Nove cavalos criados no haras Dia de Sol, na zona rural de Guarulhos, morreram nos últimos dois meses após consumo de rações da empresa Nutratta Nutrição Animal Ltda. De acordo com o proprietário da chácara, Marcos Barbosa, dois óbitos ocorreram na terça-feira (1º/7).
Barbosa destaca um verdadeiro pesadelo. Entre os sintomas observados nos bichos, estão: desorientação, alterações de comportamento e mudanças na locomoção. “O primeiro é o apetite, eles perdem. Na sequência, eles começam a querer ficar prostrados, encostam a cabeça na parede, daqui a pouco eles começam a bater mesmo a cabeça na parede, morder”, detalha Marcos Barbosa.
“No primeiro caso, ninguém estava falando sobre a ração, pelo menos aqui na nossa cidade. A minha primeira égua morreu no dia 16, ela ficou ruim no dia 10, e os sintomas dela pareciam ser raiva, sendo que são todos vacinados, tudo certinho… acompanhados por veterinário”, explica.
Conforme matéria divulgada pelo portal Metrópoles, o dono do haras disse que um representante da Nutratta foi ao local e confiscou 110 sacos da ração. De acordo com o comerciante, o próprio funcionário chegou a falar que se tratava de uma situação “criminal”.
“No dia em que ela [a primeira égua] morreu, começou a sair em grupos falando sobre a ração, aí eu liguei para o distribuidor”, conta Barbosa. “Pediu uma foto do lote da minha ração. Quando eu mandei, ele falou ‘é… suspende, porque é uma ração que está suspeita. Então, a indignação maior é isso: saber que eles sabiam… A gente está vendo relatos agora do mês 4”, indigna-se.
Logo no dia 16 de maio, o haras suspendeu o uso da ração de todos os cavalos. Os animais também passaram por exame de sangue e tomaram medicação necessária.
“Pedi para a empresa enviar veterinários para fazerem exames, mas não retornaram. Usei remédios para desintoxicação que custam R$ 200 o frasco por dia e por animal”, disse. Nas contas de Barbosa, o prejuízo financeiro com a morte dos animais é de cerca de R$ 700 mil.
Contaminação por monocrotalina
Segundo informações, a contaminação da ração foi feita com monocrotalina, uma toxina encontrada em plantas do tipo crotalária, segundo o Ministério da Agricultura. Essa toxina é hepatotóxica (afeta o fígado) e neurotóxica (afeta o sistema nervoso), sendo mortal para muitos animais, como equinos, bovinos e suínos, entre outros.
Os primeiros episódios de intoxicação ocorreram em 21 de abril, no Rio de Janeiro, e o primeiro óbito foi registrado no dia 23 do mesmo mês em São Paulo. Os cavalos aparentemente estavam saudáveis e sem alterações clínicas notáveis. Porém, subitamente, começaram a apresentar sinais neurológicos agudos que evoluíram rapidamente para a morte.
Dados alarmantes
No Brasil, já foram contabilizadas 650 mortes de cavalos depois de terem comido ração contaminada. Além disso, há 367 animais em tratamento intensivo e 212 sob observação clínica. Os dados são de um levantamento organizado pela advogada Maria Alessandra Agarussi, que representa centenas de criadores afetados.
Em São Paulo, o número atual é de 290 óbitos e cerca de 250 em tratamento. A maioria dos casos foi registrada no interior, em cidades como Campinas, Sorocaba, Itu, Jundiaí, Jarinu e Indaiatuba.
Em 17 de junho, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) determinou o recolhimento de todos os produtos destinados a equídeos, fabricados a partir de 21 novembro de 2024. A pasta iniciou uma investigação para apurar as mortes. No dia 25, via ofício, comunicou a constatação da presença de substâncias tóxicas em rações para cavalos.
Ofício do Ministério da Agricultura
No ofício emitido pelo Ministério da Agricultura em 25/6, é citada uma série de falhas graves nos processos de fabricação da empresa, como: falta de controle e separação de matérias-primas como torta de algodão, resíduo de soja e feno; utilização de ingredientes não autorizados; ausência de rastreabilidade nos lotes produzidos.
Segundo o documento, essas irregularidades impossibilitam a identificação e a separação segura dos produtos contaminados.
Os exames foram feitos em laboratórios federais de Defesa Agropecuária a partir de amostras de rações coletadas em locais onde animais adoeceram e morreram.
Investigação aberta
A Promotoria de Justiça do Consumidor de São Paulo abriu investigação no preliminar no dia 16 de junho para apurar os casos em um haras de Indaiatuba (SP), com suspeita de que a causa tenha sido a ingestão da ração Forrage Horse, da empresa Nutratta Nutrição Animal.
Segundo o MP-SP, a Promotoria notificou a Nutratta para prestar esclarecimentos e apresentar documentos que comprovem o cumprimento das medidas determinadas pelo Mapa.
Também foram acionados o Conselho Regional de Medicina Veterinária e o próprio Ministério para fornecerem informações sobre o caso e eventuais providências já adotadas. A empresa terá 20 dias para responder antes de a Promotoria decidir se instaura um procedimento formal de responsabilização.
O que diz a Nutratta
Abaixo, leia a íntegra da nota da Nutratta:
“A Nutratta lamenta profundamente os relatos de intoxicação e óbitos de animais associados ao produto Foragge Horse, da linha de nutrição animal equina, e reforça que está colaborando integralmente com o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para elucidar os fatos, inclusive recebendo os técnicos do MAPA em sua planta, fornecendo todos os documentos e informações técnicas solicitadas.
Embora as investigações do Ministério da Agricultura e Pecuária ainda estejam em curso, foi divulgada nota técnica no sentido de que as análises laboratoriais preliminares indicaram a presença da substância monocrotalina, que é produzida pela própria natureza, por plantas do gênero Crotalaria – uma leguminosa que é muito utilizada em adubação verde -, e que pode estar presente em matérias-primas de origem vegetal utilizadas em diferentes cadeias agroindustriais, tratando-se, pois, de uma fatalidade, caso isso venha a ser confirmado.
Assim, diante da situação excepcional, a Nutratta já adotou medidas adicionais de autocontrole. Entre essas ações estão o reforço das análises laboratoriais, revisão dos protocolos de qualificação de fornecedores e rastreabilidade das matérias-primas vegetais, revisão completa dos processos sanitários internos e reestruturação do layout fabril.
Por fim, a Nutratta destaca que vem adotando todas as providências cabíveis para mitigar os efeitos da situação, incluindo suporte técnico aos clientes, rastreamento dos lotes envolvidos e revisão de seus processos internos. Ressalta-se que não há, até o momento, conclusão definitiva quanto a eventual nexo de causalidade entre os casos relatados e os produtos da empresa, e que a empresa conseguiu uma liminar na Justiça Federal para restabelecer seu funcionamento quanto à atividade de produção e comércio dos produtos não destinados a equinos.
A Nutratta permanece à disposição das autoridades e da sociedade para prestar os esclarecimentos técnicos necessários, mantendo seu compromisso com a qualidade, a segurança alimentar e o bem-estar animal, valores que sempre nortearam sua atuação.”
*Com Informações do portal g1 e Metrópoles

