“Temos discutido a premissa que viver de arte é como empurrar uma grande pedra morro acima. Viver assombrado pelo ‘quase impossível’, onde poucos conseguem alcançar o apogeu, tão difícil, que muitos ‘não nascem para isso’ ou são desprivilegiados por começar tarde e, talvez, só poderão chegar ‘lá’ depois da morte”.

O trecho acima foi extraído do texto do artista e provocador cultural Felipe Rocha, que após acompanhar a realização do projeto Back to School (Voltando à Escola), que levou grafite para as paredes das dez salas de aula da Escola Estadual Professora Benedita de Oliveira Ale – localizada logo ali, no jardim Cocaia -, fez essa reflexão. “Hoje entendo melhor o papel da arte na minha vida e o que ela me proporcionou, como pude conhecer pessoas, discutir ideias e ocupar minha mente em momentos que isso precisava ser feito. Também começo a perceber o papel da arte na sociedade. Entender que ser artista é ser um comunicador de ideias. E, mesmo quando é necessária uma introspecção profunda, a arte sempre fala por si só”, escreveu, inspirado pelo projeto.

Eu poderia começar esse texto com um lead, mas o mais importante, talvez não seja a ação por si só, ou o fato de uma escola estadual aqui de Guarulhos abrir as portas das salas de aula para o grafite, mas sim o impacto que o trabalho causou em todos os envolvidos, seja na direção da escola, professores, alunos, artistas; em quem acompanhou, como o Felipe Rocha, ou em qualquer um que teve ou terá conhecimento do que é o Back to School. Por isso o apresentaremos nas linhas a seguir.

O projeto foi encabeçado pelo artista Ricardo Célio Silva de Santana (foto ao lado), que tinha o sonho de levar o grafite para a sala de aula desde 2008, quando fez um evento de grafite na escola em que estudava, mas ficou limitado ao muro. No entanto, quando conheceu Fabio Porto, coordenador pedagógico da escola Benedita, sua sorte mudou. “Eu estava fazendo um mural num bairro próximo à escola. Ele [Fábio] passou de carro, parou e se interessou pelo trabalho, queria saber como funcionava. Eu fui até a casa dele e passei um orçamento. Ele aprovou e eu fiz um mural lá, que fez muito sucesso no bairro. Daí ele comentou que a escola queria fazer um mural externamente também. Aí eu perguntei se a gente não conseguiria fazer interno, porque o meu sonho sempre foi fazer grafite dentro da sala”, relembrou o artista.

Dessa conversa, até o projeto sair do papel e colorir as salas, demorou quase um ano. “Na época eu era professor, trabalhava em outra escola. Tentei levar o projeto pra lá, mas não foi aceito. Este ano, eu me tornei coordenador pedagógico a convite da diretora Fernanda [Portugal Canossa] e trouxe essa proposta pra ela, para a minha equipe gestora e para o grupo de professores, que se entusiasmou muito. Além disso, Fernanda Canossa não estava satisfeita com a pintura feita às vésperas do início do ano letivo. Então, decidimos fazer”, conta Fábio, que afirma ainda que o projeto foi ao encontro do currículo do Estado de São Paulo, que no caderno de Educação Física do 9° ano aborda o movimento Hip-Hop e a cultura Street Art, que é bastante trabalhada pelo professor de Educação Física Eder Miranda.

 

O coordenador pedagógico Fábio, que fez a ponte entre Célio e a escola, e a diretora Fernanda, que abraçou o projeto. Foto: Marcelo Santos

Todas as dez salas da escola foram pintadas em apenas um fim de semana, nos dias 25 e 26 de março, de forma voluntária. Com recursos destinados à manutenção, a escola bancou as tintas. Em média, 10 latas de spray por artista. “Eu conversei com o Célio e disse que só não queria letras, por conta da pichação, e nada de desenho agressivo. Aí ele me mandou a linha de trabalho. Os professores queriam o Charles Chaplin, não sei quem… Aí eu falei: esquece. É autoral. Passei o final de semana inteiro com eles. Eu sabia dos desenhos, só que os alunos não e os professores não sabiam o que sairia”, explica a diretora.

Célio e Ficko conversando com os alunos na segunda-feira, pós salas pintadas. Foto: Felipe Rocha.

Na segunda-feira, quando os alunos e professores entraram na sala de aula, a surpresa! Felipe Rocha é quem descreve o momento: “Meu amigo Marcio Ficko tem 32 anos. Ele cresceu observando os muros pintados e ouvindo as bandas tocarem em nossa cidade.
Recebendo todo tipo de informação cultural, política e filosófica através da arte. Naquele dia, cerca de 400 adolescentes receberam parte de sua história, entendendo o seu desenvolvimento artístico e conhecendo um pouco do momento que ele vive agora. As perguntas dos alunos vinham cheias de admiração e muitos deles mostravam desenhos em seus cadernos”. O segundo ponto que Felipe destaca é a reação dos professores, que com grande sensibilidade buscavam trazer a arte para dentro de suas matérias. “Da geometria do trabalho do Ficko à importância do meio ambiente abordada pelo Inea, cada professor vinha com novas ideias. E não parou aí, foi incrível ver a empolgação dos professores, felizes em um ambiente onde a arte não só leva renovação, mas também mostra que aqueles artistas estão dispostos a, de alguma forma, dividir a responsabilidade que é formar esses alunos para a vida”, falou Felipe. “Me marcou muito o fato do grafite ter esse poder de revitalizar os espaços. Em muitos dos lugares que a gente pinta, na rua, acontece isso. A gente vê as pessoas impactadas com essa revitalização. E dentro da sala de aula isso também aconteceu com os alunos, mas o que mais me marcou foi a maneira como dialogou com os professores. Aqueles professores que se identificaram com o meu trabalho, por exemplo, que é de abstração geométrica, que já faz o link com a matemática e já cria relação com o tangram (quebra-cabeça chinês de 7 peças)”, completa o artista Ficko.

A escola Benedita de Oliveira Ale é diferente. Além de abrir as portas para o projeto Back to School, inspirando outras a fazerem o mesmo, tem também os projetos culturais e sociais desenvolvidos pela professora de Educação Física Marisa Panucci, uma das integrantes da Aciseg (Associação Cultural Interligada Social Esportiva Guarulhos). Outro detalhe que me chamou a atenção quando fui conhecer as salas foi o sinal de término da aula: era a música do Tiago Iorc nos falantes.

Enquanto a intenção da escola era diminuir as pichações, conservar as salas, fazer com que os alunos se apropriassem das obras de arte e que até pudessem surgir novos talentos, a visão que Célio tinha do projeto ia mais além. “Eu sempre quis pintar dentro da escola porque eu acredito que o aluno, com esse contato próximo com a arte, possa mudar sua percepção sobre muitas coisas. O objetivo do Back to School, nome que meu amigo Ficko ajudou a escolher, é levar aprendizado através da arte, levar cultura e aproximar o adolescente. Assim como eu fui adolescente um dia e fui transformado pela arte. Porque quando a arte chega ela tira a ignorância e torna a pessoa mais sábia, afirma o artista Célio”.

Curadoria dos artistas

Depois de conseguir o aval da escola para realizar o Back to School, Célio convidou os amigos que fazem curso no ateliê do grafiteiro e artista Walter Nomura, mais conhecido como Tinho – que é da mesma geração d’Os Gêmeos, Vitché, Binho Ribeiro e Espeto-, para fazer parte do projeto. “Nós somos aproximadamente entre 20, 25 estudantes. Eu estudo Arte Contemporânea, então chamei sete artistas que estudam comigo e dois da turma de Street Art. Todos os artistas são amigos, produzem juntos e estão juntos. O que deu aquela força de unidade pra escola. Fiz a curadoria pensando na união e nessa unidade que a gente queria transmitir para a escola, o que também abordamos quando fomos conversar com os alunos”, explicou. Célio está organizando o projeto no papel para buscar parcerias com empresas, escolas e outros artistas. “Que isso cresça de uma forma que não tenha limite. O limite é o céu. A gente quer que isso se expanda para o Brasil, para fora dele. Onde nos convidarem nós iremos. Temos força, temos gás, temos pique! E todos aqueles que quiserem fazer parcerias, quiserem conversar e entender mais sobre o projeto, podem entrar em contato comigo pelo meu e-mail: celio_rcs@hotmail.com, Instagram: celio_rcs e Facebook: Ricardo Celio Santana. Estou aberto e pronto para conversar”.

Artistas participantes do projeto: Bruno, Katia, Hélio, André, Ricardo, Márcio, Felipe, Roberto e Débora. Faltou o Albert. Foto: Iago Santana
Fotos: Iago Santana

 

O impacto do projeto nas pessoas

Vanessa Mangelot – profª de matemática – Dá aula há cinco meses na escola Benedita

Professora Vanessa e as frases que ela mais trabalha em sala de aula, da ativista paquistanesa Malala Yousafzai. Foto: Marcelo Santos

“O impacto foi muito positivo. De você entrar e ver a exposição que foi feita em tão pouco tempo, preparada de surpresa. Eu que estou na sala de aula há dez anos e vejo esse trabalho diferenciado, enxergo que ele traz uma inspiração diferente e também a consciência do que é a arte, o grafite, que muitas vezes é banalizado. Confundem muito com a pichação. As pessoas acham que são ‘sem cultura’, que são pessoas que não têm o que fazer na vida e por isso vão fazer grafite. Mas muito pelo contrário. São pessoas que estudam, que buscam a arte, o conhecimento. São essas multi facetas do conhecimento, que às vezes a gente acha que é só aquela da escola quadradinha, do giz e lousa, mas não, o conhecimento está no visual, está na arte, no falar, na postura. Então é bem legal isso. Eu vejo que essa é a obra da educação, você achar que tem um problema, vou fazer uma analogia do carvão, e transformá-lo num diamante. Acho que esse é o papel do professor, do educador: transformar. E acho também que a escola abriu essa visão para os artistas. Que bom que eles vieram”.

Bruna Lima Silva, 12 (7° ano)  – estuda na Benedita desde 2016

Foto: Marcelo Santos

“Foi uma coisa assim meio estranha. Pra mim só tinham feito isso na minha sala. Eu não imaginava que teria em outras. Aí eu fiquei olhando assim e é uma coisa muito linda, inspiradora. Você olha aquelas linhas, pelo menos da minha sala, e eu acho muito inspiradora [obra do Célio]. É como se fosse um pozinho mágico que voa assim, de uma fadinha, e você se transforma”.

Isabel Thalyta dos Santos Repelle, 11 (6° ano) – primeiro ano na escola Benedita

Foto: Marcelo Santos

Quando a gente chegou na sala a gente se surpreendeu, porque é uma pintura muito bonita e a gente até achou estranho num ponto, porque ter um grafite na nossa sala é bem diferente. A gente só vê isso na rua. Até comentamos com os alunos que foi uma coisa muito legal e até uma coisa que nos comoveu. Porque a gente vê que não é só na rua ou escrita nas mesmas. A gente gostou bastante. Eu acho assim, que além de ser arte é uma coisa muito inspiradora. Porque a gente vê aquela imagem e fica pensando, como que pode né? Porque eles usam a criatividade deles e a gente fica pensando que a criatividade é muito maior do que a gente imagina. E foi uma inspiração muito legal. A gente gostou muito mesmo e nos surpreendemos com as pinturas de cada sala. Com tudo isso, com as pinturas na sala essa coisa diferente que teve na escola, eu acho que nós podemos aprender também que é importante a gente preservar mais a nossa sala, valorizar o trabalho dos artistas com as pinturas e o trabalho da escola. Porque a escola é a extensão da nossa casa. A gente passa mais tempo aqui do que na nossa casa. Então eu acho que a gente tem de tratar a escola do mesmo jeito que tratamos a nossa casa”.

 

Foto: Guilherme Pinheiro

“A ação desses artistas se destaca e me traz grande reflexão sobre o papel da arte na sociedade, que com ousadia sempre dá os primeiros passos em grandes mudanças. Essa atitude diz muito sobre como podemos sair da zona de conforto e começar a somar para que haja mudanças. Lembrando que a ação foi casada com a escola que apoiou os artistas, pagou o custo do material e acompanhou o diálogo com os alunos” – Felipe Rocha é provocador cultural e músico do projeto Sow – ao lado do parceiro Denis Mendes-, lançado em março.