Por Cris Marques
Fotos: arquivo pessoal
e banco de imagens
Depois de um dia atarefado de estudo ou trabalho, afazeres e atividades, nem sempre é fácil “desligar-se” ao deitar na cama, e essa energia toda pode acabar atrapalhando a noite de repouso, ainda mais para quem “resolve” caminhar por aí. Rosa Hasan, neurologista e assistente do Laboratório do Sono do IPq (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, explica que o sonambulismo é um transtorno do sono no qual a pessoa não está nem acordada, nem dormindo, ficando no que os médicos chamam de estado dissociado, com suas funções motoras funcionando normalmente, mas sem a consciência da vigília, como se estivesse em piloto-automático. Ela também esclarece que o distúrbio é facilmente confundido com o despertar confusional, no qual é possível olhar para os lados e até sentar, mas não andar como um sonâmbulo, o que não exime as chances do indivíduo ter as duas coisas.
Acordar um sonâmbulo, pode?
Diferente do propagado pela ficção, acordar um sonâmbulo não é necessariamente perigoso e muito menos vai levá-lo à morte. O que acontece é que é difícil conseguir tirar alguém desse estado e ele ainda pode assustar-se, reagindo com um empurrão, por exemplo. Para a profissional, o ideal é conduzir o sonâmbulo da forma mais gentil possível de volta para a cama.
Pra ver a banda passar
Maria de Lourdes Preto, 46 anos, servidora pública na Prefeitura de Nova Europa, no interior de São Paulo, tinha diversas noites confusas e agitadas e sempre precisava ser acordada pelo marido, que a ouvia gritar. “Isso foi há muito tempo, em 1994. Normalmente, eram só os pesadelos, mas tive duas crises mais intensas na época. Em uma delas, cheguei a sair de casa e ir para a calçada ver uma banda passar; quando dei por mim, estava no meio da rua, sozinha, às três da madrugada. Já na outra, acordei pela manhã e percebi que estava vestida de forma diferente: era a fronha do meu travesseiro, que eu tinha cortado em forma de regata com uma tesoura”. Ela conta que, depois desses episódios, passou a ter muito medo, pois tinha dois filhos pequenos em casa. “Comecei a imaginar se, dormindo, poderia fazer algum mal a eles. Então, dormia amarrada ao meu marido: pegava um barbante bem grosso e passava no meu tornozelo e no dele; assim, se eu tentasse levantar, ele poderia me acordar”. De família religiosa, ela contou aos pais o que acontecia e foi instruída por eles a parar de assistir a filmes de terror, hábito recorrente, e a fazer uma oração antes de dormir. “Coincidentemente ou não, depois disso nunca mais tive nenhum episódio”.
No limite entre sonho e realidade
Tratamento
De acordo com a neurologista Rosa Hasan, quando as pessoas não sabem explicar um fenômeno é muito comum acharem que é algo espiritual ou religioso, mas o sonambulismo é um transtorno já conhecido e bastante estudado. “Esse distúrbio não é perigoso para a saúde, de uma forma geral, nem traz maiores riscos. É só mesmo o problema de o paciente cair e se machucar, morar em um local com escadas ou sacada, o que pode ser potencialmente perigoso, ou ainda sair de casa e sofrer algum tipo de acidente. Mesmo assim, o ideal é procurar ajuda profissional até para fazer um diagnóstico correto”.
Para o tratamento inicial, além de uma análise comportamental, é indicada a proteção do ambiente do sono, mantendo o indivíduo em um quarto seguro, com janelas e portas trancadas, e sem coisas pelo caminho que possam levar a quedas. Depois, é preciso evitar fatores precipitantes, como privação de sono e estresse. Se mesmo assim os episódios continuarem preocupantes, o médico pode entrar com medicação, o que pode melhorar e diminuir as crises.
Confira os outros temas abordados na capa desta matéria da RG:
Introdução: por um sono de qualidade
Distúrbios do sono
Paralisia do sono
Como a ciência analisa os sonhos
O lado sobrenatural dos sonhos
