Por Jônatas Ferreira

O grande irmão está de olho em você

Pesquisei no Google, não faz muitos dias, sobre relógios. A ideia era presentear a namorada para a data especial que se aproxima: o Dia dos Namorados. Foi algo rápido. Não encontrei nada que agradasse, tanto em gosto, como em preço. Abri uma nova aba sobre livros. Busquei alguns títulos, desta vez para mim. Pensei se deveria comprar ou não. Foram pouquíssimos minutos. Resolvi esperar o dia do cartão de crédito “virar” para não acumular dívidas. Fechei o navegador e abri minha página pessoal no Facebook.

Ao acessar a rede social, uma série de propagandas viralizaram em todos espaços possíveis da minha tela. Relógios de diversas lojas, dos mais variados modelos e preços. Quando não, livros e mais livros. Uma infindável lista de opções que, confesso, tornou-se tentadora para dar uma rápida olhada.

Os produtos podem não ser os mesmos, mas tenho certeza de que situação semelhante acontece com você o tempo todo. Basta acessar a internet e pronto, diversas propagandas entopem a sua tela. O mais estranho: geralmente são ligadas a alguma pesquisa que você fez há alguns minutos. É bem provável que, como eu, você já tenha se perguntado como, embora a indagação que melhor se encaixe nessa situação é: até que ponto?

Procurei um profissional para sanar algumas dúvidas que acredito já terem surgido na mente de muita gente. Maurici Junior, 30 anos, especialista em e-commerce e marketing digital, é professor da ComSchool e consultor da iHouse. Segundo ele, “a internet se configurou como um meio altamente eficaz para a veiculação de anúncios publicitários de marcas de diversos portes. Esse cenário democratizou a maneira como uma mensagem chega ao consumidor. Se antes era necessário um grande investimento em propaganda, hoje qualquer empresa consegue anunciar no Google e em outras mídias. A grande vantagem dos anúncios on-line é a possibilidade de mensuração precisa dos resultados e o acompanhamento do retorno sobre o investimento”.

Por meio dos cookies, que são arquivos temporários deixados pelas páginas nos navegadores, as lojas virtuais conseguem entender o comportamento dos usuários em uma ação de marketing. Os grandes representantes dessa fatia do mercado digital são o Google e o Facebook. Afinal, vem daí as maiores fontes de retenção de informações dos usuários. São para essas empresas que nós, vítimas das facilidades da internet e da prisão às redes sociais, cedemos informações privadas. “Eles têm um papel fundamental para todas as ações de marketing digital, considerando segmentação dos usuários e força para a taxa de conversão”, pontua o especialista, que acrescenta: “Ferramentas como o Google e Facebook sabem tudo sobre uma pessoa. Alguns sites utilizam tecnologia parecida para oferecer login à área administrativa e, com isso, têm acesso a detalhes dos usuários como fotos, senhas, agenda telefônica e outros. Contudo, o acesso a essas informações acontece apenas com o consentimento do usuário que, ao se cadastrar na ferramenta, concorda com essas condições”.

Fica a dica: cuidado na hora de concordar com os termos de condições de privacidade apresentados. Apesar de ser um texto que ninguém lê, todas essas entregas de informações estão explícitas no “contrato”.

Vou deixar mais claro usando o que o próprio Google diz: “Quando o usuário usa nossos serviços, confia a nós informações dele. Esta Política de Privacidade destina-se a ajudar o usuário a entender quais dados coletamos, por que os coletamos e o que fazemos com eles. Como sabemos que isso é importante, esperamos que o usuário tire algum tempo para lê-la com cuidado”.

E-mail, contatos, endereço, operadora de telefonia, mensagens. Os sites visitados, a hora que você os acessa e a frequência. Fotos, vídeos e até mesmo seu gosto musical. Enfim, é bem provável que o Google detêm esses e muitos outros dados sobre você.

Afinal, o que o Google sabe sobre mim?

O Google disponibilizou uma ferramenta na qual mostra tudo o que a empresa sabe sobre nós. É chocante. Por exemplo, no dia em que escrevi essa matéria, acessei o WhatsApp pela primeira vez às 00h28. No dia anterior, ao todo, abri 15 vezes o aplicativo. Fora a câmera: o Google tem relatado quando a abri e, consequentemente, quais fotos tirei.
Mais impactante ainda é saber que, por exemplo, no dia 4 de abril, fiz três trajetos, entre eles, a vinda para a Redação da revista Weekend – com a exata descrição: de carro. O Google também classifica se você foi a pé ou de bike. No caminho, tirei uma foto – a imagem aparece na linha do tempo desse dia. Está abismado? Confira o que o Google sabe sobre você nesse link: https://goo.gl/OU1QqU.

O serviço é bem recente, foi lançado no ano passado. Fácil de usar, basta você colocar a sua conta do Google e pronto, suas informações aparecem divididas em dia e hora. São com esses dados que os anunciantes sabem seus gostos. Uma forma simples de se livrar da chuva de anúncios é utilizar o navegador anônimo do buscador. Ele permite ao usuário navegar na página sem deixar rastros ou ser impactado pelos cookies. Outro jeito é desativar as informações nessa ferramenta que o Google disponibilizou. “Você pode não querer que essa informação seja passada à frente, mas isso não impede o Google de coletá-las e armazená-las”, alerta Maurici.

Você deve estar se perguntando: é tudo permitido por lei? Maurici afirma que sim, mas há ressalvas. “A compra de base de e-mails é um exemplo. É necessário estar atento às políticas de privacidade que o site precisa oferecer ao usuário”, completa o especialista.

Sorria, você está sendo observado

Além da internet, vale ressaltar que os cuidados devem estender-se ao que fazemos com as câmeras. Questionei o especialista sobre a possibilidade de estarmos sendo observados pelas lentes, como as dos smartphones e webcans. Maurici Junior respondeu que se trata de uma “realidade muito presente com a tecnologia atual”. Como exemplo, citou Mark Zuckeberg, que aparece em algumas imagens com uma fita adesiva cobrindo a câmera e o microfone do seu computador. Além do criador do Facebook, temos um caso de maio de 2016, quando um casal britânico teve vídeos íntimos divulgados a partir de uma invasão hacker de sua smart TV.

Sobre possíveis teorias de conspirações que, neste momento, estão navegando em sua mente, Junior diz que tudo é possível. “Há quem diga que sim, hoje todos os cidadãos são observados por agências de empresas americanas, especialmente depois do ataque de 11 de setembro, por questões de segurança. No entanto, de uma maneira geral é impossível utilizar a internet atualmente sem que informações pessoais caiam no conhecimento dessas grandes empresas”, conclui.

Em rápidas palavras: o único jeito de parar de ser vigiado, seja por empresas, seja pelo governo, é parar de usar a internet. O que parece ser um futuro muito utópico.

Marco Civil da Internet

No Brasil, a então presidente Dilma Rousseff regulamentou, em 2014, o Marco Civil da Internet, que trata sobre a neutralidade de rede e do tratamento dos dados pessoais dos usuários. A regra é clara: as empresas desenvolvem mecanismos para garantir, por exemplo, que os e-mails somente serão lidos pelos emissores e pelos destinatários da mensagem.

No geral, o Marco prevê a inviolabilidade e sigilo de suas comunicações e coloca na ilegalidade a cooperação das empresas de internet com órgãos de informação estrangeiros. É uma chance de não termos nossa privacidade exposta ao mundo, mas não retira o fato de que as empresas sabem muito mais sobre a gente do que pensamos.

Alguns números

Nos seus principais serviços (Buscador, YouTube, Maps, Android, Chrome e Gmail), o Google registra mais de 1 bilhão de usuários em cada um deles. Já o Facebook tem dados de mais de 1,8 bilhão de pessoas, com pelo menos 1 bilhão desses usuários acessando todos os dias. Tanto o WhatsApp, quanto o Facebook Messenger, chegaram a 1 bilhão de usuários ativos. Todos os dados foram divulgados pelas próprias empresas.

“O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males”

O conceito de armazenamento vem de um termo que você ouvirá muito pelos próximos anos: Big Data. Apesar da concepção de coleta de dados para uma possível análise já ser antiga, as discussões tornaram-se mais amplas depois dos anos 2000. A grande sacada do Big Data não está na quantidade de informações que a empresa consegue, mas no que se faz com elas. No caso, Google, Facebook, Microsoft e outras empresas do ramo, sabem bem como fazer bom uso dos dados de seus usuários. O mesmo vale para serviços de espionagem e agências de inteligência, como a Central Intelligence Agency (CIA).

Grande parte tem um óbvio viés econômico. Em termos mais técnicos, com o conceito de remarketing, que segundo Maurici Junior, surgiu da necessidade de impactar novamente o cliente que visitou um site e não comprou ou gerou conversão na página. “O remarketing se torna bastante interessante, pois permite que o usuário seja impactado novamente com uma mensagem que o relembre sobre a aquisição de um produto ou serviço, por exemplo”, esclarece. Daí a excessiva quantidade de anúncios que aparecem após você fazer uma pesquisa sobre determinado produto.

Essa é uma das principais fontes de receita do Google. De acordo com o relatório anual de 2015 da empresa, dos US$ 75 bilhões em lucros registrados naquele ano, US$ 67,4 bilhões foram apenas com propaganda. Destes, US$ 52,4 bilhões foram com anúncios nos sites do Google e US$ 15 bilhões foram graças a anúncios servidos pela empresa em outras páginas.

Infelizmente, teimoso do jeito que sou, vou continuar cedendo meus dados para essas empresas. Afinal, não vou ficar fora das redes sociais e muito menos deixar de utilizar os serviços “gratuitos” do Google. E você? Aposto que fará o mesmo. Que o tempo passe e nos revele o quanto fomos ovelhas manipuladas.

Sobre a palavra “gratuitos” estar entre aspas – referente aos serviços do Google e de outras empresas – digo que tudo nessa vida tem um preço. Disso, todos sabem. A moeda de troca aqui não é o dinheiro vivo, mas a informação, os dados. Não se engane com o gratuito da internet. Geralmente, esse atrativo termo está relacionado com você ceder essa nova moeda. E claro, para empresas que trabalham com esses serviços, essa coleta equivale a milhões de dólares.

1984

Cito o livro 1984, escrito pelo jornalista George Orwell. Nele, o escritor descreve um mundo dominado pelo totalitarismo, vigiado pelo Grande Irmão – Big Brother. Nas cidades, cartazes espalhados levam o slogan: “O Grande Irmão está de olho em você”. Nesta distopia, câmeras estão espalhadas por todos os lugares, inclusive nas casas. Não há privacidade. Tudo e todos são monitorados por um Estado opressor 24 horas por dia, sete dias por semana. Além disso, há o problema do “duplipensar” que, segundo o autor, “significa o poder de manter duas crenças contraditórias na mente simultaneamente, aceitando ambas”.

Essa obra não é aclamada por mera excelência de escrita e história, mas, por ser profética. Afinal, ela foi publicada pela primeira vez em 1949, baseada no regime de Josef Stalin – inclusive o personagem apresentando como o Grande Irmão tem certas semelhanças com o líder soviético.

O livro voltou ao topo de vendas em 2017 quando Donald Trump, presidente dos EUA, entrou em polêmicas com os “fatos alternativos”, que disseram que sua posse foi a mais concorrida da história, apesar de fotos mostrarem o contrário. O mesmo boom aconteceu em 2013, quando o agente Edward Snowden revelou informações sigilosas sobre programas de vigilância dos EUA, utilizando-se dos servidores de empresas como Apple, Facebook e Google.

Fica o registro da inspiração para o título desta matéria. A obra foi lançada no Brasil em 2009 pela Companhia das Letras e pode ser encontrada nas principais lojas do País.

*Matéria originalmente publicada na revista Weekend edição 374