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De quando a melhor alternativa é comer uma panqueca americana

Então vou chamá-la de Lígia.

Tudo bem.

Lígia tem 30 anos e um inacabável sono. Sonha, se martiriza. Tem a angústia do Deus Capital que te faz esperar hoje o tempo que vai vir amanhã. Naquela segunda-feira, acordou no horário de sempre e retirou seu pijama: um pequeno short de seda e uma blusa de alcinhas. Caminhou até o banheiro. Escovou os dentes, penteou o cabelo, sentou no vaso e leu algumas páginas de uma revista qualquer, daquelas que só fazem sentido ao lado do vaso sanitário.

O cheiro da cozinha arranhava sua garganta. O lixo estapeava suas bochechas como a cafeína de um café que ela esquecera de comprar há um mês. De onde sentava, enxergava o reflexo de um bonsai – enfeite de raiz natural que deixava inexplicavelmente em cima da geladeira – que lhe acenava o desespero da sede. Acometida pela cegueira do imediatismo de acordar-levantar, o ignorou pelo quarto dia consecutivo. Como de costume, tomaria seu café na padaria mais próxima e foda-se toda aquela sujeira: qualquer dia eu dou um jeito.

A deformação das almofadas de seu sofá sussurravam os roncos do último companheiro. Qual era mesmo o nome dele? Márcio. Mauro. Maurício…

A mesa da sala, as latinhas vazias de cerveja e os petiscos pela metade sinalizavam uma segunda tentativa ainda mais frustrada:

A porta, apenas encostada brandia um pouco da insegurança da despedida, ou da responsabilidade auto-instituída de deixar Lígia sozinha sem um trinco resistente. Ela abriu a porta e a trancou. Chamou o elevador. Desceu e teve mais um dia comum de trabalho.

Matéria inspirada em: https://www.clickguarulhos.com.br/receita-de-panqueca-americana/

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