O impacto dos microplásticos para a saúde humana ainda está sendo estudado, mas eles já são associados a vários problemas, como o maior risco de eventos cardiovasculares fatais quando presentes em artérias e a ocorrência de distúrbios metabólicos, respiratórios e hormonais. Pós-doutora em gestão costeira pela Universidade Federal de Pernambuco, Maria Christina Araújo lembra que “o corpo humano está sendo um depósito dessas partículas”.
Ela explica que podemos entender o microplástico como um corpo estranho, que faz o corpo humano reagir em uma tentativa de se proteger. “Eles causam uma série de irritações, inflamações e problemas nos tecidos”, afirma a pesquisadora.
“Além de problemas mais graves que acontecem com os tipos de plásticos considerados disruptores endócrinos, como o bisfenol (BPA), que têm o poder de interferir no funcionamento do sistema endócrino do corpo, que é um dos sistemas mais importantes, porque regula todos os outros.”
Já encontrados no sal, na água, no leite, os microplásticos são inevitáveis. Apesar disso, alguns hábitos alimentares e práticas na cozinha ajudam a diminuir o contato com essas partículas. Em todas as famílias é fundamental cultivar o hábito de separar os materiais recicláveis e dar-lhes o destino adequado, jamais misturando-os com o material orgânico, que vai para os aterros sanitários e lixões.
A seguir, leia dicas de especialistas consultados pela revista Gama:
Os microplásticos estão no ar, na água e na comida. Ainda não há certeza absoluta sobre todos os efeitos para a saúde humana, que podem variar de uma pessoa para outra, mas as pesquisas mais recentes mostram que esse é um risco real e crescente para a população como um todo. “Em algumas coisas, não tem para onde correr, se você comprar um camarão, por exemplo, certeza que ele terá microplástico”, lamenta a professora Maria Christina Araújo. Mesmo que seja impossível eliminar completamente a exposição, dá para reduzir os riscos com escolhas cotidianas e, principalmente, manter uma atitude ativa diante do problema. Isso significa buscar fontes confiáveis de informação, dividir o que se aprende com quem está por perto e cobrar medidas mais amplas, como políticas públicas que regulem o uso do plástico e incentivem alternativas sustentáveis.
Não esquente ou guarde sua comida em plástico
Apesar da praticidade, por ser leve e inquebrável, o recipiente plástico não é o mais adequado para armazenar alimentos ou líquidos. Ele não tolera os choques térmicos e o manuseio constante de aquecer e congelar, como explica : “O plástico desprende partículas. A gente não consegue ver”. Mesmo os que se dizem próprios para o microondas e livres de BPA, passam pela fragmentação progressiva em microplástico. Uma pesquisa publicada em 2023 no periódico Environmental Science & Techonology revelou que, em apenas três minutos de exposição ao calor, esses recipientes liberam mais de 4 milhões de microplásticos e cerca de 2 bilhões de nanoplásticos a cada centímetro quadrado de material. A melhor opção para conservação são os vidros, comenta Araújo:
“O vidro é inerte. Se você não derrubar e quebrar, ele vai viver para sempre. E ele não desprende nada”.
Como substituto do plástico filme e outras embalagens, são recomendados os paninhos de cera. Dada a dificuldade de abolir o uso do plástico, é importante minimizar, ao menos, a exposição ao calor intenso, à luz solar, a ácidos e ao desgaste físico, que também podem degradá-lo. Além dos recipientes, outros utensílios podem ser substituídos: “Desde colheres e espátulas, a tábua de corte”, lista o chef Cesar Costa. Em cozinhas profissionais, por determinação da Anvisa, a indicação são as tábuas de corte de plástico, especificamente polietileno (PEAD). Nesse caso, Costa recomenda “entender que produtos como esse têm validade. Chega a hora de trocar, porque ele começa a liberar muito microplástico em função do uso repetido e da lavagem agressiva, a tábua começa a criar microfissuras”.
Panelas de teflon também devem ser evitadas. Neide Rigo sugere substituir a frigideira antiaderente de teflon (tipo de plástico) por frigideira de ferro bem tratada: “Basta secá-la no fogo e proteger com óleo quente para ganhar antiaderência”. Para tábuas e colheres de madeira ou bambu, higienize com água sanitária, fervura ou sal. Outras boas escolhas são trocar as esponjas de plástico por versões vegetais e os saquinhos de chá por uma peneirinha com as ervas soltas.
Ferva e filtre sua água. Lave todos os alimentos, inclusive arroz e feijão crus – Esse processo de fervura e filtração pode eliminar até 80% dos microplásticos presentes na água da torneira. Isso acontece porque, ao ferver, o calcário presente na água se solidifica e os microplásticos se prendem a ele. Em seguida, passe a água por um filtro — pode ser de papel, como os usados para coar café — para remover o restante dos resíduos. Se o filtro for de plástico, é importante resfriar a água antes de passar por ele, já que o calor acelera a degradação do material. Outra frente importante é a higienização dos alimentos. Grãos como arroz e feijão costumam vir com bastante resíduo por causa da forma como são armazenados. “Lavo o arroz porque ele vem com uma quantidade imensa de resíduo”, diz Maria Christina Araújo. Para ela, o segredo está em esfregar rapidamente em água corrente.
O chéf Cesar Costa, que viveu seis anos trabalhando em restaurantes de diferentes países, afirma:
“No Brasil, dá trabalho consumir de maneira consciente, o que limita que mais pessoas adquiram um estilo de vida sustentável”. Araújo defende que “é uma ideia que a gente tinha que levar como mentalidade de vida: tentar reduzir os plásticos o máximo possível”.
Mais dicas sobre como reduzir os microplásticos no cotidiano:
- Dá pra fugir dos microplásticos?
- Conversas – “Os microplásticos representam um problema. A hora de agir é agora”
- Reportagem – A garrafinha não é a única vilã de um mundo saturado de plástico
- Podcast da semana – Thais Mauad: o perigo dos microplásticos
- 5 dicas – Como ingerir menos plástico
- Bloco de notas – Conteúdos para desvendar os microplásticos
*Fonte: Revista Gama/UOL

