Uma vivência pedagógica coletiva “do-discente”

Foto: Michael Schwarzenberger/Pixabay

O portal Click abre espaço para uma experiência diferente: a publicação de uma coletânea de textos elaborados por diversos alunos do curso de Letras da Universidade Paulista (Unip), campus Marquês de São Vicente, sob organização da professora-mestre Adelaide Ferreira Margato.

Ela é professora, mestre em Lingüística Aplicada ao Ensino de Línguas (Lael) – PUC-SP, leciona Metodologia do Ensino da Língua Portuguesa, Linguística, Gramática Aplicada da Língua Portuguesa, Morfossintaxe da Língua Portuguesa, Metodologia do Ensino da Língua Inglesa, Prática de Ensino, e Interpretação e Produção de Textos.

Resumo

O objetivo deste artigo é apresentar uma experiência pedagógica nova tanto para o professor–formador quanto para os alunos. Mostra um trabalho realizado no primeiro semestre do ano de 2018 por mim quando ministrava a disciplina Linguística para alunos do 3º. e 4º. Semestres do curso de Letras da Universidade Paulista ( UNIP), campus Marquês. Tais alunos leram textos científicos da área, apresentaram seminários e depois redigiram mini-artigos que preferi chamar de textos, articulando os ensinamentos aprendidos com problemáticas atuais.

Palavras-chave

Pesquisa, professor, sala de aula, mini-artigos, variação

Abstract

The aim of this article is to present a project which was a new pedagogical experience not only for the teacher but also for the students involved. It introduces a work done by me in the 1st term of 2018 when I was dealing with ‘ Linguistics” for students  in the 3rd and 4th   of Letras ( Universidade Paulista/UNIP) , campus marquês  São Paulo. The above-mentioned students read scientific texts, held seminars and then wrote mini-articles bringing together all that they had learnt in theory and applying their new learning to present-day problems.

Key words

Research, teacher, classroom, mini-articles, variation

Uma vivência pedagógica coletiva “do-discente”

Um relato de como a nova experiência começou:

(…) educador é aquele que ensina e aprende o tempo todo(Almeida,2001)

Os textos, que compõem esta coletânea, são resultado de um trabalho em uma disciplina chamada “Linguística”, que ministrei em 2018 no curso de graduação em Letras para os alunos do terceiro e quarto semestres da Universidade Paulista ( UNIP),  campus Marquês. Tal trabalho que pontuo como uma experiência pedagógica única e nomeio de vivência pedagógica do-discente, termo que tomo emprestado de Freire,  (1996:32) foi  uma experiência nova tanto para mim, professora-formadora, quanto para eles, alunos de graduação. Aprendi com o grande educador brasileiro[1] que ensinar, aprender e pesquisar lidam com dois momentos do ciclo gnosiológico, o em que se ensina e se aprende o conhecimento já existente e o em que se trabalha a produção do conhecimento ainda não existente.

Assim, a ideia inédita de tornar meus alunos escritores e empoderá-los (Freire,1996) sempre me atraiu muito; entretanto, esperava, apenas, por uma oportunidade que surgiu no primeiro semestre de 2018.  Imbuída desse pensamento, sugeri a elaboração de miniartigos montados por eles sobre o assunto trabalhado em sala de aula que, na época, foi variação e mudança linguísticas.

Embora meu objetivo fosse fazer algo diferente e que pudesse motivar meus alunos, não poderia imaginar, àquela altura, que teria alunos tão envolvidos e comprometidos no desempenho de sua atividade pesquisadora e escritora.. Assim, este trabalho testemunha a dinâmica de um processo de aprendizagem em colaboração, ou seja, o exercício reflexivo de um grupo de alunos-pesquisadores que busca uma metodologia de trabalho mais factível, capaz de reunir, ao mesmo tempo, interesses individuais e coletivos e contribuir para uma real aproximação da academia à realidade. Aqui, resida talvez a ousadia da proposta: a busca de caminhos alternativos para tornar o trabalho de formação oferecido pelas universidades mais significativo.

Percebi que o grupo pensava igual. Entendi que a sensação de bem estar com a vida acontece quando sentimos prazer por estarmos envolvidos por inteiro, em alguma atividade que nos interessa. E era assim que nos sentíamos, naquele momento de busca,  envolvidos por inteiro e felizes. Era exatamente isto que queria para meu alunos: transformá-los em pessoas cada vez mais autotélicas para que aprendam a desfrutar uma melhor qualidade de vida (Moraes, 2003). Queria como educadora cultivar neles, futuros professores, experiências que fossem realmente gratificantes, despertando, assim, o prazer pelo aprender. Administramos o tempo e o grupo  redigiu pequenos ‘artigos’[2], articulando os ensinamentos aprendidos com problemáticas atuais.

Abre este trabalho o primeiro texto sob o título de “ A supressão do som da semivogal /i/ na linguagem oral”de autoria dos alunos:  Rafael Soares Santos, Ana Paola Matiasso Cruz, Kariny Gabrieli S. de Carvalho,  Steffany Moreira da S. Leite,  Vitória Roberta Ciriaco de Oliveira eKarina Almeida Vasconcellos da Silva cuja temática se desenvolve em torno do fenômeno da  monotongação. Em seguida vem o texto “ Dois sufixos: infinitas possibilidades”   de autoria dos alunos:  Marcus Vinicius de Morais Brito,  Fabio Luis Alves, Amanda Paixão Santos e Beatriz Lopez dos Santos Souza. Nesse texto, os alunos constroem um paralelo entre um momento de crise, empreendedorismo e criatividade na área da linguagem. Encerra a coletânea, o  terceiro e último texto “ A mudança linguística: as línguas mortas ao redor do mundo” de autoria de Bia Mansur, Julia Cordeiro e Nicolle Baptista,Vitoria Carsolari. As autoras discutema variação e mudança linguísticas e esbarram, em paralelo, em algumas línguas mortas como tupi e latim que parecem apresentar alguma relação de interdependência  com a variação e mudança e deixam como sugestão o estudo destas junto com as línguas mortas.

Desta forma, deixamos em aberto uma experiência realizada por um grupo de alunos de graduação  que, unidos através da pesquisa, buscam mudanças e novas compreensões sobre ensinar e aprender. Agradeço aos autores pelo esforço em transformar seus trabalhos de curso em textos a serem compartilhados com uma comunidade mais ampla.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, F. J. de. 2001. Continuando a conversa … no.1 ano 1 Conae/Dot São Paulo – SME.

FREIRE, Paulo. 1996. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra..

MORAES, M C  2003. Educar na Biologia do amor e da solidariedade. Editora Vozes

A supressão do som da semivogal /i/ na linguagem oral

Rafael Soares Santos

Ana Paola Matiasso Cruz

Kariny Gabrieli S. de Carvalho

Steffany Moreira da S. Leite

Vitória Roberta Ciriaco de Oliveira

Karina Almeida Vasconcellos da Silva

Introdução

Desde sua criação, a língua sofre mudanças e cada vez mais é possível notar as alterações na língua portuguesa, uma metamorfose linguística, que pode ser observada com clareza ao compararmos o português de Portugal com o do  Brasil, ambas originadas de um mesmo ancestral linguístico, porém mesmo entre as semelhanças, são notórias suas diferenças.

Uma mudança sutil que tem surgido no português do Brasil, no que diz respeito à linguagem falada, é a total supressão do som da semivogal /i/. Sem dúvida, alterações como essa podem não ser percebidas quando são exclusivas de pequenos grupos, todavia, uma vez que ela atinge uma considerável parcela da sociedade, torna-se necessário estudá-la e compreendê-la.

Assim, o objetivo principal dessa pesquisa é buscar entender e classificar a supressão de sons nas palavras, em especial o som da semivogal /i/ que, frequentemente, é suprimido na linguagem falada. Assim, palavras como “queijo, beijo, marceneiro” são utilizadas diariamente com a supressão da vogal /i/, em diversos contextos por inúmeras pessoas. Ao estudarmos esse fenômeno temos como objetivo descobrir se estamos passando por processo de mudança linguística ou variação. 

A metodologia utilizada nesta pesquisa é o método descritivo consistindo em pesquisa de campo com aplicações de questionários. Os respondentes foram escolhidos de forma aleatória, mas respeitando as delimitações geográficas, ou seja, São Paulo (SP), Osasco, Franco da Rocha e Caieiras. A pesquisa composta por questões abertas foi aplicada em uma amostra de 50 pessoas. Além desse instrumento de pesquisa, gravamos e transcrevemos uma entrevista feita com nosso professor de Literatura Portuguesa, o Mestre Adilson de Oliveira.

Espera-se que este trabalho possa contribuir para compreensão do fenômeno estudado, de forma que seja possível entender quais os motivos que levam a ocorrer tal situação na linguagem.

Desenvolvimento

Conforme esclarece Sapir, 1929 p. 27 “[…] A variação poder chegar até o nível do indivíduo.” Partindo dessa afirmação, não podemos deixar de nos questionar: até que ponto o indivíduo pode alterar sua fala sem que ele comprometa o ato da comunicação? De um lado, temos a normatização da língua, que rege o padrão da norma culta; do outro  temos os falantes e a lei do menor esforço. A norma culta estabelece uma série de regras que padronizam o uso da língua, diferente da linguagem falada que, embora não siga todas as regras da norma culta, é a mais utilizada no cotidiano das pessoas.

A lei do menor esforço diz que os falantes tendem a pronunciar as palavras com o menor esforço possível e, para isso, têm-se retirado sons nas palavras com o passar do tempo. Podemos citar como exemplo a palavra “para” que aos poucos vem se tornando “pra”. A língua portuguesa vem sofrendo inúmeras transformações desde a sua criação, assim como aconteceu  com sua progenitora o latim que, ao longo dos séculos, sofreu alterações por meio de influência da sociedade romana a ponto de chegarmos a ter, na época, em paralelo,  o latim vulgar que deu origem à Língua Portuguesa.

Para que seja possível entender o fenômeno de supressão que será abordado nesse artigo, é preciso entender alguns conceitos referentes a mudança e variação da língua como objeto de estudo. Para isso, explicamos a seguir ambos:

Variação Linguística:ao olharmos com mais atenção, podemos  notar que o português do Brasil, falado entre pessoas de diferentes cidades e/ou estados, sofre algumas alterações, como exemplos, podemos citar o substantivo utilizado para nomear uma fruta cítrica amplamente conhecida pelos brasileiros por suas características que lembram em muito a laranja:  a tangerina. Essa fruta é conhecida em todas as regiões do território nacional, porém, em muitos lugares a mesma fruta recebe nomenclaturas diferentes tais como “mimisa, bergamota, laranja-cravo, mandarina, fuxiqueira, manjequeira, pocan ou mexerica”. Essa grande quantidade de nomes para a mesma fruta nos mostra a riqueza e criatividade de inventividade dos usuários do sistema linguístico.  O exemplo citado acima é um típico  caso de variação diatópica. Podemos classificar as variações em três tipos:

Variação Diafásica:é a variação que se estabelece em função do contexto que há a comunicação, ou seja, se a comunicação é formal ou informal.

Variação Diatópica:é a variação que se estabelece entre as regiões, como citado no exemplo da tangerina, um mesmo objeto pode ter muitos nomes levando-se em conta a região em que o falante se encontra.

Variação Diastrática:são variações de classes sociais, por exemplo, médicos, advogados, surfistas, pessoas escolarizadas e não escolarizadas, cada um desses grupos traz consigo particularidades na comunicação.

Partindo das variações citadas acima, podemos nos perguntar: “como ainda nos comunicamos?”. Devemos levar em consideração que as variações existem e elas são um traço marcante na língua;  porém, embora a linguagem seja individual, a língua é social, ou seja, um indivíduo ou grupo pode usar de variações em sua fala, contudo, ao usar uma expressão desconhecida por outros durante a comunicação, poderá haver falta de compreensão, o que fará com que seja estabelecido um contrato social linguístico para que ambos possam trocar informações e, dessa maneira, as variações podem ser absorvidas ou não pelas pessoas.

Mudança Linguística: É o processo de modificação e transformação que as línguas vivenciam em sua evolução histórica. Mudança linguística diferencia-se de variação linguística. Na mudança linguística, as modificações são diacrônicas – e, portanto, são objeto de estudo da linguística histórica. Nas variações linguísticas as modificações são sincrônicas e constituem o objeto de análise da sociolinguística.

Supressão do som /i/ na linguagem falada

Diante das mudanças que vêm ocorrendo na língua por séculos, faz-se necessário um estudo sincrônico que tem como objetivo entender os motivos que levam à supressão de /i/ em algumas palavras que são utilizadas no cotidiano da linguagem falada a partir das observações que foram feitas em nossas pesquisas. A pesquisa realizou-se da seguinte forma:

Durante o mês de março de 2018, entramos em contato com 50 pessoas escolhidas de forma aleatória em regiões diferentes de São Paulo e durante a entrevista, inserimos palavras tais como caixa, loira, vidraceiro no contexto comunicativo para observar como seriam empregadas na fala. Sintaticamente falando, geralmente, a supressão do som ocorre quando a letra i se encontra no meio das palavras. Nesses casos, ela assume o papel de semivogal em ditongos ou tritongos; salvo algumas exceções, a supressão ocorre em hiatos, como no caso da palavra Niilista(ni-i-lis-ta), mas, como podemos notar, o hiato ocorre com a repetição da mesma letra.

Na tabela abaixo podemos observar que não são em todas as palavras que ocorre a supressão:

Palavras com ai Palavras com ei Palavras com oi Palavras com ui
Geai Aguei Loira Dilui
Fiai Afiei Foice Cuida
Doai Adiei Doido Águia
Coai Acuei Doido Cuido
Ceai Achei Doida Enguia
Atai Viveiro Coito Quais
Arai Coqueiro Coisa Paraguai

Durante a análise dos dados recolhidos em campo, pudemos notar que existem diversos fatores que influenciaram nos resultados, por exemplo, a fala rápida decorrente da empolgação com o tema proposto, afobação. Foram encontradas pessoas que possuem características especiais na fala como medo de falar, língua presa. Nesses casos citados não houve relação da supressão com as alterações produzidas pelas peculiaridades dos entrevistados. Ao fim da pesquisa analisamos os dados e notou-se que das 50 pessoas entrevistadas 100% delas suprimiram o som da semivogal / i / em algum momento.

A seguir estão alguns exemplos de palavras utilizadas durante o recolhimento de dados: queijo, beijo, eixo, cabeleireiro, marceneiro, blogueiro, maneiro, viveiro, mangueira, caixa, faixa, loira, toicinho, correia, mineiro, coqueiro, vidraceiro.

Para entendermos o que é a supressão do som / i / uma vez  constatado que o fenômeno realmente ocorre, para enriquecer mais nossa pesquisa, realizamos uma entrevista com o professor da universidade Paulista, Mestre Adilson Silva Oliveira. De acordo com professor Oliveira, (em entrevista realizada em 2018) […] o acento tonal recai sobre as vogais, fazendo com que as semivogais sejam pronunciadas suavemente. Por esse motivo, sobretudo na oralização, há a tendência de monotogação: queijo/ quejo; beijo/bejo etc. “ou seja, a palavra pronunciada de forma que haja a supressão do som da semivogal / i /, deixa de possuir um ditongo na silaba em que o fenômeno ocorre e passa a possuir um monotongo” .

Equipe de Entrevista A supressão da semivogal i, na fala, pode ser encarada como uma variação ou mudança linguística que não devemos levar em consideração, pois embora a pronúncia esteja um pouco alterada, ela não muda o sentido da mensagem dita pelo enunciador?

Resposta Prof. Me. Oliveira: A Supressão de fonemas não altera o sentido das palavras. Dessa forma, não há mudança linguística e não há (nem pode haver) preocupação com a língua. É um processo natural. A  monotongação é mais comum na oralidade e na escrita variacional.

Equipe de Entrevista:Sabendo que nós, como falantes, temos a tendência a nos comunicar com o mínimo de esforço possível, como podemos observar, as palavras tendem a diminuir e mudar com o tempo. Podemos supor que nesse ritmo, daqui a alguns anos teremos mudanças sintáticas no que diz respeito à supressão da semivogal /i/, para que a nossa linguagem escrita entre em consonância com a falada?

Resposta Prof. Me. Oliveira:Não vejo isso como risco. Como disse nas respostas anteriores, a supressão do /i/ semivogal não compromete a estrutura morfológica das palavras.

Equipe de Entrevista: A variação e a mudança linguística de mãos dadas. Como podemos classificar esse fenômeno que estamos estudando?

Resposta Prof. Me. Oliveira:Vejo esse fenômeno, sobretudo na linguagem escrita, como variação linguística.

Equipe de Entrevista:Podemos então, caracterizar esse fenômeno como algum tipo de metaplasmo?

Resposta Prof. Me. Oliveira:É um metaplasmo por transformação: monotongação.

Equipe de Entrevista:Em sua opinião como pesquisador linguístico, esse tipo de fenômeno tende a diminuir, crescer ou manter-se estável?

Resposta Prof. Me. Oliveira:Esse fenômeno tende a manter-se estável. Há, com a internet, a sensação de que o uso dessas formas aumentou.

Equipe de Entrevista:  Existem inúmeras variações na língua e muitas mudanças estão em andamento nesse instante. Para o senhor, pequenas alterações como estas devem ser tratadas como “erro” por parte do falante por motivos tais como nervosismo, excitação, falta de conhecimento da pronúncia correta da palavra etc.) ou devem ser tratadas como variação?

Resposta Prof. Me. Oliveira:Como sociolinguista, não vejo esses fenômenos como erros, mas como usos variacionais. A sociolinguística repensa e redimensiona o conceito “erro”. O termo “adequação/inadequação” é mais coerente.

Equipe de Entrevista:  Essa ocorrência pode ser atribuída ao fenômeno linguístico, no qual podemos observar que a tendência da linguagem falada é ser a mais simples possível?

Resposta Prof. Me. Oliveira:Não. Linguagem verbal escrita e linguagem verbal oral podem ser – ambas – simples ou complexas. O registro linguístico depende de situações formais ou informais de comunicação.

Equipe de Entrevista: Durante a comunicação oral, podemos cometer inúmeros erros, como por exemplo, erros de concordância, pronúncia. Para o senhor, isso pode influenciar na linguagem verbal, gerando, assim, um ciclo vicioso em que a repetição tanto na fala como na escrita, de forma errada, influencie a mudança linguística com o passar do tempo?

Resposta Prof. Me. Oliveira: Na oralidade, o planejamento é local e instantâneo. Isso pode contribuir para o que você chama de “erro”. A modalidade oral não é uma correspondência fiel da modalidade escrita. Cada modalidade tem suas especificidades. Na linguagem oral mais formal, deve-se ter a preocupação de minimizar marcas de variações.

Equipe de Entrevista: Uma pergunta de fonologia: No momento da produção do som que gera a fala, é possível que existam impedimentos na cavidade bucal, que atrapalhem na formação e execução do som da letra i, ou isso ocorre porque a semivogal não possui o som tônico tanto na silaba quanto na palavra?

Resposta Prof. Me. Oliveira: O / i / semivogal é produzido sem o acento tonal, por isso sua supressão. O som das vogais, como sabemos, é produzido sem obstrução do trato oral.

Conclusão

Levando em consideração as nossas pesquisas e a entrevista com o professor mestre Adilson, vimos como a língua é dinâmica, tanto no aspecto semântico quanto fonológico e fonético. Vimos também que durante a interação entre enunciador e enunciatário, podem acontecer inúmeros fatores que levam à supressão de fonemas, como o nervosismo, muitas vezes causado em momentos de comunicação mais formais tais como em entrevistas, reuniões, apresentações, seminários, entre outros. Além disso, podem ocorrer situações mais informais de interação, as quais os indivíduos interagem entre si dando prioridade a uma linguagem mais fácil, acessível, que todos entendam, podendo utilizar gírias, jargões, etc, fazendo com que haja uma certa supressão de fonemas que, em maior porcentagem, são as semivogais /i/.

Portanto, tendo como base essas informações que foram adquiridas durante os estudos feitos a respeito da supressão da semivogal /i/, neste artigo, chegamos à conclusão que não há mudança, mas a supressão por metaplasmo. Nas palavras que apresentam a formação de encontros vocálicos, ditongo, temos então a monotongação;  em encontros tritongos, temos então a ditongação, mas não é algo que interfere no resultado final, que é a comunicação, pois dentro desse contexto, muitas dessas alterações na projeção sonora são imperceptíveis.

Referências bibliográficas

Fiorin, José Luiz. Linguística. 1. Linguística – Objetos e Teóricos. São Paulo: Ed. Contexto, 2002. 1ª ED.

Fiorin, José Luiz. Linguística. 2. Linguística – Estudo e ensino. I. São Paulo: Ed. Contexto, 2002. 1ª ED.

Ditongação x Monotongação no falar de Fortaleza, disponível em: http://www.periodicos.ufpb.br/index.php/graphos/article/viewFile/9349/

A DITONGAÇÃO VARIÁVEL EM SÍLABAS TÔNICAS FINAIS TRAVADAS POR /S/,

disponível em: http://www.seer.ufrgs.br/organon/article/viewFile/30201/18709

Dois sufixos: infinitas possibilidades

Marcus Vinicius de Morais Brito – marcus.vinicius.morais@hotmail.com

Fabio Luis Alves – fabio.luis2011@bol.com

Amanda Paixão Santos – amandapaixaosg@gmail.com

Beatriz Lopez dos Santos Souza – beatriz.snts.souza@gmail.com

Introdução

            Sabiamente declarou George Hebert (1652, Jacula Prudentum) “to him that will, ways are not wanting”, frase que na New Monthly Magazine (1822) ganhou uma nova versão: “where there is a will, there is a way”. Com toda certeza, este provérbio traz grandes verdades: “onde há vontade, há um caminho”.

            O ser humano está sempre se reinventando para sobreviver. No planeta em que habitamos, temos o dinheiro como forma de troca, ou seja, pagamos por aquilo que desejamos ou necessitamos. Seja por um anel de ouro ou pela água potável, estamos sempre trocando o dinheiro por matéria, ou vice versa.

            Nesse câmbio, só compramos aquilo que nos interessa, ou que seja chamativo ou de que necessitamos. E é neste ponto que o marketing começa a fluir, pois para se vender um produto, isto é, para que haja troca (do dinheiro pela matéria) é necessário que ele chame a atenção do cliente, seja desejável e até mesmo cause uma sensação de necessidade no indivíduo.

            A inovação é algo muito necessário neste meio de troca. E, no século atual, uma nova ideia está ficando cada vez mais forte na cabeça dos empreendedores. Os setores de comidas rápidas, cosméticos, vestuários e outros, têm adotado o “sufixo de luxo”, que é como Edgard Murano, jornalista cultural e doutor em Letras pela FFLCH-USP, refere-se aos sufixos –aria ou –eria em uma matéria da revista língua n. 104 (out. 2014) que foi publicada com o título “sufixos à venda”.

            Analisando o quão famoso está a mania de usar tais sufixos, pretendemos com este artigo levar à reflexão sobre a origem de algumas palavras usadas, hoje em dia, para designar lugares, e como a mente humana é capaz de se reinventar com o propósito de conseguir viver em meio aos ambientes de trocas, onde temos dois lados em jogo constantemente: o dinheiro, e a matéria. E mais, desejamos mostrar o quão ambicioso, criativo e capaz o ser humano é de satisfazer suas necessidades e desejos, ao mesmo tempo em que está satisfazendo as necessidades e desejos dos outros.

Desenvolvimento

            Quando éramos crianças, os nossos pais nos levavam ao cabeleireiro para cortarmos o cabelo. Segundo Ribeiro (2011), a forma registrada em dicionário para designar o estabelecimento onde vamos tratar do cabelo é cabeleireiro. Para melhor a compreender, vejamos como se formou:

            A palavra cabelo, que significa ‘pelo que cresce na cabeça dos seres humanos’ deu origem à palavra cabeleira. Cabeleira significa “conjunto de cabelos que temos na cabeça”. Cabelo + eira (sufixo que nos dá a ideia de coleção, quantidade) = cabeleira. Diz-se, por exemplo: “Ele tem uma linda cabeleira”.

            Da palavra cabeleira, por sua vez, resultou cabeleireiro. Cabeleira + eiro (sufixo designativo de profissão ou estabelecimento de venda) = cabeleireiro.

            Já a ideia de “coxinharia” pode ter vindo apenas do conceito que, acrescentando o sufixo –ria, a palavra torna-se um estabelecimento. Convenhamos que é necessário ter criatividade para desenvolver esses nomes e, que são nomes bem atrativos e interessantes. A maior parte dos brasileiros ama coxinha e, pensando por este lado, ter um negócio chamado coxinharia é uma jogada de mestre para quem deseja crescer financeiramente, pois se o povo ama algo, será, eventualmente, o grande consumidor.

            É interessante notar como algumas empresas inovaram os seus nomes com o propósito de ter mais visibilidade e vender mais. A doceria dividiu-se e deu espaço à brigaderia, e temos também a padaria, que nessa mudança rumo ao novo, tornou-se paneria. A criatura humana sempre foi muito boa em analisar o que se está tornando tendência até em ótimas oportunidades de câmbio e venda. Note que a norma culta do português brasileiro, só aceita o –aria como sufixo para estabelecimentos, já o –eria é uma terminação como outra qualquer.

            Essa ideia de troca é muito curiosa, pois quem empreende em um estabelecimento “X” e aposta na inovação, está investindo para receber um retorno e, assim, esse retorno recebido é entregue a algo que outro empreendedor “Y” está dedicando-se para vender – seja um negócio de roupa, uma casa, e assim por diante – e quando o vendedor “Y” recebe o dinheiro do vendedor “X”, ele depositará esse dinheiro no negócio do empreendedor “Z”.

            Esse pequeno esquema traçado mostra, basicamente, como funciona a maior parte do mundo em que habitamos. Assim, parece-nos curioso observar como a maior parte da população troca suas habilidades para investir na habilidade do outro, gerando um movimento que, sem dúvida, tem sido o grande responsável pela inovação e mudança. Finalizando, não nos parece exagero acreditar que a falta de mudança ou a “ mesmice” enjoa e cai no esquecimento.

Conclusão

            Concluímos que a inovação traz ótimas oportunidades para o empreendedorismo. Voltando o olhar para a Linguística, vimos como os sufixos vieram na hora exata para mostrar que um momento de crise econômica pode se transformar em uma boa oportunidade para se reinventar com a ajuda da linguagem.   

            Mostramos no final do artigo o quão curioso é a ideia de troca, e a maneira com que o ser humano vende seu produto para comprar o produto do outro, gerando assim um ciclo de consumo que sustenta a vida das pessoas e o país no geral.

Referências Bibliográficas

            “A invenção do sufixo de luxo”. Disponível em: https://edgardm.wordpress.com/2014/10/07/a-invencao-do-sufixo-de-luxo/ Acesso em: Abril 2018.

            Definição de sufixo na língua portuguesa. Disponível em: <https://www.soportugues.com.br/secoes/morf/morf8.php> Acesso em: Abril 2018.

            A produtividade do sufixo –eria na língua portuguesa no BRASIL. Disponível em: <http://www.usp.com.br/gmhp/publ/conA1.pdf> Acesso em: Abril 2018.

            Dados da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação. Disponível em: <https://abia.org.br/vsn/tmp_2.aspx?id=319> Acesso em: Abril 2018

A mudança linguística: As línguas mortas ao redor do mundo



Bia Mansur, biamansur1@hotmail.com

Julia Cordeiro, juliaclima97@gmail.com

Nicolle Baptista, nsilvabaptista@gmail.com

Vitoria Carsolari, vitoriacarsolari02@gmail.com

Universidade Paulista – UNIP

Introdução

O fato de a língua passar por mudanças através dos tempos é incontestável. Neste sentido, certas palavras, expressões usadas nos dias de hoje, se colocadas em meio ao século XV, não seriam completamente compreendidas.

Essas mudanças podem ser percebidas de diversas maneiras, quer seja   pela faixa etária, meio social ou contexto, entre outros. É importante lembrar que é na oralidade onde a variação linguística tem início e, poderá ou não, gerar mudança. Assim como uma língua pode ser mudada ao longo dos anos, ela também pode não ser mais usada, esquecida, tornando-se uma língua morta. Em média, possuímos sete mil idiomas ao redor do mundo que poderão tanto diminuir quanto aumentar, pois muitas línguas novas são estudadas e muitas línguas mortas são esquecidas.

Neste artigo, estudaremos a mudança linguística e, esbarramos espontaneamente nas línguas mortas. Esclarecemos que as línguas mortas abordadas nesse artigo serão: latim e tupi antigo.

Desenvolvimento

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Muda-se o ser, muda-se a confiança;

Todo o mundo é composto de mudança,

Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

Diferentes em tudo da esperança;

Do mal ficam as mágoas na lembrança,

E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,

Que já foi coberto de neve fria,

E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,

Outra mudança faz de mor espanto:

Que não se muda já como soía”

– Luís de Camões

Considerando os estudos a partir do conceito de que a língua é viva, a mudança ocorre ao longo do tempo, sempre de acordo com o contexto social em que a utilizamos.

De acordo com Chagas (2003), é a partir da variação (regional, social, etc.) que ocorre a mudança, por isso não há como estudar completamente uma sem a outra. Chagas (2003, p. 147) afirma que:

A língua escrita não reflete todas as mudanças que ocorrem na língua falada. A língua escrita vem normalmente a reboque das mudanças ocorridas na língua falada, havendo frequentemente uma defasagem entre o aparecimento de mudanças da língua falada e o momento em que elas passam a ser aceitas ou pelo menos toleradas na língua escrita.

Ou seja, para que ocorra a mudança, primeiro é preciso haver a variação, pois é sempre a partir desta que aquela se concretiza.

A variação é um fenômeno que pode ocorrer de várias formas: variação diatópica (regional), variação diafásica (situacional), variação diastrática (social) e variação diacrônica (histórica), todas elas ocorrendo no campo lexical e fonético.

Essas variantes surgem e então passam a predominar sobre a forma antiga  escrita ou falada.  Exemplificando, temos a palavra “você”. Era escrito “Vossa Mercê”, mudou para “Vosmecê”, depois “Vossuncê”, contraiu para “Suncê”, até tornar-se “você”. Podemos até hoje encontrar variantes como “cê” ou “vc”, este último geralmente usado nas redes sociais, porém ambos ainda não foram oficialmente aceitos na língua escrita.

Dentro do assunto  mudança e variação linguística, nós temos as chamadas línguas mortas. Elas são línguas que não possuem mais falantes nativos e que não são naturalmente aprendidas por crianças, porém ainda podem ser estudadas a partir de seus registros. Se não houver registros, a língua é considerada extinta.

Algumas teorias foram feitas para explicar a origem dos idiomas e da nossa língua materna. Uma dessas teses seria a religiosa ou “Torre de Babel”. Os seres humanos estavam criando uma grande torre para poder alcançar o céu. Deus, como punição por seus atos, fez com que eles não se entendessem mais, para que não conseguissem terminar de construí-la e assim teriam surgido línguas diferentes.

Uma segunda teoria muito conhecida seria sobre um dos últimos faraós do Egito. Lendas afirmavam que havia uma língua mãe falada por toda a humanidade e isso os fascinava, fazendo com que eles quisessem descobrir qual seria essa língua. Então ele determinou que dois irmãos gêmeos fossem retirados da mãe logo ao nascer, para que, assim, conseguisse descobrir qual era a língua natural daquelas crianças. Porém o experimento não deu certo, pois mesmo passando fome, as crianças não conseguiam proferir uma palavra e um certo pastor, com compaixão, acabou ensinando-lhes sua língua de origem.

Os estudos existentes sobre a primeira língua são imprecisos, conforme esclarece melhor Bizzocchi (2014 p. 2). pois “a linguagem pode ter aparecido ao mesmo tempo em vários pontos, assim como ter surgido em um único lugar e de lá se espalhado pelo mundo. Os especialistas lidam com ambas as hipóteses.”

Muitos estudiosos chegam a considerar o fato de ter aparecido em vários pontos, assumindo então a família Indo-Européia como as primeiras línguas existentes. Dentro dessa família, encontra-se o latim, que surgiu na região do Lácio (centro da Itália) e depois também foi usada por Roma, onde foi popularizado e disseminado pelo mundo, dando origem a diversas outras línguas, como o português, francês, italiano, romeno, castelhano, entre outros. A língua latina deixou de ser falada no século IX.

Já o tupi antigo era uma língua falada pelos tupis que habitavam a maior parte do litoral do Brasil desde antes do século XVI, e após a colonização ela foi aprendida pelos portugueses. Por intermédio dos portugueses e seus descendentes mestiços, tornou-se a língua mais falada e conhecida hoje no Brasil, anteriormente chamada de língua brasílica, o português brasileiro.

Conclusão

Em suma, a mudança e as línguas mortas parecem apresentar alguma relação de interdependência.  Ou seja, a língua morta ocorre, algumas vezes, em consequência da mudança linguística e vice-versa, e elas precisam ser estudadas juntas. Assim como “Vossa Mercê”, que é uma palavra não mais usada, pode ocorrer que línguas deixem de ser aprendidas ou usadas pela população. Tanto uma palavra quanto um idioma inteiro podem ser mortos, porém isso não significa que essa língua ou idioma são irrelevantes, pois através deles foram originadas novas palavras ou novas línguas.

Geralmente, essa mudança partirá da língua falada, por ser mais flexível e popularizada, e mesmo assim demora a ser inserida na língua escrita. A mudança linguística ainda é um assunto em aberto em muitos pontos e possui pontos cegos em seus estudos e vertentes, como por exemplo, o fato de nem mesmo sabermos quando surgiu a primeira língua. Apesar de já terem feito muitas pesquisas e estudos para descobrir a origem das línguas, nenhum estudioso ou teoria conseguiu realmente comprovar qual seria a língua primária do ser humano ou a origem das primeiras línguas registradas e porque são diferentes.

É importante não considerar qualquer teoria como verdade absoluta, pois há diversas outras a serem estudadas ou até mesmo descobertas, e cabe ao leitor avaliar qual seria para si, a mais válida. 

Referências Bibliográficas

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PORTUGUÊS É LEGAL. O que é uma língua morta?. 2016. Disponível em: <http://www.portugueselegal.com.br/o-que-e-uma-lingua-morta/>. Acesso em: 14 de maio de 2018.

TERRA. Como era o idioma mais antigo do mundo?. 2014. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/educacao/infograficos/idioma-mais-antigo/capa.htm> . Acesso em: 14 de maio de 2018.


[1] Fui aluna de Paulo Freire na Cátedra e tive a honra de com ele trabalhar quando foi secretário da educação do município de São Paulo.

[2] Observe-se que os textos produzidos pelos alunos apresentam a estrutura de um texto acadêmico: introdução, desenvolvimento, conclusão e referências bibliográficas.