Dois cenários de crise. Aparentemente, casos impossíveis de serem resolvidos. Qualquer um que escutasse as histórias diria que o xeque-mate seria logo aplicado e a falência decretada.
A empresa “X”, uma metalúrgica, faturava R$ 450 mil por mês em 2012, porém, com uma dívida acumulada em R$ 1,8 milhão, o passivo superava em três vezes os valores ganhos. A empresa “Y”, também uma metalúrgica, devia ao Fisco e bancos cerca de R$ 23 milhões, além de compromissos assumidos com 380 colaboradores. O faturamento mensal era de R$ 3,5 milhões.
Nesse segundo caso, a situação era ainda um pouco mais grave: o quadro psicológico de seu proprietário estava afetado. A vontade era de resolver a dívida e deixar de atuar no mercado. Mesmo que tudo fosse resolvido, o dono da empresa, de pouco mais de 60 anos, assumiria sua aposentadoria. Para ele, já não dava para aguentar as noites de sono perdidas e as preocupações acumuladas.
Paulo Sérgio Zago, 46, é sócio do escritório de advocacia Oliveira e Zago, que está no mercado desde 1999. Hoje, com cerca de 40 colaboradores, a banca atua nas áreas de recuperação de créditos, recuperação de empresas comerciais e industriais, contratos e na trabalhista empresarial. O escritório assumiu as “bombas” das empresas X e Y, citadas acima. E diante dos quadros apresentados, confessou à Reportagem que nada foi fácil como aparentemente será apresentado nesta matéria. Porém, tudo caminhou bem graças a um detalhado plano econômico criado pela equipe de especialistas da advocacia e do bom ânimo e vontade dos envolvidos.
O caminho da recuperação
O escritório de advocacia Oliveira e Zago tomou conhecimento da situação da empresa “X” e fez uma análise do momento econômico em que ela estava vivendo. O diagnóstico envolvia o grau de endividamento bancário, fiscal, de fornecedores e empregados, além da questão patrimonial que a metalúrgica tinha. A partir daí foram escaladas as prioridades.
Segundo Zago, em primeiro lugar, é necessária que seja mantida em ordem a relação com os funcionários e, sobretudo, a folha de pagamento. “Não é possível recuperar uma empresa sem a colaboração da equipe de profissionais”, explica. Em um segundo momento, quitar os débitos com os fornecedores permitirá que a produção não pare.
Depois, foi traçado um plano para renegociação de dívidas com os bancos e, por último, o Fisco. Deixar esses dois para depois é uma estratégia, pois as negociações são mais fáceis. “O objetivo da empresa jamais foi deixar de cumprir com suas obrigações junto aos seus credores. Entretanto, precisava fazer um planejamento para se manter no mercado e sanear o passivo diante do momento econômico que ela estava vivendo”.
Zago conta que o endividamento com os fornecedores e funcionários foi resolvido nos primeiros 18 meses. Após ajeitar os problemas com as duas primeiras prioridades, o passivo com o banco e com o Fisco foi negociado e sanado.
Já no caso da empresa “Y”, Zago conta que primeiro ela precisou fazer mudanças no sistema de faturamento e de compra de matérias primas. Era comprado insumo para pagamento em 30 dias aos fornecedores, enquanto que os clientes saldavam as dívidas em 30, 60 e 90 dias. Portanto, não havia um encaixe no fluxo de caixa que compensasse os gastos no mês de compra de matéria prima com o faturamento.
Todo o processo para readaptação nos sistemas de caixa da empresa demorou cerca de 15 meses. Durante este período, seguindo o planejamento desejado pelo proprietário, todos os funcionários foram dispensados e integralmente indenizados. Os bens e imóveis do proprietário foram protegidos, além de ter gerado uma sobra de caixa que permitiu que ele vivesse com os rendimentos dos recursos gerados, além da locação das áreas da empresa.
Zago diz também que é essencial que as contas pessoais não se misturem com as da pessoa jurídica. “É necessário que o empresário utilize somente os valores de pró-labore para sua vida pessoal e não utilize em hipótese alguma os recursos da pessoa jurídica para interesses pessoais. Uma empresa com boa saúde financeira permite que todos os sócios sejam beneficiados. Um dos maiores problemas que identificamos é quando os sócios de uma determinada empresa começam a retirar mais do que a sua capacidade. A consequência não pode ser outra senão a quebra”, pontua.
Mas todo empresário, por mais difícil que seja a situação, deve se lembrar que sempre é possível dar a volta por cima. Para isso, às vezes, é necessário que se busque ajuda externa para saber estancar os pontos que estão fazendo a bola de neve se tornar cada vez maior.
É importante frisar que quando a empresa está caminhando para momentos financeiros ruins, ela dá indícios. Um deles é a necessidade de captar recursos no mercado, seja através de instituições financeiras, fundos ou factoring.
“No momento em que a empresa faz a venda de títulos ou a antecipação de recebíveis, para suprir uma necessidade de caixa anterior, ela começa a comprometer o seu futuro uma vez que vai atingir diretamente a margem de rentabilidade do negócio em função do custo financeiro. Então, a situação que já era difícil vai gradativamente se agravando. Quando o empresário percebe, em alguns casos já é tarde demais ”, conclui.
Os nomes das empresas foram preservados para não expor os clientes do escritório. O advogado recomenda que, identificada uma crise financeira, profissionais especializados em assessoria jurídica e financeira sejam procurados.

