Então vou chamá-la de Helena.
Tudo bem.
Helena tem 30 anos. Trabalha para manter um filho pequeno de dois anos e as contas em dia com o marido. Recém-casados. Conseguiram financiar apartamento tão logo engravidou e conquistaram aquela vida (des)confortável de um casal em harmonia. Justifica-se os parênteses: não são adversativas sempre, posto que viver com quem se ama tem altos mais latentes que baixos. Na sala de estar, ainda completavam o ambiente com quadros aleatórios e retratos familiares que traduziam a complexidade de gostos.
Num fim de jornada desse março turbulento, Helena encerra um expediente de horas-extra. O clima não era de se jogar fora: o Lula vai ser preso! Comentavam política efusivamente e comparavam períodos numa certificação quase-que-científica. Um mais inflamado que o outro, compartilhavam veredictos como: ladrão tem que ir pra cadeia!; a justiça tarda, mas não falha!; o que serve pra um, tem que servir pra outro!; é histórico!; cansou de mamar, agora é hora de pagar!.
A dimensão das prosas tinha proporções de Corinthians e Palmeiras. As aditivas nunca foram tão adversativas e a vida nunca esteve tão bipolarizada. Helena sentira isso apenas nas explanações vagas de parentes mais velhos e naquelas aulas de História que lembrava. Sebastião estava vivo na visão de cada pessoa. Sebastião estava nas páginas dos jornais! Sebastião! Sebastião! Sebastião vive! Sebastião voltará a reinar o Brasil! Sebastião retornará e derramará o progresso pelos campos verdes! Sebastião-bolsa-de-valores! Sebastião-fim-da-crise! Sebastião-devolve-o-motor-da-minha-geladeira! Sebastião-resolve-tudo! Sebastião que, tal num texto de Herculano, trafegava:
‘’Na busca pela ordem de minha Pátria Amada Idolatrada/ Minha jornada’’
‘’Na luta contra o Bandido/ Contra as forças que desestabilizam minha jornada’’
‘’Da necessidade de legitimar-se herói/ De ser a esperança nacional”
Helena chegou em casa com a necessidade de compartilhar. Precisava ir pra rua. Dia 13 de março seria decisivo? Qual tinta seria mais adequada para suas bochechas?
Seu marido a esperava com um vídeo do YouTube pausado. Tal não foi a surpresa de Helena ao se deparar com a cara do Lula em sua sala. Na televisão de sua sala. Tudo bem, o mundo falava desse homem. Tudo bem.
- Helena, você precisa ver isso.
- Nem me fale!
- É histórico!
- É maluco!
- Nunca pensamos que viveríamos um momento desses!
- É eufórico. No trabalho, eu sempre me incomodava muito com o palavrório futebolístico. Agora as pessoas estão falando de política.
- O problema é que tem muita gente falando besteira.
- Nossa se tem!
- Muita gente mesmo!
- Demais.
- Parece que acham que o mundo vai se resolver só nisso.
- Mas não vai mesmo.
- Se a ação terminar aí, não serviu pra nada.
- Pra nada.
- Tem que continuar pra todo mundo.
- Pra todo mundo.
Assistiram, então, vinte e seis minutos da coletiva concedida a todas as emissoras disponíveis a escutar o réu-herói-não-sei-lá-mais-o-que. Helena e seu marido ficaram silenciosos por uns dez minutos. Simultaneamente se olharam:
- Eu vou pra rua dia 13.
- Eu também.
- Isso já passou dos limites.
- Também acho.
- Temos que fazer alguma coisa pelo nosso país.
- É a hora de exercermos nossa cidadania.
- Precisamos melhorar o mundo pro nosso pequeno.
- Sim. É nele mesmo que estou pensando.
- Seria legal comprarmos umas camisetas… sei lá.
- Tinta colorida também. Eu nunca participei dessas coisas.
- É. Acho que eles pintam a cara com guache.
- Sim, precisa ver se não faz mal pra pele.
- Não deve fazer.
- Então eu compro a tinta, você as camisetas.
- Pode ser. Amanhã, saindo do escritório, tem uma lojinha lá perto. O pessoal vai comprar bandeiras também.
- Perfeito.
- Você prefere camisetas verde, verde e amarela ou só amarela?
- Como assim?
- Ué…
- Eu vou de vermelho.
- Então…
- Eu vou de vermelho!
- É… tudo bem. Tudo bem. Vermelho pra você, amarelo pra mim.
- Ué… então…
- O que?
- Não… é que…
- O que?
- Tá. Tudo bem. Pode ser.
- Quando acabar nos encontramos onde?
- No metrô mesmo.
- Tá. Tudo bem. Pode ser.
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