Por José Paulo Ferrari, psicólogo, em viagem pelo Japão
A exemplo de outras tradições orientais, como a chinesa, tibetana e indiana, que têm
grande influência do budismo, as culturas japonesas mantêm uma visão da morte diferente da dos ocidentais. Para esse povo milenar, a morte é uma oportunidade de júbilo, uma vez que é vista como um renascimento para o plano espiritual ou mundo verdadeiro da origem da essência divina do homem. Portanto, o acontecimento da morte é razão de alegria, de risos e comemorações, além de homenagens e reverência, enquanto que o nascimento é motivo de choro e lamento, pela introdução da alma no mundo das expiações.
No Japão, em particular, o Dia dos Mortos, o O-bon, diferente do Brasil, é celebrado no
dia 15 de agosto, quando se acredita, então sob a ótica budista, que os espíritos dos mortos têm a permissão para visitar os seus familiares vivos. E, nisso, está o motivo da alegria e da comemoração do reencontro que é festejado com grande pompa.
Na oportunidade, é comum colocar lanternas nas portas das casas para guiar as almas dos
mortos. Essa comemoração, que dura – na verdade – vários dias, tem sua culminação com os acendimentos, também, de lanternas nos rios para que as almas possam, assim, retornar a seu mundo através das águas.
O interessante é observar que, segundo os ensinamentos preservados na cultura japonesa,
essas cerimonias têm suas raízes e influência nos rituais persas, através do zoroastrismo que atingiu a região do Japão por volta do ano 650, por meio da chamada Rota da Seda, com a comercialização de produtos, principalmente, pelos chineses, coreanos e persas. Na língua persa o antigo ritual recebia o nome de uruvan, que ficou conhecido entre os japoneses, então, de urobon e, finalmente, O-bon.
É importante lembrar que onde quer que vivam os budistas, em geral, mantêm em seus lares um pequeno santuário doméstico em reverência aos antepassados, chamado de hotokesama, diante do qual os membros da família fazem suas orações e depositam suas
oferendas, independente do O-bon, já que nutrem por seus antepassados profundo respeito e gratidão.

