Por Val Oliveira
Fotos: banco de imagens
e arquivo pessoal

Por mais que alguém tente manter-se alheio às mudanças impostas por novos padrões, sejam eles de cunho social, tecnológico ou familiar, em algum momento da vida a “tal modernidade” e os novos comportamentos provocam dúvidas e reflexões. É curioso observar que na atual configuração social até as crianças já nascem diferentes, dando a impressão de que há uma pré-moldagem para que elas cheguem ao mundo preparadas ou suscetíveis ao ritmo de vida moderno. Parecem gente grande… Opa! Criança agindo como se fosse adulto? Isso não está fora da ordem? Por que os pequenos tornam-se adultos antes do tempo e quais os reflexos da “adultização” precoce?

Segundo a psicóloga Marianna Montesello Ferreira da Silva, muitos fatores colaboram para que as crianças se apresentem como miniadultos, não só pelas vestimentas, como também pelas atitudes e pensamentos. “O pouco convívio e interação com outras crianças faz com que elas copiem as atitudes de quem está próximo, ou seja, os adultos. As características podem ser diversas, mas, generalizando, alguns comportamentos observados são: dificuldade em lidar com outras crianças e de dividir; excesso de preocupação; autocobrança, entre outros”, diz.

A psicopedagoga Mônica de Farias Martins comunga do mesmo pensamento. “Externamente veste-se, fala e age como adulto, mas internamente não dá conta de todas as consequências dessa postura. Há sofrimento interior e isso pode ser percebido por comportamentos como agressividade, sentir-se melhor que os outros, ansiedade, angústia, doenças como colesterol, pressão alta, entre outros”, explica.

O tempo e a individualidade

e8f65a68-51d4-4eea-8061-99faaa14c327Para Marianna, não existe um tempo psicológico adequado para o desenvolvimento emocional e social da criança e o tempo de cada uma é individual. Porém, preocupações de “gente grande” e responsabilidades em demasia podem trazer consequências negativas para a saúde dos pequenos. “Elas não têm os mesmos mecanismos psíquicos de um adulto, afinal elas ainda precisam passar por muitas experiências para isso. Uma criança que tem responsabilidades e preocupações de adulto poderá desenvolver doenças psíquicas e físicas, depressão, ansiedade, pressão alta, diabetes, entre muitas outras. Percebo isso nitidamente. Quantas crianças estão indo aos nossos consultórios com transtornos de ansiedade? O número cresceu demais e isso se dá pelo excesso de cobranças, algo comum no universo adulto”, declara.

Tanto a psicóloga quanto a psicopedagoga entendem que é por meio do convívio, da troca de experiências que as crianças vão se desenvolvendo e aprendendo a lidar com os conflitos. A maneira usual como essa troca acontece e contribui para o amadurecimento psíquico é por meio das brincadeiras, algo fundamental na infância.

Limites e ajuda profissional

Para imprimir uma educação focada na valorização das atitudes infantis, mas sem deixar de lado a evolução social e tecnológica e, ao mesmo tempo, estabelecer limites para que os filhos não fiquem à mercê e sucumbam à “adultização” precoce, é preciso poupá-los dos problemas e deixá-los serem crianças, na verdadeira acepção da palavra. “Os pais devem atentar-se aos comportamentos e procurar ajuda profissional quando se sentirem perdidos. Nada em excesso é bom. Então, tentar balancear a rotina da criança é fundamental. Permita que elas tenham responsabilidades e cobranças condizentes à idade e convivam com outras crianças. Que tenham atividades lúdicas e não brinquem somente com celular, tablete, computador e assistam programas de TV de acordo com sua faixa etária”, aconselha Marianna.

psicologa-monica-f-martins“É importante que os pais estimulem os dons dos filhos, mas é salutar que permitam e mostrem a importância de serem crianças, bem como não cobrem a perfeição. Não é preciso evitar que eles entrem em contato com o que é moderno, mas é fundamental o limite e a clareza de quem é que manda na relação. Cabe ao adulto praticar uma educação focada no limite e respeito, usando sua autoridade de pai e mãe, para que a criança experimente o que é o ideal para ela”, emenda Mônica.

Mônica enfatiza que a psicologia possui mecanismos para ajudar a criança a evoluir dentro das etapas, e não do tempo, considerados normais e adequadas ao desenvolvimento humano. “A psicologia trabalha a importância de valorizar cada fase do desenvolvimento infantil, mostrando os benefícios físicos, sociais e emocionais de respeitar cada momento. Pais atentos, preocupados e amorosos sempre buscarão fazer o que é melhor para seus filhos.”

As melhores saídas

Por mais que os conceitos evoluam, há práticas antigas que permanecem atuais. Para as profissionais, o diálogo e a educação por meio do exemplo sempre funcionam, assim como uma reprimenda, quando necessário. “Os pais são a primeira relação social que a criança estabelece, e a partir dessa interação é que são formadas as outras. É por meio do exemplo que ela compreende o que pode ou não fazer. Exemplo e diálogo desempenham papéis fundamentais na educação. Em alguns momentos, a punição também se faz necessária, porém, só é eficaz quando a criança compreende o motivo do corretivo”, declara Marianna.
“Os pais não podem querer que os filhos fiquem à parte do que acontece no mundo e alheios à modernidade. Entretanto, podem acompanhar de perto o que fazem e com verdadeiro interesse. Por exemplo, escolher com eles os jogos para brincar e quando perceber que tal jogo não é “legal”, explicar o porquê e manter a decisão até o fim, deixando claro que o fazem por amor. O diálogo é sempre a melhor saída, por mais difícil que pareça. Muitas vezes o não, mesmo que não seja bem aceito pelos pequenos, deixa claro que os pais se importam com o filho, e, cedo ou tarde, isso será compreendido. Essa história de ‘faça o que eu digo, não o que eu faço’, não funciona. Criança é como esponja, absorve e copia tudo o que vive. Portanto, se tiver exemplos benéficos em casa, certamente irá repeti-los durante a vida”, conclui Mônica.

Marianna Montesello Ferreira da Silva Psicóloga
Rua Epitácio Pessoa, 89
11 95556-2088
Psicóloga Marianna Montesello
marimontesello@hotmail.com

Mônica de Farias Martins Psicopedagoga/psicóloga
3436.7061/ 993776851