Um pedreiro, funcionário da Proguaru há seis anos, é apontado por testemunhas como o autor do incêndio que destruiu um ônibus da Viação Campo dos Ouros, na avenida Esperança, em frente à praça John F. Kennedy, no Centro de Guarulhos. Mesmo com a ação rápida dos bombeiros, nada sobrou do coletivo.
O rapaz nega ter posto fogo no ônibus. Afirma estar ali apenas como passageiro, após ter participado de uma manifestação de funcionários da empresa de economia mista, na praça Getúlio Vargas, a poucos metros dali, protestando contra a decisão do prefeito Guti de extinguir a Proguaru.
Passageiros viram quando um homem esparramou gasolina nos bancos e ateou fogo. Tiveram de sair às pressas do coletivo. Entre eles, alguém correu até a base comunitária da Polícia Militar daquela praça e apontou o pedreiro como responsável. Preso em flagrante, ele tinha uma caixa de fósforos no bolso, o que reforça as suspeitas contra ele.
A notícia repercutiu na sexta-feira nas redes sociais, enquanto vereadores, por 24 votos a nove, aprovavam a extinção da empresa. Já no início da noite, a vereadora Genilda Bernardes (PT) conseguiu liminar na 2a. Vara da Fazenda Pública, anulando a decisão da Câmara. Essa decisão de emergência pode ser derrubada no julgamento do mérito ou mediante recurso.
Prós e contras
Nos comentários, as opiniões se dividem. Há internautas que justificam a atitude do funcionário, embora não haja certeza de que tenha sido o autor. Para alguns, a responsabilidade pelo episódio é do prefeito, por não ter discutido a decisão com a população e tê-la negado dias antes do segundo turno da eleição. Outros atribuem o gesto extremo ao desespero de se ver desempregado, em plena pandemia, o que consideram uma maldade com milhares de trabalhadores, ainda que haja a alternativa do Plano de Demissão Voluntária e a aventada possibilidade de os não aderentes serem absorvidos na própria Prefeitura ou empresas que sejam contratadas para prestar ao Município os serviços que a Proguaru executa atualmente.
Por outro lado, há internautas que condenam a atitude, quaisquer que sejam as justificativas. O argumento principal é que o transporte coletivo é de utilidade píublica e não é incendiado um ônibus que se impedirá que a gestão municipal dê fim à empresa. Mesmo sendo de propriedade privada, um ônibus a menos representa prejuízo aos usuários. “Vai fazer falta para a mãe dele no dia seguinte”, imaginou um munícipe.
Há quem aponte que nenhuma das grandes transformações da humanidade foi obtida com protestos pacíficos. Porém, atitudes extremas isoladas geralmente acabam em punição contra quem as toma, sem resultar no objetivo pretendido.
Seres humanos são traídos por suas emoções e tomam atitudes das quais se arrependem e se envergonham segundos depois. Mas, a rigor, se cada servidor da Proguaru que se sentisse prejudicado com sua extinção tivesse o direito de incendiar um ônibus, simplesmente se acabaria com o transporte coletivo da cidade e isso não impediria que fosse liquidada.
Se não houvesse razões econômicas efetivas para decidir extinguir a empresa, certamente Guti não o faria, pois é cômodo contar com uma empresa de economia mista para acomodar apaniguados e cumprir acordos políticos, além de driblar amarras impostas pela Lei de Licitações. Talvez fizesse mais sentido enxugá-la, corrigir distorções e saneá-la. Mas pode ser que a situação tenha se tornado tão insustentável, que nem isso resolvesse. Se Guti errou em negar explicitamente que pretendia acabar com a Proguaru e o tenha feito logo após ser reeleito, não é incendiando ônibus que se aplicará a ele algum castigo: a história o condenará. Ou não: depende de como fará para substituir as tarefas da empresa e de sua sensibilidade para causar o menor mal possível aos que efetivamente trabalham e que justificam com o próprio suor cada centavo que recebem.
Valdir Carleto
(imagens cedidas pelo jornalista João Renato, de Arujá, que nos honrou com sua visita na sexta-feira, 18)


