Dependência, ansiedade, frustração e depressão: são apenas alguns dos problemas que o uso exagerado pode causar
Crianças, jovens, adultos e idosos. Todos submetidos às redes sociais e, consequentemente, aos seus excessos. Os benefícios são muitos. Poderíamos listá-los aqui e motivar você, leitor, a continuar investindo cada vez mais na sua vida virtual. Contudo, não é bem essa a proposta da matéria.
A internet, por mais que existam leis mais severas sendo aplicadas, ainda é considerada por muitos como terra de ninguém. Fator que dobra sua potência quando seguimos para as redes sociais, onde as pessoas querem – e podem – ser ouvidas, lidas e, principalmente, curtidas.
Na edição 374 de junho de 2017 da revista Weekend, discorremos sobre um tema complexo e assustador: “Não existem segredos na internet”. Na reportagem, expliquei como os gigantes, como Google e Facebook, detêm informações que fazem de você um verdadeiro produto capaz de render milhões de dólares.
Os culpados somos nós, não eles. Somos nós quem alimentamos o ‘monstro’ a cada acesso, clique ou comentário. E pior: cada vez que aceitamos termos que sequer tivemos o trabalho de ler, a situação tende a piorar.
Segundo pesquisa feita em junho deste ano pela Conectaí Express, realizada pela plataforma de pesquisas on-line do IBOPE chamada CONECTA, o WhatsApp é o preferido de 91% dos dois mil usuários entrevistados. Seguidos pelo Facebook, Instagram, Messenger e Twitter.
Esse número mostra a dependência que temos das redes sociais. Pior ainda: revela o quanto desejamos ser vistos e o quanto queremos ver. Problema antigo. Ora, quem nunca quis ser bem aceito em seus grupos de convívio?
Os conceitos podem estar exagerados, mas o roteiro trata o tema como uma severa crítica social que desperta questões que devem ser discutidas. Não à toa, há uma dose de realidade muito próxima ao que vivemos. “Acho que se pudesse definir em uma palavra, seria pertencimento. Por muito tempo poderíamos pensar que as redes sociais eram definidas como ‘compartilhamento’, ‘conexão’, mas, hoje, depois da criação de tantos meios de comunicação, o que mantém as pessoas engajadas nas redes sociais é o sentimento de pertencer aos grupos, de conversar com pessoas que compartilham os mesmos ideais e a validação social que recebem, por meio de curtidas, comentários e compartilhamentos”, define o professor especialista em Social Media e Marketing Digital, Lucas Freitas, de 22 anos.
Apesar de não ser atuante na área de comportamento, Freitas lida
Surfar no que define ser bom ou ruim, no que deve ser compartilhado muito ou pouco, é complicado. É aquela velha máxima que vemos por aí: é meu e publico o que quero. De fato, a pessoa tem razão em pensar assim. Mas é válido tomar cuidado, mais por preservação do que qualquer outra coisa. “Podemos achar divertido todo esse conteúdo que é compartilhado, mas, no fundo, o que muitas dessas pessoas procuram é validação social. Validar a própria imagem através de curtidas numa foto ou mostrar que estavam naquela festa legal. Estamos em uma sociedade que criou padrões estéticos e comportamentais que ainda estão longe de serem mudados, e isso leva as pessoas a buscarem atenção, seja por um rosto maquiado, um vídeo com gatinhos ou até mesmo arriscando a vida por uma foto perfeita no telhado de um prédio”, explica Freitas, que diz estar preocupado com o aumento da despersonalização dos indivíduos.
“Pessoas viciadas em redes sociais, na maioria das vezes, acabam dissolvendo sua personalidade na busca por atenção, seja adotando comportamentos de massa, o famoso ‘Maria vai com as outras’, ou até mesmo indo contra princípios morais”, pontua.
A discussão desse impacto chamado redes sociais na vida das pessoas é profunda. Segundo pesquisa da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, que apresentou estudo do comportamento de quase 1,8 mil pessoas com idades entre 19 e 32 anos, quando se usa as redes de forma exagerada, a tendência de se ter depressão aumenta ou, em casos onde a doença já foi diagnosticada, o quadro pode ser agravado.
Como? Sabe aquele momento em que você observa as vidas perfeitas dos seus amigos – que às vezes nem sempre são tão perfeitas assim – e você se compara? Os pensamentos que despertam são de inveja, tristeza ou simplesmente, a impressão de que as outras pessoas são mais felizes do que você. Percebeu semelhança com essas situações? É bom ter atenção!
Precisamos entender que a tendência é publicar momentos bons nas redes sociais e não ruins. Por isso a sensação de que a grama do vizinho parece ser sempre mais verde. “Pessoas carentes de atenção nas redes sociais podem se sentir frustradas e até mesmo odiadas pelos grupos com que se relacionam, pois na cabeça delas, poucas curtidas significam que ela não é tão legal ou popular quanto seus colegas. A facilidade de compartilhamento e exposição pode piorar alguns problemas como baixa autoestima e ansiedade. Antes as pessoas ficavam tristes por não parecer com a menina da capa da revista, hoje ficam tristes por não receber a quantidade de likes que gostariam”, explica Freitas.
A vida nos fez assim?
A psicóloga Ana Paula Cavalcante Pinto (confira o site da especialista), de 32 anos, esclarece que todo esse envolvimento que temos com as redes e suas influências em nossas vidas acontecem porque nós somos seres sociais. “Sentimos a necessidade de identificação e pertencimento. Se percebemos que as pessoas das nossas redes sociais estão seguindo alguma tendência, seja ela de moda, consumo ou viagem, é bem possível que você se sinta envolvida e queira fazer como elas. E assim as pessoas se modelam, criam afinidades e continuam a interagir de acordo com o que possuem em comum”.
Aceitando nós ou não, temos as nossas redes sociais como uma vitrine. É muito comum que as primeiras impressões que as pessoas têm de nós venham das redes sociais, o que, segundo a psicóloga, pode gerar um problema. “Quando você estiver com as pessoas do seu círculo social elas verão em você a personificação daquele perfil da rede social. E não aquele perfil como sendo apenas uma parte de quem você é. As medidas estão desproporcionais”.
É bom também lembrar que o mesmo vale para as reações e curtidas. Elas nem sempre falam aquilo que achamos que querem dizer. “Quando você conversa com alguém e essa pessoa sorri espontaneamente, você é capaz de notar se este sorriso é sincero. Mas quando alguém está apenas lendo o que você escreveu ou vendo as suas fotos, é quase impossível saber o que motivou a reação dela e se essa reação é honesta ou manipulada. Likes, corações, gargalhadas. Será que isso realmente foi verdadeiro ou foi apenas um clique?”.
Quem tem a necessidade de curtidas, fará de tudo para conquistá-las, mesmo que tenham que postar coisas apenas para isso, sejam elas verdadeiras ou não. “É um universo superficial e manipulável”, explica a psicóloga.
Por que se expor?
Sem dúvida, você já deve ter visto alguma publicação nas redes sociais que julgou desnecessária, como indiretas ou um simples desabafo de alguém em declínio.
Para a psicóloga, é apenas uma forma de chamar atenção por carência, solidão ou necessidade de se sentir importante para alguém. Necessidade de atenção, de um conselho. “Antes recorríamos aos familiares e amigos como porto seguro. Mas hoje as relações estão tão individualistas e distantes que as redes sociais estão se tornando o colete salva vidas”.
Não compartilhamos nada nas redes sociais por simplesmente compartilhar. Ansiamos ver o retorno, os resultados. Eu sou jornalista. Se compartilho um texto, quero ser lido. Quero que as pessoas concordem ou discordem. Claro que essa lógica não se aplica em todos os casos, mas o ser humano, por si só, já admira a fama. Quer ser visto, gosta de elogios, ou seja, deseja que o seu ego seja alimentado.
Em tempos virtuais, às vezes momentos importantes da realidade passam despercebidos. Portanto, como diz a bela canção de Ana Vilela, “segura teu filho no colo sorria e abrace teus pais enquanto estão aqui, que a vida é trem-bala, parceiro, e a gente é só passageiro prestes a partir”. Nem sempre é preciso ter plateia para se aproveitar a vida.
“Coloque seu ódio para fora”…
Procuramos outro profissional do comportamento, o psicólogo psicanalista Daniel Kazahaya, de 35 anos, professor do curso de psicologia da UNG, para também comentar sobre o tema. Para ele, as redes sociais giram em torno de um estilo de vida, que cada pessoa adota para si. “A questão principal parece ser o uso que fazemos das redes sociais. Somos todos impactados por este fenômeno de uma forma ou de outra. Agora, isto não significa que estamos rendidos a isto. É importante lembrar sempre que podemos desligar o celular”, pondera.
Kazahaya apontou benefícios que as redes sociais trouxeram, como o bate-papo com
Por fim, segundo Kazahaya, outro ponto em que a discussão deve ser aprofundada é no cuidado com os mais jovens, que entram cada vez mais cedo nessa era tecnológica e, por isso, estão cada vez mais sujeitos às nocividades das redes sociais. Para o psicanalista, a tecnologia deve ser usada como enriquecimento e não substituição. “É uma tentação enorme dar um smartphone e deixar que eles ‘cuidem’ das crianças. Os pais têm muitos motivos para isso. A sociedade precisa apoiar estes pais cada vez mais no sentido de cuidarem dos filhos, por isso é extremamente importante que as mães e pais tenham suas respectivas licenças, que a mãe possa amamentar os filhos no trabalho, que sua carga de trabalho dê tempo para estar com os filhos”, finaliza.
