitos. Ou, melhor dizendo, suspeitas, pois são todas personagens femininas (Laura, a esposa de Pierre, Victória, ex-namorada do mesmo e Aurora Íris Madeira, irmã da ré que sofria com o assédio do finado artista).

À medida que a história se desenrola, percebe-se que a abertura desse leque é totalmente devida à personalidade de Pierre, espécie de “macho alfa” que se considera portador de todas as prerrogativas possíveis em relação às mulheres, com direitos inalienáveis para traí-las, humilhá-las e espancá-las à vontade. Semelhante predador sexual, ao contrário do que se poderia inicialmente supor, não é apenas a manifestação latente de uma personalidade abjeta, mas, sobretudo, o resultado de uma sociedade falocêntrica, difusora de uma cultura que não só induz como legitima comportamentos assim (“homens são homens”, diz o promotor do julgamento em um determinado momento).

Embora considerada culpada pelo júri, no final, por meio do último flashback, descobre-se que a verdadeira assassina de Pierre não foi Ana Rosa, mas, sim, sua irmã Aurora Íris, ao resistir a uma tentativa de estupro perpetrada pelo pintor. Nada a ver, atente-se, a crime passional, por se tratar de ato praticado em legítima defesa. Aqui se percebe o sucesso obtido pelo espetáculo em conseguir transpor o plano denotativo da trama, com seu suspense peculiar, ao plano conotativo das ideias, que se filiam ao pensamento feminista contemporâneo.

Isso porque, devido a um trabalho de composição mais tributário à encenação, a figura de Pierre Franc’bene é claramente metaforizada, o que lhe confere traços de personagem-alegórica. Ou seja: mais do que representar um sujeito de carne e osso, ela seria a encarnação de uma ideia, um ente abstrato que, no caso, se liga ao patriarcalismo e seus cognatos (machismo, misoginia, sexismo etc). Com efeito, ao sugerir, pelo jogo de cena utilizado na representação do crime, que todas as mulheres vítimas dos abusos de Pierre seriam suas assassinas, sobrepondo a questão da legítima defesa, o que se manifesta é o assassinato do próprio patriarcado, cuja efetivação seria uma tarefa coletiva reservada às mulheres.

Nessa passagem do concreto para o abstrato, além do jogo de cena desenvolvido em alguns momentos-chave, muito contribuem outros elementos cênicos, como a atuação e a caracterização do elenco, a cenografia e até mesmo a configuração espacial em que a obra do grupo guarulhense se desenrola. Longe do realismo cinematográfico, pelo menos em relação à mise-en-scène, Rubro é um espetáculo bastante teatral, na medida em que os atores e atrizes, além de se paramentarem com um figurino estilizado, usam maquiagem carregada e se valem de uma dicção antinatural em seus desempenhos. A tendência, subentende-se pela maneira exacerbada com que esses traços aparecem, é sempre pela caricaturização.

Outro fator que colabora no sentido de conferir à obra em debate uma teatralização mais sobressaltada são os “apartes” realizados, em circunstâncias pontuais, pelas atrizes do elenco, que por meio deles anunciam as ilações morais contidas na peça ou informam os espectadores a respeito de dados sobre a violência contra a mulher no Brasil. Trata-se de um expediente típico do teatro épico-dialético, utilizado em Rubro com discrição. Ao âmbito do teatro dialético também pertence o uso da música no espetáculo, afigurada de modo a compor uma contracena, isto é, uma cena contraposta às partes dramatizadas que se propõe a comentá-las.

Por fim, não se pode deixar de apreciar a despojada cenografia de Rubro, dotada apenas de alguns praticáveis como, por exemplo, quatro mesas equipadas com rodinhas. Estas, ao se movimentarem, conformam o espaço cênico, ora sugerindo um tribunal do júri, ora (nos flashbacks) algum lugar privado. Nas cenas de tribunal, enquanto o elenco da Cia. Unó se empenha na representação do juiz, do promotor, da advogada e das testemunhas, cabe ao público representar o júri, papel que lhe é atribuído graças à sua disposição em torno do palco, concebida ao modo de uma semiarena.

Tal formato, que foge à tradicional frontalidade do palco italiano, permite com que os atores e atrizes, na encenação do julgamento, dirijam-se da maneira o mais direta possível aos espectadores, uma vez que estes são de fato incluídos no campo ficcional ali instaurado. Na qualidade de jurados, são eles, afinal de contas, que precisam ser convencidos a respeito da inocência ou da culpabilidade de Ana Rosa, pelo menos no plano denotativo da fábula. Nesse aspecto, vale lembrar, a ré, mesmo inocente, é condenada ao final. No plano mais elevado do debate de ideias, o veredito é mais alvissareiro, pois que nele quem sai perdendo, para deleite do pensamento progressista, é o patriarcalismo nosso de cada dia.

[1] Doutor e mestre em Artes Cênicas pela Unesp, com pesquisas desenvolvidas nas áreas de crítica teatral e história do teatro brasileiro. Lecionou teoria teatral na Escola Livre de Teatro de Santo André e na extinta Escola Viva de Artes Cênicas de Guarulhos.