Por Tamiris Monteiro
Em 19 de agosto comemora-se o Dia Nacional do Ciclista e nada mais justo do que falar sobre o assunto num momento em que o hábito de usar a bicicleta no dia a dia tem crescido em muitas cidades brasileiras. Em 2015, de acordo com uma pesquisa feita pelo Ibope a pedido da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), entre 2014 e 2015, somente na cidade de São Paulo, houve um aumento de 66% no número de ciclistas que passaram a circular pelo munícipio. E é muito provável que esse número já tenha aumentado, principalmente por causa da ampliação das ciclovias.
As razões que levam as pessoas a inserirem a magrela como meio de locomoção na rotina podem ser muitas, mas com certeza uma delas é o trânsito caótico e os congestionamentos tão comuns nas grandes metrópoles. Nesse caso, andar de bicicleta em determinadas distâncias tem sido visto como uma positiva alternativa em relação ao ganho de tempo. Pode ser por questões financeiras também, já que se deixa de gastar com passagem, gasolina e estacionamento; pela saúde, pois pedalar é uma atividade física e tanto e, por fim, pela consciência ambiental, considerando que a bike é um meio de transporte ecologicamente correto e não emite carbono.
Bicicleta: mais que um meio de transporte, uma companheira fiel

Seja qual for o motivo, o mais importante é que o movimento ciclístico tem ganhado força e quem fez a troca garante que as vantagens são muitas, como relata o publicitário e produtor de festas Leandro Amaral. “Comecei a andar de bike há dois anos quando decidi me mudar da Zona Norte para a Pompéia. Mudei porque trabalhava na Vila Olímpia e ia de carro todos os dias. Demorava em média duas horas para ir e duas horas e meia para voltar. Decidi que valia pagar um pouco a mais em moradia para chegar mais cedo no trabalho e ter uma qualidade de vida melhor. Só que mesmo mudando, eu ainda continuava estressado com o trânsito, então, resolvi comprar a bicicleta. Todos os dias ia da Pompéia até a Vila Olímpia de bike, chegava em 20 minutos, tranquilo, sem enfrentar congestionamento, estresse e ainda me exercitava. Comecei a pegar gosto pela coisa e ir a todo tipo de evento com a bicicleta. Hoje em dia, praticamente todas as coisas que faço, exceto mercado, faço de bike. Vou ao jogo de futebol, ao trabalho, em barzinho… sempre de bike. Só não vou quando preciso carregar algo ou viajar, e quando vou a um bar ou balada e quero beber. Não troco a bike por nada, sou bem menos estressado, minha vida melhorou tanto fisicamente quanto mentalmente”.
A mudança de hábito pode significar uma vida mais feliz
O coach Gianini Ferreira é mais um da turma dos ciclistas urbanos. Mais do que isso, um apoiador da causa, já que considera que o veículo pode contribuir com a melhora da qualidade de vida. “Falo para os meus clientes de coach que não faz sentido ficar em média quatro horas do dia no trânsito apenas para sustentar um estilo de vida. No início da carreira, por necessidade ou por uma questão de transição, acho que vale o sacrifício, mas a hora que você desperta para essa mudança, consegue fazer uma engenharia e modificar sua vida. Dentro da “Roda da Vida”, uma ferramenta que uso no processo de coaching, uma das metas que podem ser sugeridas é a de morar perto do trabalho ou levar o trabalho para perto de casa. Essa dica tem relação com a área da nossa vida conhecida como ‘Ambiente Físico’. Ela diz respeito à nossa ocupação no tempo-espaço, ou seja, tudo o que nos afeta nos ambientes em que ficamos e circulamos”, explica.

Além de aconselhar seus clientes, e embora não faça uso da bicicleta todos os dias, Gianini também é adepto da locomoção com a magrela. “Em 2002, morava muito perto da então Faculdade Torricelli, local em que dei aula por 10 anos. Nesse período já fazia uso da bike, poucas vezes usava o carro ou a moto. Mas no final do ano passado vendi os dois e essa decisão veio depois que me mudei para São Paulo. Tinha menos informação do que tenho hoje, mas tinha mais condição para abrir mão do carro e da moto, porque eu havia me mudado para perto do meu trabalho. Obviamente que meu estilo de vida me permitiu fazer isso, mas vale lembrar que cada história é uma história. Moro no Itaim Bibi, se eu for para Pinheiros ou Brooklin, por exemplo, que são bairros próximos, com distância de até sete quilômetros, vou e volto de bike. Mas me preparo com antecedência, vou com uma roupa apropriada e não preciso usar trajes muito sofisticados. Para dar aula, chego, vou ao banheiro, lavo o rosto, penteio o cabelo e estou pronto. Já numa situação em que preciso atender um cliente de consultoria ou treinamento, também consigo ir de bike, mas sempre dentro da distância que citei. Se chover, uso transporte público, táxi ou Uber. Além de economizar tempo, minha decisão tem total relação com qualidade de vida, pois é uma maneira de eu me movimentar. Gosto da sensação de liberdade, estar em contato com o ambiente e não ficar dentro de um carro sem perceber as coisas que acontecem ao redor. Exercita nosso reflexo, nossa percepção, então, a gente acaba percebendo o mundo e tendo uma relação com as pessoas diferente de quanto estamos de carro”, afirma.
Os dilemas dos ciclistas urbanos
A ampliação das ciclovias ajudou – e muito – a difundir a cultura do uso das bicicletas nas grandes cidades, mas não podemos deixar de mencionar a convivência às vezes nada pacífica entre ciclistas e motoristas. Embora muitas pessoas ainda tenham dúvida, o Código de Trânsito Brasileiro prevê o tráfego das magrelas nas vias e, inclusive, considera que os veículos maiores são responsáveis pela segurança dos menores.
Ainda segundo a legislação, caso não existam ciclovias, ciclofaixas ou acostamento, ou ainda quando não for possível utilizá-los, o ciclista deve ocupar os bordos da pista, obedecendo ao sentido da via, com preferência sobre os veículos automotores. Contudo, o Código não delimita até onde vai esta margem do bordo da pista.
Para Leandro, que usa a bike praticamente todos os dias, o mais difícil é o começo; porém, com o hábito e a expertise do dia a dia, a locomoção torna-se menos traumática. “No início você sente que tem bastante gente que desaprova a circulação, muita gente que fica nervosa, então, é preciso estar ligado o tempo inteiro, porque vai ter lugar que não tem ciclofaixa e não há o que fazer a não ser andar na rua mesmo. E aí tem que se impor um pouco, para o motorista sentir que não pode passar por cima de você. E não tem nada de chutar carro ou ofender ninguém, é olhar no olho do motorista para ele sentir que você vai, por exemplo, ultrapassá-lo ou ir para outra direção”, ressalta Leandro.
O ciclismo como esporte e agente transformador
Andar de bicicleta pode mudar a vida das pessoas tanto na esfera da mobilidade urbana quanto no esporte, como no caso de José Claudio do Santos, mais conhecido no meio esportivo como Facex.
Hoje muito conhecido pelas organizações de passeios ciclísticos e corridas internacionais, o que pouca gente sabe é que o ex-ciclista aos 12 anos de idade vendeu doces por mais de um ano dentro de trens para comprar sua primeira bicicleta. “Eu era pobre demais e o que eu gostava de fazer era andar de bicicleta, mas não tinha dinheiro para comprar uma. Então comecei e vender amendoim, bala, biscoito e bolacha para comprar uma bike”, conta. Depois de um ano, ele conseguiu uma quantia que dava para adquirir a bicicleta e comprou uma Caloi 5. “Hoje ela nem existe mais”, relembra.
Aos 18, José começou a trabalhar na Faculdade de Ciências Exatas de São Paulo (Facex) e foi daí que surgiu o seu apelido, pois ele percorria 60 quilômetros diariamente do seu bairro, em São Miguel Paulista (Zona Leste), até a Liberdade, em trajeto de ida e volta. Aos fins de semana ia para a praia (Bertioga) pedalando. “Descendo a serra eu via muitos ciclistas pelo caminho. Achava legal. Eram todos humildes, me cumprimentavam. Muitos já falavam que eu era bom na subida. Então comecei a disputar minhas primeiras provinhas em 1994”. A faculdade foi sua primeira patrocinadora no ciclismo. Em 1999, ingressou na equipe de Suzano, depois passou por Guarulhos, Santos, Pindamonhangaba, Seleção Brasileira, Paulista e também por uma equipe da Espanha.
Por mais de 15 anos como profissional do ciclismo, foi campeão brasileiro de estrada, cinco vezes campeão paulista de montanha, campeão da 1ª edição do Tour do Brasil, campeão dos Jogos Regionais e vice dos Jogos Abertos. “Se não fosse pelo ciclismo, provavelmente eu estaria morto”, relata.
Facex diz isso porque, de acordo com ele, sua infância foi de muita pobreza. “Sabe quais eram minhas opções? Ou virava bandido ou morria”. Por causa do ciclismo, ele virou um grande atleta e atualmente ganha a vida como empresário do ramo. “O ciclismo me deu família, bons amigos, qualidade de vida e, por meio do esporte, eu pude conhecer o mundo”, conta.
Em 2014, ele foi a Portugal acompanhar de perto a Volta de Portugal e trouxe ao Brasil muitas ideias de como é organizada uma corrida na Europa. Além das organizações dos eventos de ciclismo, Facex coordena uma equipe que disputa as principais competições do Brasil. Neste ano, a Pro Cycling Team foi vice-campeã dos Jogos Regionais, defendendo Guarulhos, e vice-campeã da Volta Ciclística Internacional da Cidade de Guarulhos. Neste mês, disputa o Campeonato Brasileiro de Estrada, em Maringá (PR), a Volta do ABC e Circuito Montanhês de Ciclismo.
As 6 melhores cidades do mundo para andar de bicicleta
Embora a locomoção com a bike seja uma ótima opção, não se pode negar que o Brasil ainda está longe de ser um país ideal para quem deseja adotar a bicicleta como principal meio de transporte; mas, em outras localidades do globo, o transporte já funciona super bem e há vários exemplos de iniciativas que podem ser seguidas pelos nossos governantes. Na sequência, você confere a lista das seis melhores cidades do mundo para se pedalar, segundo o ranking bienal da Copenhagenize, empresa de planejamento e marketing especializada em assuntos relacionados ao transporte sobre duas rodas. Para classificar os lugares, a análise considerou critérios como infraestrutura (existência de ciclovias, sinalização, estacionamentos etc.), amparo legal (permissão para carregar as magrelas no metrô e em ônibus, além de fiscalização) e programas de aluguel.
1. Copenhague (Dinamarca)
Por lá, bicicleta é o principal meio de transporte para quase metade da população. Os dinamarqueses pedalam para ir à escola, ao trabalho, à padaria perto de casa e até mesmo para sair à noite.
2. Amsterdã (Holanda)
Aqui temos um exemplo positivo, mas que já exige atenção. Isso porque, embora as ruas da cidade sejam todas adaptadas para o tráfego sobre duas rodas, com ciclovias, corredores compartilhados, postos de aluguel e de guarda e até sinais especiais, a popularidade da magrela apresenta sinais de saturação em algumas áreas centrais.
3. Utrecht, Holanda
Além de Amsterdã, Utrech, que é a quarta maior cidade do país, também entra nessa lista. Neste ano, foi inaugurado em Utrech o maior estacionamento de bicicletas do mundo, com 17,1 mil m². Atualmente armazena seis mil bicicletas e o objetivo é abrigar outras 6.500
até o final de 2018.
4. Estrasburgo (França)
A França é um País que sabe valorizar a magrela. Atualmente, as bicicletas respondem por 15% dos deslocamentos diários no centro da cidade e a 8% na área metropolitana. Os números são o reflexo dos esforços de uma geração de planejadores urbanos que insistiram no veículo como meio de transporte.
5. Eindhoven (Holanda)
Olha a Holanda aqui mais uma vez, gente! Nesse caso, Eindhoven destaca-se pela inovação. Exemplo disso é a construção do visionário Floating Roundabout, uma ponte estaiada de forma circular, criada especificamente para as pessoas circularem de bicicleta.
6. Malmo (Suécia)
Em Malmo existem vias exclusivas para andar de bike e com direito a nome próprio, o que a facilita a localização por GPS.

