No dia em que o Corpo de Bombeiros do Estado de S.Paulo comemora 141 anos de sua fundação, em 10 de março de 1880, o portal Click Guarulhos entrevistou, de forma virtual, o comandante do 5o. Grupamento da Corporação, com sede em Guarulhos, o tenente-coronel PM Carlos Roberto Rodrigues.
Com 32 anos de serviços prestados ao Corpo de Bombeiros, ele assumiu o cargo em fevereiro de 2020, pouco antes da eclosão da pandemia. Uma das atuações marcantes em sua carreira foi na Escola Superior de Bombeiros, situada no limite entre as cidades de Mairiporã e Franco da Rocha; é uma das três maiores do mundo e sua localização é estratégica para treinar operações de salvamento.
Sobre o aniversário da instituição, ele cita que o ponto de partida para a criação de uma unidade no Estado de S.Paulo, naquele ano, foi um incêndio na biblioteca da Faculdade de Direito da USP, no largo São Francisco, no Centro de São Paulo. Na época, começou com apenas 20 homens e o foco era o combate ao fogo. Como havia muitos quintais com poços, ocorriam muitos casos de afogamentos, de forma que os bombeiros passaram a ser treinados para outros tipos de salvamentos, incluindo-se os aquáticos, terrestres e em altura.
Um ano de vital importância na história da instituição é 1990, quando foi implantado o Projeto Resgate. Desde então, o maior número de ocorrências atendidas é em salvamentos em acidentes de trânsito, pessoas que têm um mal súbito, acidentes domésticos e outros. “Naquele momento, ninguém imaginava que esse serviço ganharia tamanha importância, sendo tão vital para a população”, comenta.
Rodrigues cita que a corporação está empenhada em difundir conceitos de prevenção a acidentes, buscando evitar que se repitam tragédias que têm vitimado tantas famílias. Lembra casos que causaram grande comoção, como o da barragem de Brumadinho e os deslizamentos em março de 2020 na Baixada Santista, quando dois membros do 5o. GB encontraram a morte, enquanto lutavam para salvar vidas. São as chamadas situações de colapso, quando os equipamentos e seres humanos em serviço não conseguem evitar que males maiores aconteçam.
Uma ocorrência recorrente é a dos deslizamentos, pois há inúmeras moradias construídas em locais indevidos. Outra é a dos afogamentos, em lagoas e rios, que poderiam ser evitados. “Diante do déficit habitacional, como esperar que tantas pessoas não busquem abrigo em encostas e outros lugares totalmente impróprios? Mas há situações em que os acidentes acontecem por negligência ou porque as pessoas se expõem ao risco indevidamente. Em Guarulhos têm sido muitos os casos de afogamentos em lagoas. Em outras cidades da nossa abrangência, acontecem em riachos e cachoeiras. As famílias precisam conscientizar os jovens a não banhar-se nessas lagoas, cujas águas são poluídas, sujas, e geralmente não se tem noção da profundidade. Nos passeios por trilhas, pelas matas, é importante não arriscar”, exemplifica.
Estrutura
O 5.o. GB abrange as cidades de Guarulhos, Arujá, Santa Isabel, Mairiporã, Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras e Cajamar. Ao todo, o efetivo é de 227 integrantes, dos quais 104 em Guarulhos. “Na pandemia, tivemos um terço de nosso contingente contaminado, o que foi mais um desafio para nós nesse último ano. Vítima fatal no 5o. GB não tivemos, mas no Estado perdemos quatro heróis”, registrou.
Ele reconhece que é pouco para as necessidades de região tão extensa. Em Guarulhos, por exemplo, há quatro unidades: Macedo, Vila Galvão, Cumbica e a sede, no Bom Clima. A situação geográfica da cidade, cortada por três rodovias, aumenta a demanda por atendimento dos bombeiros.
Indagamos a ele quanto à possibilidade de aumentar o número de unidades na cidade, pois o território é grande e em muitas ocorrências, até percorrer toda distância, quando uma viatura chega, o fogo já consumiu tudo. Citamos como exemplo a região de Bonsucesso e a do Pimentas, que ficam a vários quilômetros de Cumbica. E lembramos os dois incêndios que atingiram a ocupação Nova Vitória, no Jardim São João.
Ele informa que, principalmente depois que foi desativada a unidade do Taboão, está se buscando viabilizar uma instalação no Jardim Presidente Dutra, atrás do Aeroporto, local estratégico para chegar mais rapidamente a bairros mais distantes. A área para a construção foi cedida com publicação de decreto no Diário Oficial. Menciona que o primeiro incêndio no Nova Vitória consumiu muito rapidamente 200 residências. “Em todos os anos em que estou na atividade, nunca vi tudo ser destruído rápido daquele jeito, para o que contribuiu certamente o fato de serem paredes de madeira. Foi muito triste”, afirma.
Campanha de conscientização
Uma meta definida pelo Comando do CB em São Paulo para este aniversário foi zerar todas as vistorias pendentes para concessão – ou não – do AVCB, documento imprescindível para a regularização de edificações e fornecimento da licença de funcionamento para empresas.
Quanto às residências, o coronel comenta que é muito importante o papel da Imprensa, para disseminar medidas preventivas. “Nos dados de que dispomos, vê-se que, depois dos incêndios de vegetação, a maior parte de ocorrências é em residências. Muitos incêndios são causados porque não foi trocada na época certa a mangueira ou a válvula do botijão de gás; ou o gás fica dentro da casa, o que é indevido. Ou a parte elétrica foi mal instalada ou insuficiente para os equipamentos da casa; ou, ainda, o fogo ficou aceso até o óleo da frigideira incendiar. Enfim, é preciso que as famílias atentem para esses cuidados, atitudes simples que podem evitar graves problemas e salvar vidas”, descreve.
Perguntamos a ele o que fazer diante de depósitos clandestinos de materiais recicláveis ou quando há residências de pessoas acumuladoras. O comandante respondeu que, embora se reconheça que a reciclagem é um meio de vida encontrado por muita gente diante do desemprego, e que é uma atividade de suma importância para o meio ambiente, é preciso que todos os cuidados sejam tomados, pois um incêndio nesses locais costuma dar muito trabalho aos bombeiros para evitar que atinjam residências vizinhas.
Quanto a acumuladores, trata-se de uma doença e quem a tem precisa de apoio psicológico. Indagamos como agir quando isso acontece dentro de um condomínio. Rodrigues disse que as administrações devem informar à Prefeitura e, se a situação indica risco de incêndio, também ao Corpo de Bombeiros.

