Fotos: Gézer Amorim

No púlpito da sede da igreja evangélica Assembleia de Deus Ministério Madureira, em Guarulhos, um homem de 89 anos ministra com eloquência os seus ensinos sobre a bíblia. Apesar das marcas deixadas pelos anos em sua aparência, a força de sua voz denota o entusiasmo de um jovem ávido em expor a sua fé. Clementino Oliveira Barbosa, na manhã de 2 de setembro deste ano estava em um especial êxtase: a obra que iniciou há pouco mais de quatro anos estava concluída. Mais de dois mil fiéis acomodavam-se no suntuoso templo localizado na rua Sílvio Barbosa, 462, no Macedo, para a reunião de inauguração do novo templo-sede, em comemoração aos 71 anos da instituição na cidade de Guarulhos.

Clementino iniciou o projeto para a construção daquela igreja três anos após assumir a direção na cidade, quando adquiriu o terreno para implantar ali a tão sonhada sede, na época instalada na rua Nilo Peçanha, no Centro. Desde então, esperava o melhor momento para iniciar a construção, sem prejudicar as finanças da Igreja.

Nascido na Chapada Diamantina, Bahia, foi criado em uma família de cinco filhos. Aos 16 anos, já cuidava de uma usina do pai, de produção de rapadura, aguardente, mandioca e fumo. Ali ficou três anos até receber parte de sua renda e vir para São Paulo, seu grande sonho. “Parti de Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, em janeiro de 1950. Uma viagem de 18 dias. Andando a pé e de barco a vapor, em uma época muito diferente de hoje. Eu me instalei na zona Oeste de São Paulo, onde ainda resido”, conta, saudoso.

Seu primeiro emprego na capital paulista foi cavar poços de água na Freguesia do Ó. Depois, começou a trabalhar com tecidos e bordados. “Foi quando conheci minha eterna namorada, Haydeé Ruth de Freitas [in memoriam]”, lembra o pastor, que também já atuou em loja de rádios e TVs e em uma fábrica de materiais de estofamentos, até ingressar na carreira de bancário, na qual permaneceu por quase trinta anos; entrou como auxiliar-geral e chegou ao cargo de gerente.

Clementino foi casado por mais de sessenta anos, constituindo uma família composta por sete filhos e seis netos.

No evangelho, sua vida começou em 1959, na igreja O Brasil para Cristo, onde tornou-se diácono. “Desde de dezembro de 1961, estou na Assembleia de Deus, na qual servi como presbítero, evangelista e pastor. Entre os anos de 1965 e 1977, pastoreei diversas igrejas da Capital até assumir a vice-presidência do Brás [sede de todo o Estado de São Paulo]”, relata.

Assumiu a direção de uma das maiores e mais antigas igrejas de Guarulhos em 1995. Em sua gestão, foram construídas 55 igrejas, entre grandes reformas, conclusões de templos e construções, desde o alicerce, com compra do terreno. Dentre os seus maiores sonhos, a conclusão da nova igreja-sede é um dos que mais alegra o seu coração, feliz também por ter concluído a obra com 30% aquém do custo total previsto. “Uma obra marcante nesta cidade. Um legado que Deus preparou que fosse erigido na minha gestão. Um presente para os servos de Deus em Guarulhos. O novo templo traz um novo tempo: de crescimento, de grandes eventos, de uma estrutura mais completa para receber, acomodar, aconselhar, apoiar e proporcionar crescimento em Cristo. Porém, esse novo tempo será embasado no mesmo evangelho: o da graça de Deus”, pontua.

Hoje, o Ministério de Madureira na cidade conta com 120 igrejas, que atendem a mais de vinte mil membros.

Os mais próximos consideram Clementino perfeccionista e metódico, tendo como características também a simpatia, a simplicidade e o equilíbrio. Seus gostos e passatempos são a construção, o amor pelos animais – cuida de nove gatos – e a cozinha. “Sempre que tem um feriado ou uma data especial, meus meninos se reúnem lá em casa e cozinho para eles”. Um dos pratos mais aclamados pela família e amigos é a feijoada.

Seus funcionários dizem que nunca se importou com os holofotes, preferindo a discrição. Falar da bíblia e estar em constante oração são alguns dos pontos levantados por eles sobre o cotidiano do pastor. “Vai ser difícil você encontrar o pastor para isso. Ele não gosta dessas coisas de entrevistas, polêmicas e tal”, disseram vários dos funcionários que trabalham no administrativo da instituição, enquanto este jornalista tentava uma entrevista com o pastor – e realmente eles estavam certos.

Nos púlpitos da igreja ou nas reuniões, ele veste-se com apuro, sem fugir, no entanto, da simplicidade. No dia a dia, anda com menos rigor, mas sempre preferindo o social. Mesmo quando o passeio é no shopping, adota o tradicional estilo dos denominados assembleianos.

Com 89 anos, prefere cuidar de si mesmo, mora com um dos filhos e não gosta que ninguém exceda em seus cuidados. A idade também não o impede de trabalhar. Durante a semana toda, chega por volta das 9h na igreja, onde também fica o administrativo da instituição, e sai às 18h. Quando tem culto (às quartas, sextas, sábados e domingos), sai às 23h. Questionado sobre qual sua percepção de toda a sua trajetória e do trabalho que ainda desenvolve, Clementino diz sentir-se realizado. “Acredito que cumpri a carreira que me foi proposta pelo Senhor Jesus”.

Com o mesmo entusiasmo de sua pregação, Clementino afirma que pretende continuar sua missão, mantendo sua dedicação até o seu último fôlego de vida, administrando a igreja com brio e ministrando seus ensinamentos com amor.

Os chamados de Deus

Foto: Jônatas Ferreira

Clementino lançou recentemente, pela editora Thomas Nelson, o livro “Os chamados de Deus”, com sua história pessoal, experiências e conselhos. “Foi um desafio. Nunca pensei, nessa altura da minha vida, em lançar um livro. Mas, Deus me presenteou e, com a ajuda do amigo e pastor Aldo Menezes, recordamos, levantamos dados e fatos de minha carreira ministerial. Passamos por várias entrevistas e por profundas e intensas reflexões do quanto Deus esteve presente nessas décadas em que o sirvo”. A obra está à venda nas principais livrarias do Brasil.