A saúde emocional passou a impactar diretamente custos, produtividade e retenção de talentos nas empresas brasileiras. Dados do Global Talent Trends Report, elaborado por LinkedIn e PwC, indicam que 56% dos desligamentos no país são voluntários, em geral associados a esgotamento emocional, clima organizacional e falhas de liderança. No mesmo sentido, pesquisa global da Deloitte mostra que 76% dos profissionais da Geração Z priorizam o bem-estar psicológico ao escolher onde trabalhar.
Essa realidade pressiona as companhias às vésperas da entrada em vigor do novo escopo da NR-1, que passa a exigir o tratamento formal dos riscos psicossociais a partir de maio. A mudança foi oficializada pela Portaria nº 1.419/2024, do Ministério do Trabalho e Emprego, que alterou o capítulo de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
Jéssica Palin Martins, advogada e psicóloga especializada em saúde emocional corporativa, afirma que a norma muda a lógica do risco ocupacional nas empresas. Segundo ela, fatores como estresse crônico, sobrecarga de trabalho, conflitos de liderança e assédio passam a exigir identificação e controle formal. “O gerenciamento de riscos ocupacionais agora precisa incluir também os fatores psicossociais”, afirma.
Com a virada do ano, a busca por orientação técnica se intensificou, especialmente em dezembro, quando muitas empresas perceberam que ainda não possuem protocolos claros para atender à nova exigência.
Na prática, a responsabilidade se amplia para áreas de RH, segurança do trabalho e lideranças, que precisam estruturar processos contínuos, com registros técnicos e planos de ação documentados.
A especialista ressalta que ainda há confusão entre ações isoladas e gestão de risco. “Palestras ou benefícios pontuais não atendem à NR-1. É preciso diagnosticar os riscos, entender causas e demonstrar atuação preventiva”, explica.
Além do impacto jurídico, o fator emocional passou a ser tratado como variável estratégica. “Quando o risco psicossocial não é gerido, os sinais aparecem em afastamentos, rotatividade e queda de engajamento. Isso tem custo direto para o negócio”, observa.
Na avaliação de Palin, as organizações que se anteciparem ao prazo terão vantagem competitiva. “Quem estruturar agora seus processos não apenas cumpre a norma, mas ganha clareza para decisões de liderança, melhora o clima interno e fortalece a confiança”, diz.
Para a especialista, a NR-1 consolida uma virada definitiva. “A saúde emocional deixou de ser discurso. Ela entrou no campo regulatório e passa a integrar a governança das empresas”, conclui.

