Para muitos, 2016 foi conturbado. Mexeu. Abalou. Cheio de reviravoltas, emoções. Mas o ano já está para acabar. Em breve, um bonito e longo 2017 irá nascer. As dificuldades podem continuar, mas, elas “preparam pessoas comuns para destinos extraordinários”, como diz C.S Lewis. Como esta é a última edição do ano, a revista Weekend traz três histórias de pessoas que superaram crises, dificuldades e doenças. São relatos que mostram que não importa o tamanho do problema: é sempre possível vencer.
Quando sorrir é o melhor remédio
Quando Maria de Lourdes Gonçalves Fernandes, hoje com 48 anos, apalpou os seios em abril de 2014, sentiu um nódulo na mama esquerda, mas achou que fosse de gordura. “Deve ser coisa da minha cabeça”, pensou sentada em uma poltrona, enquanto ouvia uma palestra sobre os sintomas do Câncer de Mama da Estee Lauder Companies, em Miami, por conta do Outubro Rosa.

Desde os 40 anos, Lourdes faz exames rotineiros para saber se há algo de errado com o seu corpo. Mas não imaginava que o nódulo poderia fazê-la estar entre os mais de 100 mil novos casos que estatísticas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) apontavam na época. Foi ao médico e fez a biópsia com a certeza de que não era nada. “Levei o resultado para o doutor e ele disse que tinha dado câncer. Quando ele me falou isso, eu não sabia o que fazer. Eu não estava preocupada com isso. Olhei para ele e perguntei o que eu faço? Quando opero?”, disse, otimista.
Tal otimismo parecia ser natural em Lourdes. Durante a entrevista, era isso o que chamava a atenção da reportagem. Sempre sorrindo, ela disse como passou os dias que antecederam a cirurgia. “Eu tinha uma viagem marcada para a Disney. E fui! Me diverti, fui para os parques como se eu não tivesse nada, como se o câncer não existisse”.
A operação foi marcada para o dia 14 de janeiro de 2015. Um dia antes, ela foi assaltada em frente à sua casa. “Eu conversava com o vizinho que tinha a mulher passando pelo mesmo processo que eu quando os três assaltantes chegaram. Pedi para deixarem os meus documentos, mas eles levaram tudo”, disse. “As pessoas acham a minha história engraçada. Primeiro, descubro o câncer e vou para a Disney. Depois, um dia antes de ser operada por causa do câncer, sou assaltada”.
Após a cirurgia, o oncologista anunciou que Lourdes precisaria fazer quimioterapia. O médico confirmou o seu grande medo: a queda dos cabelos, sobrancelhas e cílios. “É aí que a gente entra na neura. Você entra na internet e começa a pesquisar. Só que a internet não é um bom lugar para procurar essas informações. Porque uma hora ela te dá chances e outra hora ela te tira os sonhos”. Uma semana antes do tratamento, em março, Lourdes contraiu dengue. “As pessoas falavam para eu cortar o cabelo. Mas eu tinha confiança. Vai que não cai”.
“No início do tratamento você não sente muito. No terceiro dia, começa a sentir a boca amarga, um enjoo, um mal-estar. Passaram-se quinze dias. Eu estava deitada, passei a mão no cabelo e senti uns tufos. À noite, quando fui tomar banho, eu vi o cabelo indo embora”, narra.
Lourdes se emocionou no momento em que contou que teve de tomar a decisão de raspar o cabelo. “Fica estranho. Minha vaidade estava indo embora. A quimio não estava me fazendo mal. Ela estava me curando, eu sabia disso. Mas não ter cabelo, sobrancelha e cílios estava me machucando demais. Mas eu continuei. Ia trabalhar, mas com máscara”, conta Lourdes, que durante todo o período de tratamento não deixou de trabalhar. Questionada sobre a aceitação do público, ela explica: “Foi um período muito delicado porque as pessoas não estão acostumadas. Mas eu nunca me senti constrangida. Eu pensei que as pessoas poderiam rir de mim, me excluir, mas não. Elas têm aquele olhar de curiosidade, mas por outro lado elas tentam ajudar. Eu me aceitei. Me senti bonita. Eu tive que seguir. Depois que eu terminei o tratamento, os cabelos começaram a nascer; eu parecia aqueles periquitos recém-nascidos. Mas eu não senti vergonha. Saía sem lenço, com vidro aberto. Os amigos também contribuíram muito para eu sair dessa bem”.
Como conselho, Lourdes diz que é preciso se aceitar. Sempre se preocupar consigo mesmo, sem ligar para o que os outros pensam. “As pessoas não são obrigadas a me aceitar”. Ela ainda precisar tratar-se durante cinco anos com remédios para controle. Mas, hoje, Lourdes ajuda mulheres que passam por tudo que passou pelo WhatsApp. “Uma ajuda a outra. Só sabe enfrentar problemas quem passou por eles”.
As superações continuam
Vaidosa, a ela quis fazer uma lipoaspiração. Por ter de tomar água de coco, ficou com pedra no rim e foi parar no hospital. Os remédios de controle do câncer reagiram e houve sangramento. Os médicos descobriram que existia um pólipo no útero. Mesmo assim, fez a cirurgia. Dez dias depois, no dia 25 de setembro deste ano, Lourdes estava no Hospital Nipo Brasileiro com princípio de AVC e foi transferida para a UTI por infecção causada por uma bactéria.
No dia 1º de outubro, Lourdes estava sob uma mesa de cirurgia fria de mãos dadas com o cirurgião, pedindo para que não a deixasse morrer. Foi o momento em que ela achou que poderia não voltar. “Eu dizia para o meu filho a todo momento: te amo muito. O pouco que tenho é seu”.
Foram 22 dias internadas numa UTI em um processo doloroso. Situações pelas quais não passou durante o processo de câncer, ela enfrentou por causa da infecção. Para ela, Deus é o que a fez resistir. “Quando eu encontrei com o médico após a alta, ele disse que nem ele acreditava que eu ficaria bem. Olha, quando me perguntam se tudo isso é superação, eu digo: é. Ninguém passa por um câncer como eu passei: sorrindo”.
Em meio à perda, ela renasceu
4 de junho de 2004, sexta-feira. Gilberto Glasser estava estirado no sofá da casa de amigos no Guarujá, sofrendo infarto. Pálido, ele procurava a esposa. “Eu tenho guardado na mente até hoje o olhar dele. Ele queria falar alguma coisa”, conta Loredana Piovesan Glasser, de 61 anos, que perdeu o esposo por volta das 21h daquela fatídica noite. Os médicos usaram o desfibrador cardíaco numa tentativa vã de reanima-lo. “Quando o médico deu a notícia, fiquei transtornada. Meus amigos me acalmaram. Aliás, eles cuidaram de tudo, inclusive da transferência para São Paulo. Eu não tinha dinheiro nem para isso”, diz, sentada na cadeira da sala de reunião que antes era ocupada pelo marido.

Sob o barulho de máquinas e caminhões da empresa de tijolos Glasser, ela continua o relato: “Naquele dia ele estava muito estranho. Eu tive uma sensação ruim, mas sugeri ao meu marido que fôssemos ao Guarujá. Ele chegou em casa estranho, como se ninguém existisse. Ficou a viagem toda sem falar uma palavra. Achei até que ele estava bravo comigo. Quando eu vi que ele começou a passar mal, fiquei sem reação. Fiquei perdida, sem chão. Naquele momento eu senti que era o fim. O enterro foi no sábado. Não sei explicar, mas sei que no domingo eu acordei com uma força muito grande, com vontade de resolver todos os problemas. Os diretores da nossa empresa ligaram dizendo que eu tinha que colocar alguém para levar o negócio adiante. Eu até pensei na minha filha, que já trabalhava com meu marido, mas era muito nova. Então, falei que eu assumiria”, conta Loredana que na segunda-feira após a perda, estava na empresa de terninho e com a mala tipo 007 do marido, tendo formação em Letras e Magistério e sem nunca ter trabalhado. “Eu não sabia nem o que vestir. Antes, eu vivia num mundinho bem diferente. Mas fui com a cara e com a coragem, com vontade de vencer. Eu tinha que dar continuidade no trabalho do Gilberto”.
Na época em que perdeu o marido, Loredana era apenas uma dona de casa preocupada com os afazeres domésticos, com as quatro filhas e o esposo. Gilberto era empresário do ramo de artefatos de concreto. O empreendimento era referência no mercado, mas enfrentava uma delicada crise financeira.
Casada desde os 18 anos, Loredana conheceu Gilberto aos 13. Durante todo o tempo de seu casamento nunca imaginou que poderia assumir a empresa que poucas vezes visitou. “Eu só vinha quando tinha festa de fim de ano, por exemplo”.
Ela conta que seu grande conflito com Gilberto era o fato do marido dedicar a maior parte do tempo à empresa. “Ele trabalhava demais. A gente quer a companhia do marido. Quantas vezes viajei e fui para festas sozinha? Hoje, sou apaixonada pela Glasser. Acho que é castigo”, brinca.
Depois da morte de Gilberto, Loredana encarou a dívida que beirava os R$ 45 milhões e deu a volta por cima, recuperando toda a consistência e credibilidade da companhia, fundada em 1971. E até o apartamento no Guarujá que tinha vendido para estancar as dívidas, ela comprou novamente.
Enquanto o marido lutava contra problemas de saúde, aproximadamente dois anos antes de falecer, colaboradores que tiveram a ajuda de Gilberto para crescer, aproveitaram-se da situação e começaram a desviar os recursos da empresa. Loredana descobriu todo o roubo no primeiro ano de sua gestão.
Ela se diz uma administradora com o coração de mãe. Firme, mas que sabe ver o que homens não enxergam. Durante um passeio pela fábrica, nossa equipe percebeu que ela não passa por ninguém sem antes cumprimentar. Os funcionários a recepcionam sempre com um sorriso no rosto. Quando assumiu, a empresa tinha 154 empregados e, por conta da pouca produção, reduziu para 90. No auge de sua administração, o número de colaboradores chegou a 250.
A empresa de antes mudou. Tem ar mais feminino. “Vejam minhas flores como são lindas”, ri enquanto aponta para as orquídeas penduradas na parede do lado externo da empresa. Questionada sobre o tempo que demorou para pegar o jeito da coisa, ela responde com jeito simples: “Até hoje estou aprendendo. Para falar a verdade, me sinto empresária de uns cincos anos para cá”.
No processo que precisou enfrentar a duras penas para superar uma crise financeira após a morte do marido e fazer a empresa voltar a crescer, Loredana conta que teve muita fé. “A gente não tem ideia da força que tem, a não ser que sejamos colocados a prova. Pensamentos positivos, trabalhar com paixão, ter fé de que tudo vai dar certo e não desistir são os caminhos do sucesso”, finaliza.
Um dia de cada vez
No silêncio da noite, enquanto tentava dormir, uma enxurrada de pensamentos inundava a cabeça de Gustavo Henrique Vieira, hoje com 31 anos. Quase todos de arrependimento por mais uma vez ter vendido pertences para comprar drogas. “Foi por causa das companhias. Com 16 anos eu não tinha a cabeça formada, então não reconhecia que era por embalo. Mas também foi por opção própria, porque eu poderia ter falado não, como muitos falam”.
Gustavo conta que primeiro foi o cigarro, aos 15, na porta da escola em que estudava. A maconha veio pouco tempo depois, aos 16, em uma festa com amigos. A imersão total nesse mundo veio com a cocaína, aos 18, entorpecente que antes não suportava. “Para você ter ideia, uma vez eu descobri que um cara estava com cocaína no carro e eu fiz ele descer na Dutra. Eu sempre avisava que não gostava, mas quando percebi, estava usando também”, conta Gustavo. “Passei na língua, vi que dormia. Pedi mais um pouco e usei. Quando vi, estava sendo usado”.

Adicto em cocaína, Gustavo começou a vender seus pertences como televisão, videogame, celular, além de gastar todo o salário em drogas e isolar-se do mundo. “Minha irmã parcelou uma moto para mim. Comecei a trabalhar numa pizzaria, mas acabei deixando de pagar e ela tirou a moto de mim”.
Foi durante uma noite que Gustavo, hoje corretor de imóveis, decidiu buscar ajuda e ingressou voluntariamente em uma clínica de recuperação, em Mairiporã, quando tinha 29 anos. Durante seis meses ficou internado e saiu renovado. “Entrei na faculdade, mas depois saí para tirar o Creci [documento que disciplina a corretagem imobiliária]”, diz ele, que hoje ajuda pessoas que estão na situação que ele conheceu de perto. Gustavo utiliza o método de remoção do drogadito por meio do diálogo. Ele convence o dependente que a melhor forma é aceitar o tratamento e o leva para a mesma clínica que um dia o ajudou a sair do angustiante mundo das drogas. “Me sinto ajudado”, responde ao ser questionado sobre o que sente ao amparar alguém.
“O segredo é olhar para trás. E outra: tenho um filho também. Sempre me falam: se você não tenta por você, tenta pelo seu filho. É importante também estar sempre ocupado, trabalhar e tal. Como diz o programa dos narcóticos anônimos: se hoje eu tive uma recaída, vamos superar de novo”, relata, afirmando que a luta é constante, dia após dia, e que sempre vai ter de enfrentar a abstinência. “É como o diabético. Uma pessoa que tem, vai morrer com o diabetes, porém, ele vai fazer o tratamento. Você sempre vai estar preso a ela, mas você pode optar por não ficar no cativeiro”.
Quem passa pelo problema e tem vontade de se livrar “dessa prisão”, pode entrar em contato com Gustavo Henrique por meio do telefone 2456-5441.



