Por Tamiris Monteiro

Depois de um ano bastante difícil, em que o Brasil foi afetado por escândalos que resultaram em instabilidades políticas e econômicas, o País ainda vive um período de incertezas em relação ao que esperar para 2016. Para alguns, a ideia de que as coisas podem piorar prevalece; já para os mais otimistas, a crise pode ser uma oportunidade de fazer a roda girar. Mas, de acordo com especialistas, de modo geral, as perspectivas não são das melhores, isso porque a recessão prevista para acontecer neste ano e, talvez, no próximo também, é fruto de uma tardia agenda que busca tratar problemas sinalizados desde 2013, considerando que a economia brasileira apresentou um desempenho muito fraco nos últimos quatro anos.

Inflação

O brasileiro sentiu a crise no bolso, devido ao aumento dos gastos no supermercado e nas contas de serviços essenciais. Em dezembro, a inflação oficial do País ficou em 0,96%, fechando 2015 em 10,67%, a maior taxa desde 2002, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O que mais desestabilizou o orçamento foi o aumento de preços dos alimentos e das bebidas. De 8,03% em 2014, a taxa subiu para 12,03%, mesmo assim esse não foi o maior aumento, apesar de ter sido identificado pelo IPCA como o que mais pesou para os consumidores.
O maior impacto do ano na análise individual dos itens ficou por conta da energia elétrica e dos combustíveis. A conta de luz ficou, em média, 51% mais cara do que em 2014. São Paulo e Curitiba aplicaram os maiores reajustes, de 70,97% e 69,22%, respectivamente. Já o reajuste no preço dos combustíveis chegou a 21,43%, o que causa impacto também no custo das mercadorias. Segundo a economista Nilza Siqueira, apesar de o índice inflacionário de 2016 estar previsto para não ser tão alto quanto no ano anterior, deve vir mais aumento por aí. “O governo projeta uma inflação menor que a ocorrida em 2015, mas ainda acima do centro da meta. A estabilização de preços depende de muitas variáveis e os aumentos são alavancados também pela indexação”, explica.
Contudo, para o educador financeiro Reinaldo Domingos, a crescente inflação também serve para aprender a se policiar. “A situação apenas reforça a necessidade da educação financeira, colocando em prática ações de economia em casa. Então, para que se possa realmente combater a inflação, é necessário ter consciência e disciplina, trazendo toda a família, inclusive as crianças, para o mesmo objetivo. É necessário fazer um diagnóstico financeiro detalhado dos gastos, descobrindo para onde está indo cada centavo da renda da família. Dessa maneira, fica mais fácil identificar os supérfluos e os exageros, para reduzi-los ou até eliminá-los. A partir daí, novos hábitos estarão sendo formados e o comportamento em relação ao uso e à administração do dinheiro será diferente, garantindo que o período econômico ruim do País não interfira tanto na situação financeira das famílias”, pontua.

Emprego e empreendedorismo

Talvez, um dos piores reflexos da crise seja o desemprego. Segundo o Ministério do Trabalho, em 2015, as demissões superaram as contratações em 1,5 milhão de vagas formais. O apontamento é o pior da série histórica do órgão. No trimestre encerrado em agosto, foi apurado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) que o Brasil tinha quase 9 milhões de desempregados e esse número tende a crescer. Com a retração, grandes setores empregadores, como a construção civil e a indústria de transformação, passaram a demitir num ritmo intenso.

O lado positivo, é que com a elevação do índice de desemprego, mais pessoas tendem a empreender. “Nessa hora, muita gente reage indo à luta. Além de procurar emprego, muitos acreditam que é hora de tirar da gaveta o velho sonho de abrir um negócio, utilizando o dinheiro do Fundo de Garantia e do Seguro Desemprego. Otimistas, parecem aderir ao conceito chinês de que crise é sinônimo de oportunidade”, avalia o economista Haroldo Torres.

Mesmo assim, é preciso ter cautela, pois o profissional ressalta que as estatísticas mostram que metade das novas empresas que surgem dessa demanda acaba morrendo antes de completar um ano. Para quem já está empreendendo e enfrentando os desafios da crise, a perda de clientes é o principal risco. “Porém, atenção e criatividade para a área comercial podem revelar oportunidades ocultas. Com baixo investimento, muitos negócios podem diversificar as fontes de receita. Isso inclui parcerias para comercialização de produtos de terceiros, otimizando a força de vendas; identificação de novos canais de comercialização e revisão da linha de produtos. O marketing também merece atenção, até porque, atualmente, as redes sociais permite fazer campanhas de baixo custo, com resultados significativos”, analisa.

Câmbio

Na data em que esta matéria foi redigida (21 de janeiro), o dólar comercial estava cotado em R$ 4,17, mas além dos fatores econômicos vividos no País, a retração chinesa é um fator que tem contribuído para as constantes altas da moeda americana. No entanto, de modo geral, para a economista Nilza Siqueira, mesmo que não houvesse a China na jogada, “as possibilidades de baixa do dólar são pequenas”, finaliza. nn