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De uma gravidez indesejada

Então vou chamá-la de Gabi.

Tudo bem.

Gabi nasceu em um bairro tradicional da cidade de São Paulo. Contudo, isso não quer dizer muita coisa sobre o comportamento e os costumes que lhe depositavam: das rotinas que vivenciava lá, as mesmas que vivenciam em qualquer lugar de uma grande metrópole e suas cidades vizinhas.

Sentada numa mesa de cozinha, a sua frente a mãe-juíza, ao lado direto, a tia-advogada-de-defesa, do lado esquerdo, a tia-da-promotoria. Ficava na ponta. Para a conversa que se iniciaria, não haviam júris, então, a convencida era aquela senhora de sobrancelhas grossas a italiana mesmo: a chamarei de Mama.

Em 1986, quando a tia-da-promotoria pediu a ultrassonografia da Mama e constatou que ela estava grávida de Gabizinha, correu para a Igreja do Bom Conselho, ajoelhou diante do Cristo crucificado e agradeceu… agradeceu… agradeceu… no íntimo, sempre desejou um varão, mas viria uma princesinha! ‘’Que venha saudável! Que venha saudável é o que lhe peço! Que guie essa menina pros bons caminhos!’’. A saída e a entrada da igreja dava numa lojinha bonitinha, bem pequenininha, com uma senhora que carregava o peso da cristandade nas costas, vendendo badulaques católicos. ‘’Um tercinho. Um tercinho rosa, pra minha sobrinha que nasce daqui seis meses. É… é a primeira. Você não sabe a alegria!’’

– Ah, tia… a gente pensou bastante, né?! Temos todo um estilo de vida que…

Quando saiu da igreja, pediu para seu marido passar numa lojinha de roupas, daquelas de bairro, sem a extravagância das grandes franquias. Ele respondeu que o futebol começaria há dez minutos e dirigiram para casa sem ressentimentos.

Naquele mesmo dia, em 1986, na leitura daquela mesma ultrassonografia, a tia-advogada-de-defesa abraçou muito forte o cunhado-pai-fresco. ‘’Você vai dar de tudo pra minha sobrinha né?! Pode contar com o Ju e comigo, tá?’’ Juliano, o marido da tia-adovgada-de-defesa, costumava dizer que de tudo que precisassem, podiam sempre contar com ele.

Então, a Mama, a juíza e mãe, resolveu beliscar um salaminho. Pousou lentamente o copo de suco na mesa, depois de um gole demorado que ajudou o embutido a descer. Era a deixa para o turno final: o veredicto.

– Gabi… minha… você precisa pensar bem, tá?! – desde sempre, aquelas rugas grossas na testa da Mama sentenciavam um juízo negativo nas escolhas duvidosas da filha – eu e seu pai já estamos cansados de resolver suas besteiras.

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