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Grafitando pelas ruas da cidade

Por: Kelly Saito
Fotos: Rafael Almeida e Divulgação.

Entre o cinza dos muros e a correria da cidade,
as cores, a vida e os artistas por trás de suas obras

Se você anda pelas ruas da cidade e repara em seus detalhes, já deve ter percebido muros coloridos e muitas ideias criativas espalhadas por aí. É verdade, o graffiti (ou grafite) ainda faz parte de uma polêmica, mas é indiscutível o talento de diversos artistas que produzem essas intervenções.

Movimentação artística surgida em Nova Iorque na década de 70, trata-se de um movimento em que o artista cria uma linguagem para interferir na cidade; pode vir em forma de crítica social ou manifestação artística, mas seu cunho político é indiscutível. O escritor e jornalista Norman Mailer o descreveu como “uma rebelião tribal contra a opressora civilização industrial.” É comum diferenciar o graffiti da pichação, mas muitos artistas respeitáveis confessam que começaram como pichadores. A prática se espalhou pelo mundo a partir de 1968, quando os muros de Paris foram usados para mensagens de caráter poético-político. A partir daí, a arte ganhou diversos estilos e hoje está espalhada em grandes murais, ganhando status, muitas vezes, de verdadeiras obras de arte. Está ligado ao movimento do hip hop, sendo que a primeira grande exposição foi realizada no Artist’s Space, em Nova Iorque, porém, o grande reconhecimento veio com a mostra “New York/New Wave”, realizada no PS1, também em Nova Iorque.

Em São Paulo, os primeiros graffitis surgiram na década de 1980, quando desenhos enormes de frangos assados, telefones e botas de salto fino começaram a aparecer nos muros, pinturas feitas pelo artista etíope radicado no Brasil Alex Vallauri, época em que o graffiti era considerado crime pela legislação brasileira.

E para falar um pouco mais sobre essa arte tão polêmica, conversamos com diversos artistas que assinam obras pela cidade, como uma forma diferente de comemorar o aniversário de Guarulhos, cidade que se transforma continuamente, graças ao talento de sua gente. Talvez, você já tenha visto algumas delas por aí. Acompanhe.

Cristiano Nascimento Matias, o Cris

Cris sempre gostou de desenhar e mostrar o mundo por um outro olhar. Ele começou a grafitar com 17 anos e hoje trabalha com grafite comercial e pinturas artísticas, mas tem investido também numa pequena empresa de pássaros artesanais. Começou na arte do graffiti por meio de amigos da escola, como uma forma de expressão. “Hoje o graffiti significa realização, onde posso usar uma forma de expressão.” Seus trabalhos estão espalhados por muitos locais da cidade, como no Parque Cecap e no Centro; destaque para o muro da Toddy (foto), trabalho realizado em parceria com o grafiteiro Pato. Ele acredita que atualmente o graffiti tem ganhado evidência no Brasil por conta de grandes artistas que têm se destacado pelo mundo. “Mas ainda falta um despertar”, conclui.

Valdir de Lima Oliveira, o Bemik

Ele começou a grafitar em 1998 e hoje tem seu nome assinado em vários trabalhos, entre eles a obra Transformers, em um paredão da avenida Transguarulhense.
Pai de uma filha, Bemik conta que ainda não vive dessa arte, mas luta para que isso aconteça. Hoje, também trabalha com pinturas em geral, desenhos artísticos, ilustrações, cenografias e aerografias. “Comecei a grafitar porque me apaixonei ao ver traços e cores, formas e atitudes, e muito mais. Isso é amor à arte; desde pequeno, amo o que faço. O grafite significa vida, paz, amizade, amor, respeito, humildade, alegria, tudo que é bom”, diz. Apesar disso, Bemik afirma que o preconceito ainda existe, mas vê uma melhora. Ele afirma que a arte do graffiti é maior do que qualquer preconceito. Seu objetivo ao executar seus trabalhos é passar para o público sua mensagem.

“Poder aprender, ensinar, fazer uma pessoa melhor. Despertar sorrisos e fazer com que as pessoas se identifiquem com as cores e as mensagens que o graffiti passa: a paz interior e o amor. Saber que fiz parte de um sorriso. A arte não tem fim. Se eu falar tudo, ainda não será tudo, porque o amor à arte do graffiti é infinita”, comenta.

Sempre na ativa, Bemik participa de grandes projetos, sendo que um deles foi realizado aqui mesmo na cidade, o Graffiti em Ação e Revitalização, projeto que visava interagir com a comunidade e levar informação. Os frutos foram colhidos, já que depois da ação o local se tornou mais colorido, limpo e com vida. “Trouxe o sorriso da criança e de quem passa por lá”, completa. Na zona Leste, ele encabeçou o Art e Cultura na Kebrada. Suas obras também podem ser vistas na PUC de Curitiba e na rua Jacarandá Rosa, na zona Leste, onde assina o painel 3D em cores.

Ricardo Celio Silva de Santana

Natural de Santa Rita (PB) e morador do Cocaia, Celio está no graffiti desde 2004, mas sua história começou em 1998 por influência dos amigos do bairro. “Tinha um pessoal que fazia graffiti e aquilo me despertou, até que comecei a copiar e fazer no caderno”, diz.
Para Celio, grafitar significa transformar mentes, pessoas, lugares, costumes, cultura.

Trata-se de um poder transformador. Hoje, o artista vive do graffiti e atualmente desenvolve projetos em espaços públicos da cidade (CEU Cumbica, CEU Jardim Otawa, CEU Parque Alvorada, Centro de Incentivo a Leitura Luís de Camões e CEU Pimentas). Pintou também a fachada da Carleto Comunicação, no Bom Clima, um trabalho realizado em parceria com Marcio Fico, artista que trabalha com geométricos. “Na pintura da Carleto, os triângulos azuis apontados para cima representam nossa espiritualidade e os vermelhos apontados para baixo é nossa situação terrena, humana, carnal. É bem parecido com yin e yang”, explica. Celio trabalha ainda com a psicologia das cores. “Cada um tem uma cor preferida. As cores trazem emoção e esse trabalho acessa essas emoções. Quem passa pela Carleto, agora tem esse contato com as cores e todo aquele movimento. Mesmo quem não entende, até por ser um trabalho abstrato, vai logo compreender a cor, porque ninguém consegue viver sem cor.”

Outras obras do artista podem ser vistas no Bom Clima, Vila Barros e Bela Vista. Celio comenta que o graffiti vem ganhando grande destaque por conta da exposição da mídia. Lembra que a arte tem sido usada em propagandas publicitárias por grandes empresas, como a Ambev e a rede Extra de supermercados. A ideia de Celio ao grafitar é levar cor e vida a lugares abandonados e esquecidos. “Toda vez que pinto um muro, ele é notado. Meu trabalho tem a ver com isso, são formas grandes de cores com linhas, e bem orgânico, um estilo chamado color field (campo de cor).

O artista se destaca também como idealizador do Back to School (voltando às aulas), um projeto que visa levar arte de rua para dentro da sala de aula, conscientizando alunos em relação ao ambiente escolar; do projeto Circuito e Arte Urbana 360 (desenvolvido nos CEUs) e, mais recentemente, o Arte na Biblioteca, esses três em Guarulhos. O grafiteiro ainda participa de ações em São Paulo e estuda arte contemporânea num coletivo de artistas. “O objetivo é sempre incentivar a inclusão e a transformação, por entender que a arte tem esse poder de transformar mentes e mudar o caráter de uma pessoa; não só mudar a estética, mas as pessoas por dentro.”

Denis Leal Pereira, o Chis

Ele começou com a pichação, o que durou um curto período de tempo, sendo que seu início no graffiti aconteceu em 1999. Hoje, Chis vive de sua arte, mas também trabalha com o pai numa empresa de reciclagem.

Conta que teve contato com o hip hop e com a pichação por meio do tio. “Eu me interessei e busquei. Na época, era tudo muito difícil, mas consegui algumas dicas observando o pessoal que já pintava. Junto com um amigo, fiz meu primeiro graffiti na rua com spray em 1999. Além de ser parte integrante do meu dia a dia e fonte do meu sustento, o graffiti me trouxe muita disciplina, paciência, conhecimento e foco; me fez conhecer pessoas, lugares e me abriu muitas portas, nas quais jamais passaria se não fosse tudo o que aprendi com ele”.

No currículo, são diversas obras, muitas espalhadas por Guarulhos: lago dos Patos (foto), CEU Cumbica, CEU Residencial Bambi e vila Galvão, além de trabalhos diversos espalhados por São Paulo. Brasília, Goiania, Rio de Janeiro, Curitiba, Espírito Santo e Minas Gerais.
Para Chis, com a divulgação da mídia e a aceitação maior da sociedade, o graffiti está ganhando seu espaço dentro das grandes cidades, mas ele acredita que parte das pessoas ainda enxerga o graffiti como “a cura” da pichação. “Isso não é verdade. São duas manifestações totalmente distintas para alguns, mas, para mim, é a mesma coisa, apenas feita e produzida de formas diferentes.”

Ao grafitar, Chis quer manifestar pura e simplesmente seu estado de espírito. “Faço muitos desenhos e letras no estilo wildstyle e muitos personagens com a temática do hip hop; gosto de observar ao meu redor e utilizar situações e pessoas em meu trabalho.”
Atualmente, o artista participa do coletivo nacional de graffiti TBC, que reúne grafiteiros de vários estados, na intenção de fomentar e produzir eventos. Em Guarulhos, participa do Coletivo Aquarela Urbana, que produz e realiza trabalhos de graffiti, além de mais três crews (comunidades): SOS, SVC e ALS.

Fernando Manoel da Silva, o FND

Guarulhense, FND começou no graffiti em 2003 e hoje faz dessa arte sua profissão. Ele era pichador e, na época da escola, algumas pessoas já pintavam seus desenhos nos muros. “Comecei a ir junto e fazia letras no estilo thrown up e wild style.” Atualmente, Fernando concentra suas obras no estilo cartun: caricatura, autoretrato e realismo. “Essa arte é uma forma de vida e eu sou graffiti de corpo e alma. Não sei o que eu seria sem o graffiti, ele me mostrou muitas coisas: o lado bom e o lado ruim das ruas. Hoje, posso dizer que o graffiti me salvou”.

Na opinião de FND, o graffiti vem conquistando seu espaço. “Se for bonito, com cores bonitas, mesmo sem entender o que o artista quer passar, a população acaba achando bonito. O meu objetivo é poder tirar as pessoas, por alguns segundos, do seu dia a dia e que elas possam identificar-se com um detalhe ou mesmo com a pintura.
FND também é membro da TBC Crew, que é formada por 36 pessoas do Brasil e que realiza um dos maiores festivais de graffiti de Guarulhos, o TBC Festival. Suas obras podem ser apreciadas em diversas regiões de Guarulhos, São Paulo e interior. Aqui na cidade, elas estão em locais como o Parque Alvorada (rua Fleixeiras, em homenagem ao amigo Cidão), Parque das Nações (rua Itália, em homenagem à minha mulher) e Parque Renato Maia (rua 4 de setembro, em homenagem ao Mr. Bean).

Renato Ferreira, o Nesc

Natural de São Paulo, Nesc mudou-se para Guarulhos em 2000, tendo iniciado no graffiti em meados de 2005. “Aqui em Guarulhos, a cena era muito forte, sempre foi assim. Como eu já tinha uma predisposição para rabiscar e sempre gostei de desenho, não demorou muito e comecei na atividade.”

Renato conta que infelizmente não vive do graffiti. “A vida do artista não é muito fácil e é por isso que gostamos, entende?” Atualmente, NESC também é assistente administrativo. Porém, foi no graffiti que encontrou a maneira para se expressar. “Grafitar é conseguir chegar na sociedade sem dizer uma palavra e mesmo assim entenderem o que você está dizendo. Dialogar com imagens, letras e desenhos, na levada do Chaplin no cinema mudo, mas com a liberdade das palavras. A sociedade é expressão e diálogo o tempo todo, é histórico… o rádio, a TV, a propaganda, a internet, os políticos e suas campanhas de pura hipocrisia. O graffiti é meu canal de comunicar.”

Para ele, a arte de grafitar tem alguns significados, mas o primordial é a liberdade. Nesc lembra que o graffiti vem ganhando destaque em galerias, parques e TV, mas comenta sobre a seleção que ainda existe, mencionando pessoas que só querem ver o graffiti se ele for bonito. “É essa maquiagem… ainda há muito espaço a ser conquistado. Muitos têm ideias boas e ainda não tiveram um bom espaço para comunicar, talvez pelo estilo ou a abordagem muito pesada e realista. Mas acredito que com mais um pouco de tempo isso também se quebre”.

Objetivos Nesc tem alguns: viajar e conhecer mais artistas, ter espaço para se expressar da melhor maneira que encontrar, fazer intervenções e parcerias sem barreiras. “Se a partir da minha expressão, alguém se identificar, então minha linguagem já terá sido compreendida, como uma ideia trocada; acho que esse é meu combustível.”
Sempre na atividade, participou e participa de vários projetos, na grande maioria, socioculturais. O objetivo é incentivar crianças e outros participantes a buscar a arte e promover um pouco a cidadania com projetos beneficentes, e promover a cultura urbana do hip hop, levando cor e arte para a cidade. Entre seus projetos estão Mamonas, Arte e Cultura na Kebrada e Cores e Valores. Alguns de seus trabalhos podem ser vistos nas avenidas José Brumatti e Papa João Paulo, nos bairros Cocaia, Bela Vista, Gopoúva e vila Galvão e nos CEUs Jardim Cumbica e Pimentas.

Artistas que ganharam o mundo

Polônia, Estados Unidos, Suécia, México, Japão, Emirados Árabes e, claro, Brasil. Eduardo Kobra é um grafiteiro que já conquistou o mundo. Vindo da periferia de São Paulo, ele começou como pichador, mas hoje se considera um muralista. Seu talento ganhou destaque em meados de 1987, sendo que um de seus primeiros projetos conhecidos foram os “Muros da Memória”, que propunham transformar a paisagem urbana por meio da arte e resgatar a memória da cidade. Atualmente, o artista realiza exposições dentro e fora do País e seus trabalhos incluem pesquisas com materiais reciclados e novas tecnologias, como a pintura 3D sobre pavimentos; a primeira foi realizada na praça do Patriarca, Centro de São Paulo. Outro projeto de grande destaque é o “Green Pincel”, que busca combater a agressão do homem à natureza e ao meio ambiente. Famoso e de grande notoriedade, seu Mural da 23 de Maio, em São Paulo, foi apagado no início da gestão João Doria, causando grande polêmica.

Quem também ganhou o mundo foram os irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, conhecidos como OSGEMEOS. Eles sempre trabalharam juntos e quando crianças desenvolveram, nas ruas do bairro do Cambuci, um jeito diferente de brincar e se comunicar. O apoio da família e a chegada da cultura hip hop no Brasil, nos anos 80, fizeram com que os irmãos encontrassem uma conexão direta com seu universo mágico e dinâmico, além de um modo de se comunicar com o público. Assim, estudaram com dedicação e cuidado as diversas técnicas de pintura, desenho e escultura; as ruas eram seu lugar de estudo. Nunca deixaram o graffiti, mas, com o passar dos anos, criaram uma linguagem própria e em constante evolução, com outras referências e influenciado por novas culturas. No currículo, acumulam diversas mostras individuais e coletivas em museus e galerias de diversos países, como Cuba, Chile, Estados Unidos, Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Lituânia e Japão.

Créditos aos autores das obras

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