No centro de uma polêmica recente, um caso chocante trouxe à tona a necessidade urgente de preparo e conscientização no tratamento de crises envolvendo pessoas neurodivergentes. Um adolescente autista de Brasília teve seu braço supostamente quebrado por um professor substituto, em um episódio que expôs a falta de habilidades para lidar com situações complexas desse tipo no país.
Esse caso, infelizmente, não é uma ocorrência isolada. A falta de capacitação para lidar com crises de pessoas neurodivergentes é um problema recorrente em diversas áreas, principalmente na educação. Poucos profissionais são treinados para acolher e auxiliar indivíduos em momentos de sobrecarga emocional, gerando situações como a vivenciada por esse jovem.
Lucelmo Lacerda, doutor em Educação e pesquisador dedicado à inclusão e ao autismo, destaca que a sociedade ainda carece de conscientização sobre os cuidados necessários para reverter cenários de instabilidade. No livro “Crítica à Pseudociência em Educação Especial”, lançado pela editora Luna Edições, o autor explora exatamente essa lacuna na preparação dos profissionais que lidam com pessoas neurodivergentes.
Lacerda, que também é autista e pai de uma criança com autismo, questiona a política de inclusão total adotada nas escolas brasileiras. Ele argumenta que a inclusão total, apesar de defender a integração social, muitas vezes não oferece o suporte necessário aos alunos com necessidades especiais, como o adolescente envolvido no incidente de Brasília.
O especialista destaca a importância de um ensino adaptado às necessidades individuais, algo que se torna inviável em salas de aula superlotadas e com professores sem formação adequada. Para Lacerda, a solução está na priorização das “práticas baseadas em evidências”, metodologias com embasamento científico que comprovadamente trazem resultados positivos.
O livro de Lacerda não apenas questiona a eficácia da inclusão total, mas também apresenta dados e reflexões embasadas em estudos de diversos países desenvolvidos, em que a educação inclusiva é implementada de forma mais efetiva, respeitando as necessidades individuais dos alunos.
Psicóloga destaca importância do acolhimento e empatia
Em outra perspectiva, Patrícia Stankowich, psicóloga e especialista na clínica de crianças com comprometimentos no desenvolvimento e deficiência, destaca a importância do acolhimento e da empatia. Ela reforça a vulnerabilidade das famílias em situações como outra, também recente, ocorrida em uma loja de departamentos, em que a mãe de uma criança com autismo enfrentou discriminação no atendimento.
Para Stankowich, é essencial que a sociedade cultive empatia e compreensão, especialmente ao lidar com desafios como o autismo. Ela ressalta a importância de capacitar colaboradores e criar espaços mais inclusivos, onde todas as pessoas se sintam acolhidas e respeitadas.
Ambos os especialistas concordam que a educação inclusiva deve ser repensada e reestruturada, levando em consideração as necessidades individuais de cada aluno. Enquanto Lacerda enfatiza a importância das “práticas baseadas em evidências”, Stankowich destaca a necessidade de construir uma cultura de inclusão e respeito à diversidade em todos os âmbitos da sociedade.
No cerne dessas reflexões está a busca por um ambiente educacional e social que reconheça e valorize as diferenças, proporcionando apoio e oportunidades iguais para todos os indivíduos, independentemente de suas necessidades específicas.

