InícioCANAISLITERATURADe quando Solange constatou que era vlogueira e vloguista

De quando Solange constatou que era vlogueira e vloguista

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Então vou chamá-la de Solange

Tudo bem.

Solange tinha vinte e seis anos e adotara para si a profissão de desenvolvedora de conteúdos em vídeo na internet. Assumira essa vida quando, há sete anos atrás, em 2010, enfrentou inúmeras dificuldades para se manter empregada e começou a relatar a complexidade de ser Solange em uma sociedade paulistana tão complicada. Negra, mulher, despojada, sorridente, gorda, estilosa, vaidosa e progressista. Daquelas pós-adolescentes que preferem se sentar nem à esquerda, nem à direita, mas no lugar onde a situação urgência.

Sabia falar… sabia se colocar muito bem. Se um espectador curioso fizesse um exercício de rever os videos publicados em ordem cronológica, identificaria talvez a incrível evolução dos recursos estéticos que garantiam uma semiótica mais controlada daquilo que Solange queria passar, no que se referia a vestuários com personalidades, ao longo dos seis anos de carreira. De uma empresa, um patrocínio, de um grupo de fãs, quadros, miniaturas, comidinhas esporádicas. Sentiria o telespectador a involução argumentativa, na medida que ela mergulhava cada vez mais fundo na zona cinzenta do ecossistema da internet.

Como se vestisse roupas de mergulho e garantisse um cilindro de oxigênio por tempo limitado, Solange tinha seu momento para explorar toda a civilização disponível naquele novo ambiente e voltar a seu ecossistema de origem, a tempo de não se afogar. Controlar o tempo de mergulho não deve ser difícil para quem é um especialista, mas quando o assunto é internet, o mergulhador costuma se deixar levar pela falsa aparência de adaptabilidade: acha que por estar lá, desenvolveu corpo de peixe e não precisará mais do oxigênio externo para sobreviver.

Daí Solange se deparou com uma estranha aporia. Provavelmente seu cilindro ainda estava com boa quantidade de oxigênio e garantiria explorar por anos e anos aquele mar imenso de oportunidades que lhe batiam a porta todo instante. Só que timeline de facebook exige pulmões de aço e consumo dobrado da capacidade de oxigenação cerebral. Talvez pela profundidade das águas e pela alta pressão, o mergulhador fica um pouco bestilóide com tantas espécies natimortas. Um post simples, que deveria ser esquecido:

#VAITERBRANCODETURBANTESIM

Poderia ter sido esquecido. Solange continuaria com as dicas rotineiras de como dar uma personalizada no visual. De como considerar minimamente as influências africanas na vida cotidiana. Continuaria a explorar a surface daquele assunto espinhento. Era só ter esquecido aquele post. Só que Solange não esqueceu. Não esqueceu e ainda considerou romper com uma lei implícita entre os mergulhadores da internet. Lei que não precisaria ser escrita, afinal todos a tinham em registro, tanto quanto seu DNA: nunca intervir no funcionamento normal daqueles organismos que ali viviam.

Não se intervém em um sistema de vida sem conhecer muito bem as regras pelas quais o constitui. Essa era a aporia de Solange. Ela sabia muito bem disso. Tinha aquele espaço reservado para aquela exploração, e pronto. Tocar em pauta alheia era o mesmo que mexer em rabo de arraia sem ser biólogo. Só que existia muita arraia naquele mar e percebia, no fim, que não tinha para onde fugir.

EU COSTUMAVA GOSTAR DE TENTAR ENTENDER ESSAS COISAS.

Jamais pensou que a negritude fosse tema menor. Como já disse, Solange é uma garota muito esclarecida e descolada. Tem leituras sérias e pesadas. Seu ganha pão é que compensava. Na medida que involuía seus argumentos, aumentava seus patrimônios. Preço alto a quem tanto estimava falar de coisas que realmente queria e gostava.

É QUE EU TENHO UM PATROCINADOR QUE PODE BATER A PORTA NA MINHA CARA.

Então, entre escolher acabar com seu cilindro de oxigênio ou conviver entre as arraias, percebeu que precisava muito de um mar mais calmo. Utopista! A grande saída de quem não tem uma resposta. Daqueles utopistas bem baixos, como eu ou você. Daqueles que terminam uma discussão dizendo:

A SOLUÇÃO MESMO É TIRAR TODO MUNDO E COLOCAR GENTE NOVA.

Sem saber de que cu sairia essa gente, sem saber de que cu sairia uma solução, Solange no seu inconsciente esbravejava utopias. Daí lembrou de umas aulas aleatórias de derivações sufixais e o quanto aquilo era chato e pejorativo. Uma certa vez o professor lhe disse:

  • Jornaleiro vende jornal. Jornalista escreve o jornal.

Com o desejo de propor que se um vende aquilo que o outro faz, um é melhor que o outro. A ilógica do discurso escolar. A ilógica de todo o seu Ensino Médio refletido em toda uma vida. A ilógica que circulava sua cabeça, diante daquela maldita hashtag!

AFINAL, COMO SE DIZ: VLOGUEIRA OU VLOGUISTA?

O que era Solange: o não lugar entre a venda de um produto e o desenvolver de uma notícia? Decidiu desligar por alguns minutos o monitor de seu computador para ver se as arraias saiam, mas ela sabia que aquelas bichanas eram consistentes demais pra se fortificar como representações mentais.

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