InícioCIDADANIAQuinto artigo da série "Invisíveis": "Vida fácil"

Quinto artigo da série “Invisíveis”: “Vida fácil”

PUBLICIDADEspot_img

– Ô tio, é você que está escrevendo a história de nós (sic) que vivemos nas ruas?

Foi assim meu primeiro contato com Samuel, 12 anos, quatro deles sem um lar. Apesar do frio de outono, veste camiseta, bermuda e chinelos.

-Sim, sou eu. Por quê?

– Quero que escreva uma coisa por mim. Posso começar?

Assenti com a cabeça e me pus a ouvir.

“Eu estava ali na Ipiranga com a Rio Branco, em frente aquele restaurante Sujinho, saiu um casal e eu ofereci balas e chocolates à mulher. Ela comprou, mas – disse rindo – acertei, porque ela abriu a bolsa, encontrou uns trocados e me deu. Não quis as guloseimas. Enquanto esperavam o carro, ouvi  o marido se zangar com ela dizendo:

– É por isso que eles ficam aqui, pedindo, sempre tem alguém que dá. Assim é fácil ganhar a vida. Quero ver pegar no pesado, trabalhar duro.

– Poderia ser nosso filho – a mulher retrucou.

– Não diga isso, nosso filho tem um pai que nunca vai deixar isso acontecer! – e encerrou a conversa enfurecido.

– Sabe tio, eu não tenho vícios, sou até educado, procuro estar sempre limpo, não me envolvo com o crime. Durante o dia, vendo as  balas e chocolates, à noite, quando tenho dinheiro, durmo em um hotelzinho barato; quando não, sob a marquise. A fala do homem me machucou muito, sabe tio? Ele pensa que a gente tá aqui porque quer. Que não quer trabalhar, pensa que a vida aqui é fácil. Ele não duraria uma semana aqui. Acha que é fácil? Ele não come nem a sobra do prato da esposa, que dirá fuçar numa lixeira para arrumar algo não muito podre para pôr no estômago. Ele reclama da água muito quente ou muito fria do chuveiro. Acha que conseguiria passar uma semana sem banho? Se a temperatura bater 15 graus, dorme de pijama e dois cobertores; imagina se tivesse de passar a noite ao relento, coberto com jornais, tendo a calçada como colchão? Morreria de frio…

E continuou com lágrimas nos olhos.

– Ele disse que seu filho tem um pai que nunca deixaria isso acontecer. Deus o proteja: ninguém merece estar na situação que estou, que estamos. Eu também tive um pai. Ele era caminhoneiro, morreu em um acidente quando eu era pequeno. Minha mãe ficou sem dinheiro, fomos morar em uma favela. Ela morreu também, de tuberculose, há 4 anos. Os traficantes invadiram o barraco. Tive de fugir de lá, não queria estar metido com drogas. Fui para um abrigo, lá fui abusado física, psicológica e sexualmente por funcionários e pelos garotos maiores. Fugi para as ruas. E tem gente que acha que ficar aqui, como é que você escreveu? No País dos Invisíveis, né? É fácil!

– Sim. Tem gente que pensa que a nossa vida é fácil. Todo mundo deveria passar um mês aqui para ver. Talvez assim deixassem de nos julgar e começassem a nos ver e dar condições para melhorar nossas vidas.

– Obrigado, tio.

E assim como veio, foi embora enquanto eu pensava no quão fácil é julgar o outro e quão difícil é estar na sua situação.

Que Deus proteja Samuel, que ele possa continuar firme em sua índole e que possa ter uma oportunidade que o tire do País dos Invisíveis.

Alek Honse é jornalista, filósofo e escritor; autor de “Alek no país dos invisíveis” entre outros. Viveu até recentemente, na própria pele a saga de morar nas ruas da região central da cidade de São Paulo e conta nesta série de artigos um pouco dessa realidade. No domingo, 24, e da quarta-feira, 27, até o domingo de Páscoa serão postados os últimos artigos da série. Ele criou o Projeto Invisíveis (@apoia-se/projetoinvisiveis), com o qual procura ajudar outras pessoas em situação de rua a conseguir um lugar para morar. Quem puder contribuir pode enviar qualquer quantia deve enviar pix para a chave 11981518718

Compartilhe

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Redes Sociais
32,279SeguidoresCurtir
11,922SeguidoresSeguir
1,308InscritosInscrever

Últimas Publicações